terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Rebeca foi absolvida e a graça começou a ser entendida!

Essas minhas andanças por aí andam me proporcionando algumas surpresas.
Neste último domingo estive numa igreja batista no interior da cidade de Nova Iguaçu.
Meu desafio: lecionar para um público de umas 60 pessoas sobre Bíblia e Gênero, refletindo sobre Rebeca: divida entre 3 amores, a lição 4 da Palavra e Vida deste trimestre.

[nos links aqui ao lado, vc tem acesso ao texto da lição e também ao roteiro de aula que segui com este grupo]

No final da aula tivemos uma dramatização: o julgamento de Rebeca.
Rebeca foi interrogada por um advogado de acusação e uma advogada de defesa, e como mulher e mãe, respondeu à todas as perguntas. O júri era o próprio público, que recebeu pequenas cédulas para votação secreta a respeito desta mãe que colocou seus 3 amores uns contra os outros, o marido e seus dois filhos e depois disso desapareceu da narrativa bíblica. INOCENTE ou CULPADA, apenas uma das respostas deveria ser escrita no papel.

Uns minutos antes, um dos participantes do estudo me perguntara se eu achava que depois de tudo que aconteceu na família eu pensava que Rebeca teria sido "salva".
Com meus apetrechos de teóloga eu respondi que não podemos comparar os padrões de salvação do NT com os do AT. No AT a prática da justiça e a obediência aos mandamentos e à aliança com Deus é que norteavam estas questões de salvação [sem entrar no mérito se Jesus desceu ao sheol pra resgatar essa gente do AT ou não]. Além disso é um grande engodo tentarmos entrar no pleito da salvação das outras pessoas quando separar o joio do trigo é algo que o Senhor Jesus falou que o Pai é quem vai fazer! Longe de nós tentar ocupar a posição de Deus nesta história!

Mas o fato é que fui surpreendida com o resultado da votação: 4 votos nulos, 15 votos declarando Rebeca culpada e 29 votos declarando-a inocente. Fiquei muito surpresa mesmo e tentei refletir no que estes números poderiam dizer para nós.
Rebeca foi absolvida e eu me senti aliviada por ter liberdade de dizer que eu penso que encontraremos com ela no céu sim, porque Deus é amoroso e perdoador.
No fim da reunião eu confessei aos irmãos que estava surpresa e feliz, porque se o julgamento absolveu Rebeca, é sinal que estamos começando a entender o significado da palavra GRAÇA!

E essa imagem toda esquisita aí em cima?

Eu sou meio fascinada por mapas. Quando encontrei este aí fiquei encantada! Penso que jamais teria a oportunidade de ver a Palestina sob este ângulo se não fossem os recursos de satélite e da net. Não é diferente? Olhar para a Palestina de cabeça para baixo! Mas por quê, cabeça para baixo? A terra não é redonda (ou ovalada)? Deveria ser possível enxergá-la sob todos os ângulos imagináveis, ao invés de nos limitarmos naquela projeção quadradinha que os atlas nos dão, não é mesmo? Eu quis colocar esta imagem aqui porque trabalhar com Bíblia requer um constante esforço de virar o texto de "cabeça para baixo", e trabalhar com Gênero também demanda o esforço de passar para o lado de lá, tentando enxergar as circunstâncias com o olhar do outro sujeito, com o olhar diferente do nosso. Fiquem aí com a Palestina de "pernas pro ar", pensando um pouquinho em como isso pode ser provocado na reflexão teológica, ok?

P.S.: Vez ou outra eu troco este texto de lugar, retiro lá do fundo e trago à tona para que ele seja uma espécie de apresentação do blogger, junto com a minha "carinha" aí do lado. Esses dias tenho dado palestras em várias igrejas e tenho que "plantar bananeira" para estimular as pessoas a olharem o texto de outro ângulo. Dá um trabalho...! Mas está sendo muito bom.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Sexo, sexualidade e reflexão teológica (parte 2)

(continuação da postagem anterior)

3. Reflexão bíblico-teológica feminista latino-americana para o século XXI

Em 2004, teólogas biblistas latino-americanas, assessoras de RIBLA[1], se reuniram no Brasil para discussão das pautas hermenêuticas que norteiam a reflexão bíblico-teológica feminista. O objetivo era listar as prioridades e ênfases na reflexão teológica para que a hermenêutica bíblica feminista latino-americana continue seguindo seu caminho sem abandonar seus pilares, seus valores centrais, abrindo, porém, novos tópicos no debate de gênero, religião e teologia bíblica. Ali se reafirmam alguns paradigmas para a hermenêutica bíblica feminista latino-americana no despontar do séc. XXI[2]:
a) A parcialidade interpretativa e a pluralidade de paradigmas é critério interpretativo em nossas abordagens;
b) a hermenêutica feminista latino-americana é filha do movimento bíblico-teológico latino-americano e continua tendo como objetivo “a construção de relações justas e de superação de todas as formas de violência, partindo de nossos [...] corpos, experiências e relações de construção de “um outro mundo possível”[3].
c) três enfoques de semelhante prioridade para a reflexão são estabelecidos: libertação, ecofeminismo e étnico-racial.
d) Parcialidade, provisioriedade, ambigüidade, diversidade, experiência e simultaneidade foram categorias assumidas pelas biblistas como categorias hermenêuticas de crítica aos poderes hegemônicos.

