domingo, 31 de julho de 2011

Rito de passagem - nostalgia sobre o novo

Acabo de chegar de um período de quatro dias em Paraty que eu posso chamar "férias". Um tempo muito agradável com os filhos, parentes e amigos. E aprendi, nestes dias, algo precioso sobre o tempo.

Desde a década de 40/50 grande parte da minha família vive na cidade e  viajamos com alguma regularidade para visitá-los.  Paraty é uma cidade antiga, que me traz lindas memórias da infância. Visitei esta cidade pela primeira vez em 1972, quando ainda era necessário ir para SP e voltar via Guaratinguetá, pois a Rio-Santos não estava construída. Na casa dos meus pais há fotos dos anos seguintes (1973 - 1975), quando passávamos com vários carros  da família  em meio aos tratores, que removiam as sobras das pedreiras recém demolidas para dar espaço à estrada. Marianos daqui (sim, Mariano com um N só) em comitiva para visitar os Mariano do lado de lá.

Em plena construção da Rio-Santos eu, ainda guria,  estava lá. Aliás, a Rio-Santos é uma estrada em constante reconstrução, obrigada a se renovar o tempo inteiro devido à quantidade de deslizamentos que  levam parte dela para o mar. Eu amo viajar para Paraty, pois esta cidade tem um efeito "mágico" sobre as minhas veias, sempre me ensina algo de novo. Desta vez Paraty  me reservava uma adorável surpresa.

A cidade me surpreendeu com a quantidade de coisas novas sobre ela que eu não conhecia, incluindo uma trilha na floresta, duas praias e uma cachoeira simplesmente fantástica. Como pode o novo estar tão próximo do velho desta forma e não ser percebido? E como pode nosso apego excessivo à memória nos pregar uma peça deste tamanho a ponto de nos cegar para a beleza daquilo que sempre esteve ali, nem era novo, mas por ter sido alvo da nossa indiferença, nunca fora notado? Se fez novo diante de nós na hora que o contemplamos como que pela primeira vez?

Sou uma pessoa apegada ao trabalho e tenho tendência de desenvolver pelas minhas atividades profissionais  um afeto para além do normal.  Mas nos últimos doze meses vim sendo forçada pelas circunstâncias a abandonar uma atividade que desenvolvi por quinze anos (a docência da teologia) para me dedicar apenas à outra atividade que exercia paralelamente há vinte anos (a profissão de administradora) embora com menor dedicação. Esse processo chegou ao seu ápice quando me desliguei, na semana passada, da última escola de teologia à qual ainda permanecia ligada: O Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil. Fui pesquisadora e docente desta instituição desde 2000.

Deixar a docência teológica em prol do empreendedorismo empresarial foi difícil. Por inúmeros fatores que não vêm ao caso aqui, mas precisei lutar com muita força de vontade para me desapegar. Tudo porque não tinha compreensão deste processo de morrer e nascer que estava acontecendo diante de mim. 

Talvez muitos dos leitores deste blog não saibam que me especializei em hebraico bíblico. Lecionei esta disciplina ininterruptamente de 2003 até 2011, paralela a outras disciplinas. Anos atrás precisei retraduzir do hebraico Eclesiastes 3,1-8.  Esse é um texto que gosto muito e tem sido uma espécie de chão para as decisões que tomei nos últimos dez anos.

Tratava-se de um exercício para uso dos meus alunos de exegese bíblica, mas todo processo de retradução é significativamente elucidativo porque nos mostra as outras opções que um tradutor teve em mãos quando escolheu apenas uma delas para registrar seu trabalho. Então vamos à versão Lília Marianno de Ec 3,1-8.

Para tudo está determinado [um tempo]
e um tempo há para toda alegria sob os céus.
Um tempo para nascer e um tempo para morrer;
um tempo para plantar e um tempo para arrancar o plantado;
um tempo para matar e um tempo para curar;
um tempo para derrubar e um tempo para construir;
um tempo para chorar e um tempo para rir;
um tempo lamentar e um tempo dançar;
um tempo para atirar pedras e um tempo recolher pedras;
um tempo para abraçar e um tempo para abster-se de abraçar;
um tempo para buscar e um tempo para deixar perder;
um tempo para proteger e um tempo para derrubar
um tempo para rasgar e um tempo para costurar;
um tempo para calar e um tempo para falar;
um tempo para amar e um tempo para odiar
um tempo[é] uma guerra e um tempo[é] uma paz.


Essa poesia originada no movimento sapiencial judaico dos quatro primeiros séculos AEC tem inspirado muitos escritores e músicos dos dias atuais. Lembro de  The Birds (1965) cantando esta música desde o ano em que nasci, mas também de partes dela incluídas em Miss Sarajevo do celebrado U2 (que a gravou em 1995 sob o pseudônimo de The Passengers), ao falar sobre a guerra na Bósnia.

Certos "tempos" na nossa vida se vão e seus processos carecem de sepultamento. Não porque eles nos magoaram, porque temos raiva deles, ou porque não foram bem vividos e deles só queremos o esquecimento, mas porque o tempo deles simplesmente passou. Nestes últimos dias, usufruindo do "tempo de" descansar, eu consegui sepultar o que precisava ser sepultado. 

Ofereci a minha primícia no tempo que foi o de  "abraçar". E neste tempo de "deixar de abraçar", já não há qualquer dor, nem rancor, apenas o sentimento de gratidão nostálgica sobre aquele tempo que foi bom. Há sim, uma euforia quase infantil pelo novo que está chegando, que ironicamente sempre esteve ali, ao lado do velho, mas muitas vezes foi ignorado.

Me peguei, algumas horas atrás, destruindo papeis velhos, usados em ambos os lados. O material? Registro de notas de alunos de quatro, cinco, seis anos atrás, disciplinas diversas, escolas diversas. Fiz sem dor, sem tristeza. Fiz como oferta agradável  cujo aroma chega até os céus confiando no Deus que me diz: "eis que faço novas todas as coisas".

Shalom!






domingo, 3 de julho de 2011

Poema de hoje

O hoje foi em 26/06/2011 ;-)

Delicada como a flor do campo
e forte como um muro de bronze.
Singela como os passarinhos,
mas orgulhosa filha do Rei.

Boca corajosa,
pena audaciosa.
Assim me criaste.
Assim me amas.
Assim sou eu.
Por tudo, 
profundamente grata.