segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Descanso, silêncio e sussurro


Sempre fui questionadora. Ultimamente ando mais. Nos meus últimos três anos um dos meus mais sérios questionamentos tem versado sobre o MANDAMENTO DO DESCANSO. Os cristãos, em especial os evangélicos, sofrem de ativismo compulsivo. Eles acham que trabalhando incessantemente e sem descansar estão agradando a Deus. Vivem como se fosse pecado parar, repousar, cessar a atividade. Obrigamos nosso corpo (o Templo do Espírito Santo) a viver um ritmo para o qual Deus não o criou. Ficamos doentes, nosso sono se agita, as doenças psicossomáticas invadem o Templo, perdemos o discernimento e oferecemos a Deus um coração ardente revestido de um corpo arrebentado, mal cuidado, maltratado, desgastado, irritado, saturado.  O mais difícil é convencer um cristão fervoroso de que isso  não é oferta de primícia como ele pensa, ao contrário, é oferta de quinta categoria..

O ser humano entra em atividade frenética, num ritmo de locomotiva desembestada, suicida, porque tem medo de parar. Tem medo de ficar em silêncio, de ouvir o som do próprio pensamento. Não por acaso há tantos cristãos que reclamam não ouvir a voz de Deus. Sem orientação direta de Deus, fazem uso de mulheres e homens de oração aqui e ali, como se o poder que flui da vida desses santos homens e mulheres de Deus fosse maior do que o poder do próprio Deus. Houve uma época ( mais de 20 anos atrás) que eu também buscava profetas, mas depois que discerni a terna e doce voz do meu Senhor enchendo o Templo, nunca mais eu quis saber de profetas.

Ouvir a voz dele me leva para um jardim de paz e segurança, com grama verdinha, céu azul brilhante e nuvens de algodão. Não tem coisa nesta Terra que se compare a ser conduzida para este recanto de paz,onde a voz dEle me leva. Aquela voz ...  não é bem uma "voz", é um cochicho suave, claro e gentil, um sussurro amoroso por mais dura que seja a verdade que me comunique. Eu sei que é Ele porque nada me traz tamanha paz. Mas para ouvir esse sussurro eu tenho que aprender a silenciar. E para aprender a silenciar, sou obrigada  a pausar. Ele é muito cavalheiro e não fala enquanto estou agitada. Espera que eu sossegue para ouvi-lo. É por isso que eu adoro parar. Sempre que  silencio eu escuto aquele sussurro cheio de ternura, interessado no meu bem e na minha alegria falando comigo outra vez.

Uma pena que tem gente que não consegue parar. Parar lhes é  angustiante. Quando se para, fica-se obrigado a refletir na própria vida, no rumo que estamos tomando. Para muita gente isso é simplesmente apavorante.  Nessa vida de espiritualidade contemplativa uma das coisas que tenho aprendido e aperfeiçoado é dedicar o descanso como oferta ao Senhor. O dia do Senhor para o meu Senhor. No último ano e meio passo o domingo inteiro nos "átrios dEle", não trabalhando, mas ficando sozinha com Ele. Gosto da igreja cheia, mas prefiro mil vezes o tabernáculo vazio, onde só eu e Ele conversamos.

Ontem, domingo, escrevi esta "poesia" para celebrar estes doces momentos de intimidade.
Desfrute!

Acordo ansiosa, eufórica: é domingo!
Vou passar o dia inteiro com Jesus.
Chego ao tabernáculo
e me apresento para o serviço
cantando, ensinando ou orando.

Após o culto matinal me alimento.
Rejeito convites de amigos.
Tu és mais importante.
Conversar com eles me tira tempo contigo.

Desligo telefone e internet.
Simplesmente desconecto.
Ninguém vai interromper nosso momento.
e conversamos durante o almoço.

Depois do almoço procuro um canto sossegado.
Me acompanham músicas e a Bíblia.
Às vezes a agenda com tuas últimas orientações.

Gratidão invade minha alma e começo a chorar
Reconheço teu cuidado, teu fôlego que me sustenta,
e tua misericórdia que se renovou sobre mim 
quando o dia alvoreceu.
Começo a ler Tua Palavra e 
Tuas declarações de amor me saltam os olhos.

Me aconchego no Teu sussurro
Lembro nossas conversas recentes
Me emociono de novo.
Recordar-te me traz calor.
Sou abraçada pela Tua graça
Embalada pela Tua ternura.
Em silêncio desfruto Tua visitação.
Meu coração, em reverência
quase nem ousa bater.


Sinto o sono do bebê ninado
Por ti beijado e acariciado.
Adormeço suavemente.
Lá bem longe escuto a canção
que me conduziu para tão perto de ti.

Meu dia é todo teu.
Mas esta é a hora de dormir no teu peito.
Um tempo depois Tu me despertas. 
Novamente é tempo de servir.
Sinto-me completamente abastecida.
Uma restauração sobrenatural possuiu meu corpo.
Uma energia vibrante me ocupa o coração.
A noite chegou, é tempo de celebração.