Alguns teólogos pouco familiarizados com os estudos de gênero ironizam as iniciativas feministas classificando tais categorias como “falta de objetividade” dizendo que as biblistas feministas não são claras nem diretas quanto ao que querem discutir teologicamente. Entretanto, para as biblistas latino-americanas este é um paradigma e nosso maior diferencial: não dar respostas prontas, antes levantar novos questionamentos, novas suspeitas hermenêuticas e apontar novos caminhos ou caminhos antigos a serem revisitados. É pedagógico pois o educador não é aquele que formata o pensamento do educando, antes o ensina a pensar e a refletir.

Não podemos desconsiderar os fatores sociológicos que deram origem à teologia feminista neste continente, muito menos esquecer que a militância feminista latino-americana, muito mais do que uma luta por igualdade de direitos, nasceu pela ausência de entes queridos, a partir das casas governadas por mulheres, casas cujos homens morreram nas lutas de resistência política ou ficaram trancafiados, sendo torturados por décadas como prisioneiros políticos em nossos países que sofriam sob a pesada mão da ditadura militar nos anos 70 e 80. Os motivos deste nascimento foram só nossos.

Tais princípios (parcialidade, provisioriedade, ambigüidade, diversidade, experiência e simultaneidade) são assumidos justamente por sabermos que, mesmo numa crítica ao poder instituído, nem tudo é criticável, nem tudo pode ser visto de forma negativa, estabelecer valores generalizantes, definitivos, objetivos, unilaterais, teóricos e sucessivos implica em desprivilegiar os aspectos positivos e benéficos que também devem ser mencionados em nossas abordagens cada vez que tentamos, através de nossas reflexões, propor “um novo mundo possível”.

O principal desafio é o de não tornar nosso discurso um modelo feminilizado do discurso patriarcal tão criticado. Isto é, não permitir que o discurso feminista se torne tão militante que termine por marginalizar quaisquer pessoas que não sejam mulheres, e acabe se tornando uma cópia invertida do modelo machista. Cotidiano e corporeidade passam a ser categorias hermenêuticas articulando o pensamento feminista com as preocupações básicas de nossos povos pobres, o sistema de mercado, as políticas neoliberais e seus efeitos na vida do continente latino-americano.

4. Teologia Queer ... do que se trata, afinal?

Apropriando-se das teorias de gênero como roteiro para o questionamento dos papéis sociais entre homens e mulheres, os integrantes do universo GLBTT começaram a participar dos Estudos de Gênero, direcionando seus esforços para a pesquisa sobre sexualidade[4].

Desde os finais do século XVIII os estudos sobre sexualidade humana estabeleceram uma ruptura com o conceito de que sexualidade é alguma coisa fixa e homogênea e que padrões diferentes de sexualidade não sejam identificáveis. Os estudos de Michel Foucault muito contribuíram para a compreensão de que a sexualidade humana tem uma história. Suas teorias formam os princípios germinais da Teoria Queer.

No início dos anos 90 o termo queer foi adquirindo significado mais específico e seu principal objetivo foi questionar o centrismo da heterossexualidade que estrutura as sociedades, com isso propôs caminhos mais diversos e menos dualistas. Queer é tudo que não se enquadra, nem se encaixa no dualismo homem – mulher que define as relações heterossexuais normativas e consideradas “normais”, isto é não-desviantes. Sexualidade queer é justamente a sexualidade que se desvia do padrão normativo estabelecido na construção social.

“O questionamento do binarismo/dualismo homo-heterossexual não implica apenas o rompimento com a normatividade da sexualidade heterossexual, mas a problematização da organização social que está organizada ao redor dela. [...] a vida pessoal não é apenas política, mas sexualizada e, consequentemente, heterossexualizada. Por isso seu objetivo tem sido dar um passo além dos estudos de Gênero e tornar a sexualidade um assunto de relevância acadêmica, não só nos discursos e estudos da medicina e psicologia, mas em áreas tão diversas quanto economia, sociologia, antropologia, política e religião”[5].

Pesquisas recentes de cientistas renomados[6] como Berte Pakkenberg, Gunther Dorner, Dick Swaab (Netherland Institute of Brain Research) e a geneticista britânica Anne Moir têm trazido importantes descobertas no campo da sexualidade na última década. Estudos sobre codificação do DNA têm cooperado para o entendimento sobre quais seriam estas sexualidades entendidas como “desviantes” ou múltiplas, como o nome queer deseja definir. Tais estudos estão nos conduzindo a uma revisão do pressuposto de que homossexualidade seria doença, opção sexual ou atitude imoral e que na verdade tem muito mais conexão com o código genético que uma pessoa recebe durante seu processo embrionário[7].

