segunda-feira, 29 de novembro de 2010

7 parágrafos sobre a alteridade


Alteridade: 
Estado ou qualidade do que é outro, distinto, diferente.  

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Uns 20 anos atrás uma amiga falou-me a respeito da situação familiar de outra pessoa. Me chamou a atenção uma coisa que ela disse: "que coisa mais triste, aquela mulher não sabe ser amada. Não sabe receber carinho, a gente vai abraçá-la e ela fica toda rígida, como se tivesse levado um choque, não consegue fazer um movimento, nem sorrir, parece horrorizada". Me lembrei de algumas pessoas que conheci na estrada da vida, que não sabem receber amor. Em geral, elas têm uma imagem de si próprias tão ruim, e são tão mal resolvidas consigo mesmas, que quando alguém aparece dando amor deliberado, rasgado e descarado, a pessoa praticamente se sente ofendida, não sabe o que vai fazer com aquilo. Afinal, se nem ela se ama, como admitir que outros a amem? A falta de jeito para receber amor é tão grande que elas acabam se tornando indiferentes, quando não se tornam hostis ao amor doado. Obviamente terminaram afastando as pessoas que as amavam. Não se perceberam alvo do interesse do outro e se esqueceram que amor, seja ele qual for, nunca se deve rejeitar. Deve-se sim, abraçar, acolher, desfrutar.


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Na semana passada participei de um simpósio sobre administração em Recursos Humanos. Foi um evento ótimo. Os palestrantes eram de altíssimo nível. Mas dois deles me emocionaram pra valer. Dois especialistas em coaching. Me emocionaram porque, num determinado momento da palestra eles fizeram todo o auditório olhar para o passado, para nossa infância tenra e sonhadora, e nos conduziram também a olharmos para o futuro, já velhinhos, com nossos netos. Mas entre uma e outra cena, fomos levados a pedir perdão àquela criança sonhadora dentro de nós, pelos muitos sonhos dela que não conseguimos realizar. Mas também fomos conduzidos a parabenizar os velhinhos que seremos pelo tanto que conquistamos e realizamos em nossa vida. Foi um lindo momento de ser apascentada espiritualmente num encontro que deveria se preocupar apenas com minha produtividade e meu desempenho profissional.



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Tenho ficado um pouco assustada sobre como as pessoas tem conseguido ser mais consoladas nos ambientes inesperados do que naqueles ambientes esperados. Em 2008, época em que eu usava este blog para postar textos acadêmicos, postei um texto intitulado "Sob as luzes da ribalta". Nesse artigo eu falei da forma como me escandalizava ver que o uso da mídia feito pelos evangélicos não está ajudando as pessoas como deveria ajudar. E que as funções de consolo, mentoria e pastoreio tem sido realizadas por outros agentes da comunicação, como apresentadores de  alguns reality shows que a gente acaba assistindo, quando resolve usar o controle remoto da TV numa tarde qualquer.



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A pós-modernidade é um desafio para todos nós. Como resistir às facilidades providas pelos relacionamentos virtuais? Vale à pena encarar o desconforto do relacionamento concreto? Todo relacionamento é desgastante Alguns em maior grau, outros em menor grau. Se ele se manifesta no ambiente virtual, mas ele é fruto do contato entre seres humanos, ele também é desgastante. Relacionamento requer, acima de tudo, investimento. Investimento de tempo, de energia, de disponibilidade, de paciência, de sacrifício, de confiança na outra pessoa, de desejo de estar com ela. Seja entre casais de namorados ou casados, seja entre amigos de verdade ou membros de uma família. Quaisquer pessoas que se recusem a limitar seus relacionamentos a um assento acolchoado na frente de uma tela enquanto operam um MSN ou um chat qualquer, sim, quaisquer pessoas que  queiram colocar a cara à mostra, "dar a cara à tapa", essas experimentarão o calor da proximidade do outro ser humano. Às vezes esse calor traz queimaduras de grande proporção, às vezes ele aquece e acolhe. É o risco.



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Estava lembrando de um gibi que gosto muito: Calvin & Haroldo, criado por Bill Watson. Calvin é um menino hiperativo, com uma imaginação fertilíssima e filho único. Não brinca com outras crianças,  seu convívio social é limitado à sua mãe e seu pai em casa e, por poucas horas, com a professora e os coleguinhas na escola. Haroldo é o tigre de pelúcia do Calvin. Eu imagino que esse tigre deveria ser muito sujo e todo puído porque Calvin leva Haroldo para todos os cantos. Haroldo é o melhor amigo de Calvin e fazem tudo juntos, mas só na imaginação do Calvin. O mundo paralelo que Calvin constrói com Haroldo  é tão perfeito que até o leitor fica na dúvida se Haroldo não é real. Cartunistas contemporâneos têm desenvolvido a vida do Calvin adolescente e adulto, quando ele sai inevitavelmente de sua "concha"  protetora da infância, seu mundinho imaginário muito agradável e, obrigado a amadurecer, tem que encarar a vida real. É hilariante ver as cenas nas quais Calvin, já adulto, fica travado, pensando que Haroldo o está vigiando, já que Haroldo faz parte de seu enxoval e o acompanha na faculdade e para onde vá. Calvin adulto já não sabe discernir muito bem entre o concreto e o imaginário... esquisofrenia a caminho ou já instalada?



