segunda-feira, 2 de agosto de 2010

ARGILA



De barro sem valor me fizeste,
assim vermelha, porosa, sem liga
mas com tua mão me modelaste
me dando forma com água da vida.

Depois de me esculpir,
 sopraste em mim teu fôlego
Me fizeste carne mas me chamaste - alma
alma vivente posta em movimento
 coreografia santa, bailarina, performática.
Fizeste-me esta carne-espiritual
que se move por uma única força: teu sopro.

É teu sopro que me ergue do chão
É teu sopro que me coloca de pé.
Teu sopro me põe a andar,
Teu sopro me faz prosseguir

Não retires de mim o teu sopro
senão imediatamente cairei
Se de mim o teu sopro se for
argila novamente serei.

Não retires de mim a tua água
Senão, aqui dentro, ressecarei
Se de mim tua água se for
como terra seca, racharei ...

Não retires de mim tua água
pois em poeira me tornarei
Se de mim tua água se for
pelo vento espalhada serei

Sem vestígio deixar
Sem existência a provar
Não retires de mim teu sopro
meu único sentido de existir.


2 comentários:

PAULO disse...

Linda poesia. Duma forma singela e doce canta o gênesis de todos nós. O gênesis e o ocaso. Mas para não ficar só na rasgação de seda, pode ser útil uma reflexão, não exatamente por você, mas por qualquer pessoa que a lêem todos os dias, sobre os insistentes pedidos “não retires de mim o teu sopro... não retires de mim tua água”. Tais pedidos soam maravilhosos como confissão de dependência de Deus, ainda que no texto, como no livro de Ester, Deus apareça, mas não seu nome. Tomara que seja tão somente esta a intenção: dependência de Deus. Porque também deixam transparecer um apego exagerado a esta vida pela falta da esperança e da segurança que nos vem de Jesus nas palavras “Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá; e todo aquele que vive, e crê em mim, nunca morrerá. Crês tu isto?" (João 11:25-26) – Eu creio. Um abração pra você.

Lília Dias Marianno disse...

Quando os salmistas estavam em profunda dor, e a gente sabe que na hora da dor, não teologia sistemática que dê jeito, eles não estavam preocupados com "promessas do porvir". A bem da verdade, no AT este tipo de esperança sequer poderia ser contada, uma vez que não havia ainda as concepções neo-testamentárias que hoje conhecemos e que só a partir dos primeiros cristãos começou a entrar em vigor. Não se vê personagens do AT falando de esperança de ressurreição com a mesma intensidade que no NT. O salmista simplesmente dava um brado ao Deus da vida, reconhecendo que sem o Espírito de Deus, sua vida seria nada. Foi neste sentido que eu quis caminhar. Totalmente despretensiosa quanto à teologia, mas totalmente comprometida com minha devoção a Deus. No porvir não haverá dor, então não haverá necessidades de fazer poesias de lamentação, não é mesmo? Lá farei outro tipo de poesia, rs. Um abraço grande meu amigo. Valeu pelo post!