Diante destes novos postulados, que papel desempenha a reflexão teológica? Pode existir uma teologia queer relevante para a vida da igreja? Que formulações éticas tais aproximações conseguem oferecer? Como uma hermenêutica queer pode contribuir para uma teologia pastoral mais humana? Que tipo de contribuições uma hermenêutica queer oferece à interpretação bíblica num momento em que a lista de direitos civis conquistados pelos gays aumenta a cada dia? Uma reflexão teológica queer é necessária?

Entender como os teólogos gays pensam teologia não significa aprovar e adotar suas práticas homossexuais. Que ninguém entenda isso de maneira equivocada! Entender o diversificado mundo queer implica em compreender um universo sempre sectarizado e marginalizado pela sociedade e para o qual, durante muitos séculos, a igreja se recusou a exercer uma prática pastoral inclusiva. Afinal é o “corpo de quem não se encaixa” que terá a oportunidade de ser ouvido neste exercício. “A teologia queer parte das histórias vividas pelas pessoas homossexuais como forma de devolver-lhes a palavra e permitir que articulem seus próprios anseios e necessidades”[8].

Sérias questões pertinentes à corporeidade e à sexualidade entraram no debate teológico através dos teóricos queer. Gays também lêem a Bíblia, estudam teologia, fundam igrejas cristãs e pastoreiam estas igrejas e não há nada que façamos que consiga deter o crescimento destes segmentos. Eles existem, simplesmente, estão na sociedade crescendo em número de fiéis.Meu objetivo aqui não é entrar no mérito da questão se é certo, se não é, se é bíblico ou não, se é pecado ou não. Estou me limitando neste texto a ser apenas descritiva. Nem sequer emito minha opinião sobre o assunto, não é mesmo minha intenção.

A teologia/hermenêutica queer apropria-se de vários eixos hermenêuticos da teologia feminista, por exemplo, questões de corporeidade, a luta contra a opressão social, contra a violência sexista, a favor da inclusão dos marginalizados etc. O momento de globalização, as lutas pelos direitos humanos e as ênfases mais recentes contra homofobia, discriminação sexista e racismo, e principalmente as recentes mudanças no código civil brasileiro, exigem que tais temas sejam revisitados e tratados não apenas com olhos espirituais, mas com seriedade jurídica e civil para que a Igreja, não se torne instrumento de segregação de alguns grupos específicos de marginalizados, ao invés disso, contribua para relações mais humanizadoras, que espelhem mais fielmente o amor inclusivo de Jesus, que nunca interditou a entrada nem dos coxos, nem dos mancos, nem das prostitutas e pecadores no banquete do noivo, o filho do Rei (Mt 22,1-10).

5. Depois disso tudo, em que pé está o “mundo dos machos”?

Recentemente ouvi de um senhor na faixa de cinqüenta anos o seguinte: “parece que a sociedade enlouqueceu, as mulheres deixaram a casa para trabalhar fora e de repente virou obrigação para os homens se tornarem gays!”. Logicamente a afirmação exagerada deste senhor não tinha qualquer fundamento científico nem qualquer verificação estatística. Os homens não estão deixando de ser “hétero” para serem gays, e ser gay não implica em adotar um terceiro sexo e deixar de ser homem. Mas de fato, o que ele estava sentindo era o sacudir inevitável das rápidas mudanças que a sociedade tem passado e principalmente a quebra do modelo patriarcal e a ruptura com o sistema androcêntrico. Uma contribuição valiosa que os estudos queer trouxeram para o debate sobre gênero são as análises sobre identidade masculina gay, que por simples questão de eliminação acabam definindo também a identidade masculina heterossexual.

As mudanças sociais andam mexendo em várias áreas, que vão desde saúde sexual masculina até desemprego, afirmação de identidade e auto-estima à síndrome do pânico e depressão. O mundo dos homens está sofrendo reviravoltas muito mais rápidas do que o das mulheres ou dos gays, está sacudido com a mutação cultural que vivenciamos nesta velocidade astronômica. Ninguém estava preparado para mudanças tão radicais de forma tão rápida.
É crescente o número de programas de televisão ou até mesmo de canais por assinatura dedicados aos homens e aos seus apetites, como que a preservar os pequenos espaços reservado para um machismo que não seja sufocado pelas críticas que deixaram de ser puramente feministas para serem sociais. Ser machista na sociedade pós-moderna, implica em começar a ficar deslocado, ser taxado como ignorante e pouco evoluído. É crescente o número de homens que criticam outros homens por se manterem com uma mentalidade androcêntrica e patriarcal. E isto é um sinal que os paradigmas realmente estão sendo trabalhados, mas todo extremismo é perigoso. Há valores importantes que precisam ser mantidos, não entraremos aqui num detalhamento porque este seria o tema para um outro artigo.

Estudos teológicos e hermenêuticos sobre masculinidade são conquistas recentes e ainda não se chegou a uma década de estudos no Brasil, mas sua relevância para o campo da teologia é simplesmente inquestionável, uma vez que nosso institucionalismo religioso ainda é majoritariamente masculino. A cada dia cresce o número de fóruns de masculinidade, grupos de reflexão teológica a partir dos varões, enfim, finalmente a leitura de gênero conquistou o coração dos homens e eles agora também trabalham com questões de gênero.