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Numa visão mais mórbida e nada divertida das hilalriantes aventuras de Calvin & Haroldo, eles me lembram o sujeito pós-moderno, que não quer se envolver com o outro. Que prefere mil vezes cultivar uma amizade na qual se fala com o "amigo" por meio de e-mails e se dedica a ele a menor energia possível. Afinal, as prioridades deste sujeito pós-moderno, fechado no seu individualismo, sempre estão em primeiro plano. Não há espaço para a alteridade, não há espaço para se importar com os sentimentos do outro, mesmo que o outro seja um amigo concreto. Tigres de pelúcia e amigos de internet são muito mais fáceis de se administrar. Se o tigre nos machucar, a gente bate com ele na pedra até cansar, é de pelúcia, não estaremos matando ninguém. Se é de internet, é ainda mais fácil. É só usar o recurso chamado "ignorar". A gente apaga e resolve a questão. Eu não acredito em amizade virtual. Amizade de verdade é aquela que vem da doação, do investimento de energia, da canseira mesmo, sim, amigo cansa! Se não cansasse não seria amigo! Gente cansa! É aquela que gruda, que briga, que junta, que separa, que elogia e que dá bronca, que tolera tudo e que não tolera certas coisas...



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Tenho andado por aí e vejo gente sem esperança, sem afeto, sem rumo, sem carinho, sem amor. Tenho me perguntado: "o que posso fazer por essa gente?" Sou uma pessoa afetuosa por natureza e manter meu afeto trancafiado me adoece. Tenho que liberar isso em algum canto. Ontem pensei nisso tão seriamente, que me imaginei se não está na hora de eu me dedicar integralmente a uma capelania hospitalar ou aos idosos, por exemplo. Quanta gente neste mundo está enferma ou abandonada, ou pior, enferma e abandonada, e não recebe um carinho, um abraço, um poema a tanto tempo. Às vezes a gente fica egocentrado, no meio do círculo volátil de amiguinhos próximos, achando que nos proporcionam alguma segurança, mas que na maioria das vezes vestiram a camisa da pós-modernidade tão bem que  nem fazem mais questão da nossa companhia. Enquanto isso milhares de pessoas morrem diariamente sem ouvir uma única vez que elas são preciosas, que elas são importante.




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Deus que me livre da sedução do mundo virtual! Que nos adestra para substitui as pessoas por e-mails, o contato humano por um twiter, a oportunidade de sentar e tomar um chá com um amigo por umas poucas palavras ditas em códigos e cheias de emoticons num MSN. 
Deus que me livre de me afastar do ser humano, de celebrar meu isolamento, de falar só com animais ao invés de falar com gente, porque bichos não me desafiam.
Deus me livre de não sentar com as pessoas para ouvir os problemas delas e não segurar-lhes as mãos enquanto juntos fazemos uma oração!
Deus que me livre de não me importar com a dor do meu irmão, com o sofrimento de um indigente, com o desamor sofrido por alguém que nem conheço, mas que é outro ser humano, semelhante a mim. 
Deus que me livre de não conseguir chorar mais por outro alguém por achar que no fundo, não vai fazer a menor diferença.

Shalom!





2 comentários:

Dulce Moraes disse...

É maravilhoso poder ler estes parágrafos e refletir sobre tudo o que ali está.
Ontem estive relembrando meu passado. Quantos momentos perto de outras pessoas eu tinha que hoje parecem ser algo ilusório. Quantas tarde e noites ficávamos perdendo a noção do tempo, dando gargalhadas, chorando e contando tudo, sobre tudo e às vezes nada.
Que delícia tomar chocolate quente agarradas embaixo de um cobertor. Todas ali, juntas. Hoje, depois de 10 anos, nem por telefone nos falamos. Por orkut, bem pouco. O que aconteceu? Não sei. Ou melhor, acabo de descobrir lendo esses parágrafos (a realidade é que já sabia mas não queria acreditar).
Que bom poder refletir sobre isso. Obrigada Lília. Que Deus possa nos livrar.

Lília Marianno disse...

Pois é Dulce! Que Deus nos livre e que nós façamos a nossa parte para nos livrar dessas ciladas também. Um beijo pra você.