O culto acabou, que pena.
Já sinto saudade da tarde gostosa
Do nosso tempo exclusivo.
De tua companhia adorável
De tua visitação inconfundível.

Meu descanso é teu, somente teu.
E quando durmo ninada por Ti
todo o cansaço sai  
toda tristeza se vai.


sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Josiane

Ah, menina!
Teu olhar tristonho,
tua barriga inchada,
teu cabelo troncho,
tua roupa suja,
pedindo um sorvete,
ali ao meu lado, 
me fez chorar o coração

Ah, menina!
Tua fome de afeto,
tua pergunta pela batata,
tua decepção com o preço,
tua vergonha de si,
tua certeza de não ser nada,
ali ao meu lado,
arrebentou meu coração.

Ah, menina!
Tu pagaste teu sorvete,
e eu paguei tua batata, 
para te reter por um minuto,
e te olhar nos olhos
mostrando a ternura do Cristo
que um dia ficou ao meu lado,
e me curou o coração.

No balcão daquele fastfood
Minhas entranhas se contorceram
Era Cristo amando você.
Josiane, não use mais crack,
Deus quer lhe fazer feliz.
Vem para minha tribo!
A gente vai cuidar de você.

Toma aqui sua batata,
mas cuidado com a gordura,
seu estômago não está forte.
Se precisar de nossa ajuda,
já sabe onde  encontrar.


Dedicado à Josiane, uma menina da rua, aqui na Tijuca, 
uns 15 anos de idade, que arrebentou meu coração hoje na hora do almoço.
Como eu quis abraçá-la e levá-la embora comigo!
Acariciar aquele cabelo desgrenhado e aquele rosto marcado de dor.
Se eu pudesse teria transformado a vida dela naquele instante.
Mas Deus respeita o livre arbítrio do ser humano.
A iniciativa da cruz ele já fez, a humildade de receber este amor,
tem que ser do ser humano.
Dei o endereço e pedi:  "não fuma mais crack, ele está destruindo você.
Deus te ama tanto e quer tanto te fazer feliz! A gente pode ajudar você!"
Ela assentiu com a cabeça, me deu um sorriso tristonho,
como quem recebe atenção de alguém pela primeira vez na vida,
agradeceu pela batata e falou: "tá bom tia, obrigada tia."
Espero encontrá-la na Cristolândia em breve.
Mas como dormir sem ver aquele rosto todas as noites enquanto isso?
Senhor, venha o Teu Reino!
As entranhas não aguentam mais de tanto gemer.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Querer te amar

Ganhei essa música da Bia Pimentinha (Pimentel).
Carol Gualberto - Querer Te Amar.
Poesia lindíssima, que expressa um tanto do mundo de emoções e aspirações espirituais que tenho com meu Jesus. Se você quer saber o que acontece nos meus retiros, tá aqui, compartilho.



Quero a simplicidade do café com pão
Quero a sinceridade do sim, sim, não, não
Quero a pedagogia de querer crescer
Quero a filosofia de saber viver

Quero a facilidade de deitar, dormir
Quero integridade de não me omitir
Quero a gastronomia de experimentar
Quero teologia que me faz sangrar

Com os olhos marejados de espanto 
no meu canto de silêncio e adoração
ao saber que a vida é tanto, tanto,contemplação!
Misterio do milagre do Cristo
Que eu resisto que eu insisto em não imitar
É por isso que eu quero a graça de querer Te amar

Quero a generosidade de estender a mão
Quero a criatividade de fazer canção
Quero a sabedoria de me conhecer
Quero a Tua companhia quando entardecer

Quero aquela empatia de saber ouvir
Quero a boa terapia de morrer de rir
Quero a felicidade de me contentar
Quero a espiritualidade de me aquietar

Com os olhos marejados de espanto...

Santuário

O respirar da tua graça
Me invade com imagem dos teus olhos, Jesus
Meu corpo, teu santuário,
limpo está para tua visitação.
Inspirado teu sopro 
nada faço em minhas entranhas 
além de suspirar tua essência
divina, linda e graciosa,
que me preenche de paz e serenidade,
e da confiança que tua mão segura me traz.
Na Rocha me escondo e sou,
Jesus, novamente tua.


sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Dois Haikais: Desabrochar e Exuberância

Desabrochar:

A roda da vida girou.
Flor - brotou, botão - abriu, perfume - exalou, em volta encantou.
Só - ficou, envelheceu - murchou, caiu - morreu.

Exuberância:

Água passou, semente levou.
No solo agarrou, morreu; brotou floresceu, em volta encantou.
Perfume voltou e na memória ficou.

Imagem royalty-free: Close up of yellow flower 
A vida é um constante desabrochar.
Que perfume exalamos para os que passeiam entre nós? 
Estamos marcando esta passagem pela ternura do florescer?
Qual é a exuberância do meu desabrochar?
Será esquecido ou na memória ficará?