Vale a pena ressaltar os números temáticos da revista Estudos Bíblicos: (n. 86) Bíblia e Masculinidade e (n.87), Bíblia e Corpo, ambos resultantes de grupos de gênero orientados para o debate sobre masculinidade. Também o grupo de teólogos-biblistas latino-americanos publicou este ano o número 56 da Revista de Interpretação Bíblica Latino-Americana sob o tema Re-imaginando a masculinidade, contendo 15 artigos debatendo a questão à luz de uma teologia bíblica. Também devo ressaltar o vol. 12 da revista Mandrágora, publicação anual do NETMAL – Núcleo de Estudos Teológicos da Mulher na América Latina da Universidade Metodista de São Paulo, que é um dos grupos de estudos feministas mais antigos do continente. Coordenei pessoalmente a edição de Mandrágora n. 12 sob o tema Gênero, religião e masculinidades. O último ensaio desta edição traz, de forma bem-humorada, mas não menos séria a necessidade que estudantes de teologia sentem de debater as questões de masculinidade em nível curricular nas graduações de teologia. Neste ensaio sob o título: “Masculinidade: queremos conversar sobre isso! Uma proposta curricular para graduações de teologia” inserimos diversos insights fornecidos pelos alunos de teologia, quase uma pesquisa de campo realizada em dois semestres onde a Temática Teologia e Gênero foi introduzida em seminários batistas em cidades da Baixada Fluminense.

No segundo semestre de 2007 novamente a disciplina voltou à graduação de teologia e foi desenvolvida em nível curricular sob o título Teologia e Gênero (seminário de pesquisa) oferecida na graduação de teologia da FATERJ (Faculdade de Teologia do Rio de Janeiro). Mais uma vez a reflexão está alcançando um significativo nível de maturidade acadêmica e ficamos felizes que Incertezas abra também este espaço de reflexão. Mencionamos na bibliografia todos os números temáticos de revistas que resultaram dos movimentos mencionados desde o início deste ensaio.

Conclusão

O grande desafio para os estudos de gênero no ambiente teológico e das Ciências da Religião tem sido trazer os discursos de gênero para uma confluência de objetivos comuns. Tecnicamente isso atinge tudo que já foi mencionado.

O objetivo é equiparação jurídica, social e religiosa dos gêneros, sejam eles femininos, masculinos ou queer. E o maior desafio encontra-se na transformação das estruturas patriarcais e androcêntricas em estruturas de gênero equiparáveis entre si. É trazer os gays para o diálogo sem que a militância termine por segregar e discriminar os heterossexuais. É trazer os varões para o diálogo, ouvindo-os e percebendo os próprios caminhos criados por eles para a construção de uma nova masculinidade possível, que consiga ser uma leitura de gênero sem ser androcêntrica.
Acima de tudo é imprescindível acompanhar os avanços dos estudos de geneticistas e bioquímicos sobre sexualidade, constituição hormonal, estruturação sexual do cérebro humano e tantos outros componentes científicos que irão nos auxiliar na reformulação de novos postulados teóricos e para um estudo de gênero relevante para a teologia brasileira e latino-americana e principalmente para a práxis pastoral no seio da igreja.

Bibliografia

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Palavra na vida. São Leopoldo: CEBI Volumes: 155/156 , Hermenêutica feminista e de gênero; 174,
Ecofeminismo: novas relações, nova terra, novos céus...; 175/176, Fontes e caminhos ecofeministas.

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Notas:
[1] RIBLA – Revista de Interpretação Bíblica Latino-Americana.
[2] RICHTER REIMER, Ivoni, Respiros... entre transpiração e conspiração, p. 158.
[3] Idem.
[4] Devemos fazer a devida diferenciação entre sexo (gênero da pessoa, constituição bio-física) e sexualidade (comportamento sexual), podendo esta ser resultante da constituição bioquímica e endócrina de uma pessoa (exposição hormonal determinada no código genético) bem como da estruturação neuro-psíquica (cérebro e inteligência emocional). Para aprofundar esta questão vale conferir: PEASE, Allan; PEASE, Bárbara. Porque os homens fazem sexo e as mulheres fazem amor? Especialmente os capítulos que trabalham a estrutura hormonal e cerebral de heterossexuais e de homossexuais , p. 36-59 e 115-124.
[5] TURNER, William.B. A genealogy of Queer Theory, p. 22, citado e traduzido por: MUSSKOPF, André Sidnei. Corporeidade queer: Hermenêutica Bíblica e Teologia. André Sidnei Musskopf é o teólogo sistemático brasileiro pioneiro nas pesquisas sobre teoria/teologia queer. Sua vasta bibliografia é acessível pelo seu currículo na plataforma lattes.
[6] PEASE, Op. Cit., p. 115-124.
[7] Idem.
[8] MUSSKOPF, André. Além do arco-íris, p.155.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

SEXO, SEXUALIDADE E REFLEXÃO TEOLÓGICA: ONDE É QUE ELES SE ENCONTRAM?

Uma introdução ao debate sobre teologia e gênero [1]

Lília Dias Marianno

PARTE 1

Resumo


Este artigo foi produzido para a seção de gênero da revista Incertezas. Seu objetivo é introduzir o campo epistemológico duas de suas principais categorias de análise: corpo e sexualidade como espaços de produção do saber. Traça o desenvolvimento histórico da teologia feminista desde suas origens nos anos 70 até o século XXI. Mostra como o modelo de estudos de feministas estabelecem a estrutura dos estudos de gênero e teologia que vêm sendo desenvolvidos no segmento queer e também nos grupos de varões.


“Ser um homem feminino, não fere o meu lado masculino,
Se Deus é menina e menino, sou masculino e feminino...” [2]

Introdução

Os versos da canção “Masculino e feminino”, que estourava nas paradas de sucesso durante os anos 70, são nossos provocadores neste momento. A reação de muitos aos versos desta canção era a de considerar um absurdo que estas frases de conotações “homossexuais” envolvessem o nome de Deus sem qualquer tipo de reverência. A começar por seus autores e intérpretes, Pepeu Gomes, Baby Consuelo e os Novos Baianos, o próprio comportamento da banda era considerado extravagante. Os Novos Baianos eram “desenquadrados” até mesmo no meio da MPB, eram “desviantes”, transgrediam o senso de “normalidade” social. Um olhar preconceituoso sobre estas pessoas sempre recriminou e rotulou suas músicas como “estranhas” e com isso deixou-se de perceber os sujeitos religiosos por trás dos versos que viriam, num futuro não muito distante, surpreender a nação brasileira com seus depoimentos.

Baby Consuelo, com toda sua excentricidade, estava, desde aquela época, numa busca incessante pelo sagrado, que se transformou em testemunho público pelo menos em duas ocasiões diferentes, que eu tenha assistido, no programa do apresentador Jô Soares, anos antes que ela viesse dar seu testemunho de conversão à fé evangélica, surpreendendo a audiência brasileira no final da década de 90.

No fim dos anos 90, a niteroiense Bernadete Dinorah de Carvalho, que havia mudado seu nome para Baby do Brasil, se tornou pastora evangélica da Igreja Ministério do Espírito Santo de Deus em Nome de Jesus, (quem poderia imaginar isso naquela época?). A pergunta que faço é: Será que os autores destes versos estavam tão “chapados” na década de 70 que não diziam coisa com coisa? Ou ainda, que tipo de insights aconteciam em suas confabulações a ponto de refletir impressões teológicas de forma tão ... “desviante” (ou implicante) para muitos?

A Teologia Sistemática sempre se preocupou em definir a essência de Cristo. Desde o Credo dos Apóstolos, formulado a partir do segundo século da nossa era e também através dos vários concílios que ocorreram de 325 até o séc. VIII EC, este tema provocou calorosas discussões, sendo retocado nas diversas fórmulas de credos subseqüentes. Mas é interessante a ausência de uma definição da essência de “Deus, Pai todo-poderoso, Criador do céu e da terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis”. Isso é o máximo de definição da pessoa de Deus que os cristãos dos primeiros séculos registraram. O que se registrou sobre a pessoa de Deus depois disso é fruto do árduo trabalho de interpretação bíblica e reflexão teológico-filosófica tanto dos pais da igreja quanto dos cristãos posteriores.

E o que Baby Consuelo tem a ver com os pais da igreja? Simples: será que, de uma voz “desviante” do século XX não se levantou uma suspeita hermenêutica sobre algo que o texto bíblico nunca fechou totalmente? Será que os Novos Baianos não estavam fazendo “reflexão teológica” por trás de seu comportamento irreverente e “implicante” para tantos? O fato de hoje Baby do Brasil ser uma “irmã em Cristo” nos faz pensar nestas coisas e chega ser divertido imaginar tais possibilidades.

1. “Quem me livrará do corpo desta morte?” (Rm 7.24)

A teologia sistemática nos ensina que aquilo que possuímos de “imagem e semelhança de Deus” é o nosso espírito, não o nosso corpo. Mas o texto bíblico que trata desta semelhança insinua algo sobre o corpo. Com todo o respeito aos demais exegetas que optaram por uma tradução diferente da que apresento abaixo, devo lembrar que todo tradutor precisa fazer sua própria opção hermenêutica sobre o texto, uma vez que a língua original possui uma riqueza de sentidos (polissemia) diferenciada da língua para a qual o texto está sendo traduzido. Assim, minha tradução de Gn 1.27 enxerga a seguinte possibilidade hermenêutica:


E criou Elohim ao ser humano

de uma estátua dele

em imagem de Elohim o criou

macho e fêmea criou [3]


A idéia de nosso corpo não fazer parte da “imagem de Deus” fica meio insustentável sob este ângulo. Como lidar com os conflitos entre religião e sexualidade, teologia e diferenças de gênero? Como superar a influência do dualismo neo-platônico na teologia que tanto enfatiza o corpo como mau e a alma como boa? Como re-significar o espaço do corpo dentro da teologia? Este corpo, sexuado e sexualizado, foi escolhido pelo Espírito Santo como sua habitação e como lugar permanente da presença de Deus conosco por “todos os dias até a consumação dos séculos”. Será que há compartimentos proibidos nele, nos quais o Espírito Santo evita entrar, como por exemplo, sexo e sexualidade? Existem assuntos sobre o corpo que consideramos não possuírem relevância teológica por imaginarmos que eles contaminam o ideal de santidade? Se o corpo é mau, porque a teologia do Antigo Testamento concentra sua expectativa de vida vindoura através da ressurreição deste mesmo corpo? Bem, vamos por partes.

Para entender quais são os principais temas dos estudos de gênero e religião precisamos primeiramente entender o papel do movimento feminista e da teologia feminista na América Latina e no Brasil. Por dois fatores, em primeiro lugar porque as teorias feministas deram origem à teologia feminista (no campo da teologia sistemática) e à hermenêutica feminista (no campo ta teologia bíblica). Em segundo lugar porque seguindo as linhas mestras das teorias e teologias feministas, outras teorias e teologias foram surgindo, como a queer e a de masculinidade.

Estudar a aproximação bíblico-teológica que pessoas do universo GLBTT [4] e de grupos de varões têm feito, exige que compreendamos a trajetória da aproximação bíblico-teológica das mulheres. A aproximação queer se apropriou de princípios delineados pela aproximação feminista e a aproximação de masculinidade se apropria de paradigmas de ambas: feminista e queer. Diga-se de passagem, a aproximação de masculinidade ganha corpo por incentivo direto e permanente da aproximação bíblico-teológica feminista e queer. Esta interação torna muito enriquecedor o debate sobre gênero, religião e teologia.

2. A trajetória da aproximação bíblico-teológica feminista

Os movimentos feministas no Primeiro Mundo re-surgiram na década de 60/70 (pois houve uma iniciativa anterior no séc.XIX) com a exigência de equiparação jurídica, social e religiosa das mulheres e também da transformação das estruturas patriarcais e do sistema de valores androcêntrico na sociedade [5].

Antes que estes termos nos confundam, chamamos de androcentrismo à estrutura preconceituosa que caracteriza as sociedades de organização patriarcal, que quando estabelecem normas e valores, eles se dão a partir da condição de vida do homem adulto do sexo masculino, ignorando-se crianças, mulheres e idosos [6] . Chamamos de estruturas patriarcais às estruturas sociais que encerram o poder na mão dos homens e subjugam as mulheres, colocando-as em segundo plano e impondo-lhes subordinação[7].

A teologia feminista na AL, diferente da teologia feminista do Primeiro Mundo, pois é filha do confronto entre fé, política e direitos humanos que o continente latino sofreu nas últimas três décadas. A década de 70 trouxe para o cenário religioso a efervescência dos movimentos populares, dos partidos de esquerda e das lutas contra os desmandos das ditaduras militares nos países latino-americanos. O oprimido e o marginalizado passaram a ser entendidos como sujeitos históricos deste confronto e a teologia da libertação tem tais grupos no seu foco. A mulher latino-americana, oprimida, discriminada e tantas vezes enviuvada e desfilhada por este sistema também é sujeito histórico neste conturbado contexto sócio-político.

Assim surge a aproximação teológica feminista na América Latina, filha da teologia da libertação, tendo, neste primeiro momento, dois eixos de luta: a) o comprometimento com os ideais feministas de desconstrução dos modelos patriarcais e androcêntricos de sociedade e b) a luta pela libertação político-econômica do povo latino-americano como um todo.

A hermenêutica bíblica que daí surgiu tinha, logicamente, teores populares e militantes, pregoeira da libertação e da transformação da realidade, entendendo Reino de Deus como uma realidade de relações mais justas, de construção de um novo mundo possível. Deus é interpretado como agente libertador e solidário que luta em favor dos oprimidos e oprimidas [8].

O pobre e o oprimido têm suas próprias formas de enxergar o mundo e tais visões começaram a influenciar o discurso teológico feminista latino-americano na década de 80, quando a leitura popular da Bíblia se tornou um exercício sistemático de reflexão teológica no nosso continente. Os países latinos estavam sofrendo maior repressão dos EUA devido à mudança de interesses pelos direitos humanos ocorridas na transição dos governos Carter para Reagan. Os arautos dos direitos humanos e dos movimentos de libertação foram considerados perigosos e os teólogos da libertação como Leonardo Boff, passaram a ser pressionados pelo Vaticano, encabeçadas pelo então Cardeal Ratzinger.

Alguns organismos ecumênicos como CLAI e CONELA [9] foram criados por iniciativas protestantes. Neste contexto ecumênico as teólogas feministas e os demais teólogos da libertação empreenderam um diálogo aberto em prol de uma libertação para os marginalizados: homens, mulheres, crianças, idosos, deficientes físicos etc. A teologia feminista passou a se ocupar em recuperar os aspectos femininos do discurso sobre Deus e mostrou que o fazer-teológico das mulheres latino-americanas tinha seu próprio pano de fundo. Ele vinha do cotidiano e do corpo destas mulheres cuja experiência e cosmovisão sempre foi diferente da dos varões por fatores culturais, biológicos e históricos [10] . E também era diferente da experiência das teólogas do primeiro mundo.

Nesta década as teólogas feministas latino-americanas começaram a dialogar com as teólogas feministas do Primeiro Mundo, mas as teorias de gênero desenvolvidas pelas últimas não foram muito usadas neste princípio em nosso continente.

As conseqüências destes movimentos foi a revalorização do cotidiano e do corpo das mulheres como “chão” hermenêutico e as virtudes exigidas das mulheres pela sociedade passaram a ganhar olhares da crítica feminista. O intercâmbio com as biblistas feministas do Primeiro Mundo sugeriu reconstrução de vários textos bíblicos e as biblistas latino-americanas abraçaram o desafio com grande motivação. Uma auto-educação foi iniciada para se adotar uma linguagem inclusiva ao se falar de Deus como “Deus pai e mãe” e a teologia passou a ser definida como “teologia a partir da mulher”.

Os anos 90 introduziram novas pautas para abordagens feministas. A teologia a partir da mulher começou a olhar para outros aspectos da vida, como a questão da terra e da água, introduzindo o conceito de “ecofeminismo holístico”[11] em suas premissas. O contexto internacional e os movimentos de resistência contra as ditaduras militares na AL continuavam afetando a reflexão teológica.

O movimento de leitura popular da Bíblia e as comunidades de base sofreram uma estancada. Emergem, então, para manter o vínculo da teologia feminista com o ideal de libertação, os movimentos indígena e negro [12], que trazem novos insumos hermenêuticos em visão étnico-racial incluindo mais este eixo na aproximação bíblico-teológica feminista.

A recém-consolidada nova ordem econômica internacional capitalista e neoliberal, que afetou a comunidade européia e o cone sul começaram a despertar reflexões teológicas e a hermenêuticas das mulheres. Novas ênfases que tratavam de temas como economia de mercado e revelação da divindade em culturas não-cristãs começaram a ser trabalhados pelas mulheres latino-americanas.

Até aqui vimos que a reflexão bíblico-teológica das mulheres na AL teve seu próprio cenário de nascimento, seu chão, e só posteriormente começou a dialogar com a reflexão de mulheres do Primeiro Mundo. Vimos também que a teologia feminista latino-americana se compreende filha da teologia da libertação, possui desde seus primórdios fortes vínculos com as lutas políticas, tem o cotidiano e o corpo das mulheres como espaço do fazer teológico e foi introduzindo, sucessivamente temas como ecologia, etnia, economia de mercado e manifestação do sagrado. Que desafios se impõem à reflexão bíblico-teológica latino-americana no século XXI?

(continua na próxima postagem)
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Notas

[1] MARIANNO, Lília Dias. Sexo, sexualidade e reflexão teológica: onde é que eles se encon-tram? Em: Incertezas.Rio de Janeiro, n.3, ano 2, 2007, p. 5-70.
[2] Masculino e Feminino. Copyright: Baby Consuelo, Didi Gomes e Pepeu Gomes.
[3] O primeiro sentido desta palavra é estátua, depois vem imagem, e então modelo e desenho, tu-do sugere forma física. Já a preposição pode ser traduzida como em, dentro de, em meio de, entre, como (na qualidade de, na condição de); em companhia de, junto com; por meio de; de (indicando matéria). KIRST, Nelson. Dicionário Hebraico-Português, Aramaico-Português, p. 21
[4] A sigla GLBTT representa a união das definições de sexualidades queer, que são representadas por sujeitos Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais. A sigla longe está de fechar a definição, porque os estudos descobrem uma nova “sexualidade” a cada dia, entretanto continua sendo usada para definir sujeitos queer na cultura brasileira.
[5] GÖSSMANN, Elisabeth. Dicionário de Teologia Feminista, p.502.
[6] Idem, p. 21.
[7] Idem, p. 370.
[8] RESS, Mary Judith. História da Teologia Feminista na América-Latina, p. 40.
[9] CLAI – Conselho Latino Americano de Igrejas e CONELA- Confraternidad Evangélica Latino Americana
[10] Idem, p. 42.
[11] Entende-se por eco-feminismo holístico, expressão utilizada por Mary Ress, como o próprio conceito básico de teologia aplicado a toda a criação de Deus a partir das mulheres. “Poderíamos definir a ecologia como a ciência e a arte das relações dos seres relacionados [...] a ecologia possui um conteú-do eminentemente teológico” BOFF, Leonardo. Ecologia mundialização e espiritualidade, p.19.
[12] É interessante acompanhar movimentos como os de Chiapas e sua influência na hermenêutica bíblica indígena, por exemplo.


ver bibliografia completa no final da postagem da parte 2 deste artigo.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Ah ... que malvado esse sistema!

O Rubinho fez um comentário muito interessante ao meu texto "Submissão e Subversão". Fui tentar dar uma resposta por lá, mas acabei construindo um texto muito longo, que merecia virar uma nova postagem. Vou tentar fatiar este bolo em duas partes principais que ele elencou, ok? Se quiser ver o comentário completo vá para o texto que citei.

submissão é missão de base [...] será que definições como essa não podem ser consideradas uma suavização [...] do conceito de submissão feminina na igreja por puro concordismo bíblico [...]?

Eu entendo o que você sugere. Tenho que concordar que em alguns casos é isso mesmo que acontece. Mas não em todos, e por incrível que pareça, em alguns casos, as gerações mais antigas dão mais valor à mulher. Neste exemplo do ancião, foi uma coisa tão bonita, pois era um pastor bem velhinho, que demonstrava uma gratidão e um reconhecimento tão grande pela participação das mulheres na estrutura da família e da igreja, e mostrava isso de forma tão sincera que eu achar que a fala dele seria conspiradora seria pura falta de juízo da minha parte.

Recentemente estive no culto de aniversário de 85 anos de idade do Jether Ramalho, um sociólogo importante para o diálogo sobre teologia da libertação nos círculos ecumênicos. Rubem Alves vestiu a toga do clero presbiteriano para pregar no aniversário do Jether! Foi histórico! 67 anos de casados Jether e Lucília! Que tributo lindo ele fez à esposa no dia do seu 85o. aniversário! Dessas cenas que não nos saem da cabeça e fazem a gente lembrar que o amor ainda é possível e o reconhecimento do valor de uma mulher na vida de alguém ainda existe!
Mas concordo que muitas vezes tal discurso é usado com o fim que vc menciona sim.

Será que a situação não é muito mais perversa do que apenas uma questão de auto-estima masculina?

Acontece aqui o mesmo caso. Há muitos casos em que a situação é perversa e tal discurso legitima esta perversidade sim, mas eu não consigo enxergar esta conspiração por todo lado não. Também não acredito na visão simplista de que se trata de questão de auto-estima masculina. Acredito sim, numa revisão de papéis, tanto masculino quanto feminino, dentro da sociedade latina, de matriz cultural totalmente machista, que está passando por uma mutação de velocidade alucinante e nem consegue tomar pé da quantidade de mudanças que ocorrem.

Uns dois anos atrás, estávamos num almoço de confraternização pelo aniversário do meu orientador. Conversa vai, conversa vem, eu falei que estava um pouco desapontada com a reação de algumas colegas. Eu fora nomeada para a comissão temática da revista de estudos de gênero que iria trazer, pela primeira vez em seus 12 anos de existência, uma edição sobre masculinidade. Eu sugeri que nós deixássemos que eles falassem sobre eles mesmos. Uma edição da revista feminista, falando de masculinidade, com todos os articulistas homens. Seria ousado, inovador e solidário. Mas minha sugestão foi reprovada veementemente. Concluí a fala dizendo ao mestre em tom de tristeza: "eu acho que não sou uma feminista muito militante". Meu professor olhou pra mim, deu um sorriso daqueles que só ele sabe dar e falou: "militante você é, você só não é chata". E continuou dando aquele sorriso schwantiano.

Isso me fez pensar em muitas das coisas que acabei desenvolvendo neste texto.
A mulher foi ignorada, negligenciada, sabotada, violentada em muitas formas pelo institucionalismo religioso? Foi sim! Disso não tenho dúvidas!
Mas Jesus não nos sabotou! E ele viveu aqui entre nós como homem, não como mulher! As vezes penso que a gente se concentra demais na INSTITUIÇÃO e se esquece que o Cristianismo é libertador, é libertário, valoriza o ser humano, seja homem, seja mulher. E como as mulheres foram libertadas e libertárias em seu ministério! Isso sim é teologia bíblica!

Eu tenho uma bronca gratuita com a Teologia Sistemática porque muitas vezes é ela quem mantém de pé esta estrutura institucional perversa. Daí as teólogas feministas de segmento sistemático descerem a lenha no sistema, e estão cobertas de razão. O dualismo fica muito mais delineado a partir das reflexões das teólogas feministas sistemáticas. Mas as teólogas biblistas têm um vínculo muito forte com a práxis pastoral, e o pastoreio se dá no campo, no meio do rebanho, no meio dos carrapichos, é coisa do chão, coisa da terra.

Nestas minhas andanças eu participei de grupos de estudos feministas de segmento antropológico e da teologia sistemática e também participei de grupos de estudos feministas de teologia bíblica e teologia pastoral. E afirmo: gosto mais destes 2 últimos. Estar no chão, com o pé na terra, lidando com gente que nada tem, me mostra o valor das pessoas, tanto de mulheres quanto de homens. Me faz querer estudar gênero para a libertação de ambos, pois no meio da miséria, a opressão é conjunta, a pobreza é uma só. E isso é práxis pastoral! Eu apoio, com todas as minhas forças, a luta das mulheres pastoras pelo reconhecimento de seus títulos e ministérios em nosso segmento religioso, mas como tenho mentalidade e experiência de missionária, vejo que o embargo que a INSTITUIÇÃO causa neste tipo de práxis pastoral das mulheres é bem menor. A instituição não consegue controlar a religiosidade popular, e a Bíblia está na mão do povo, e o povo é rebanho.

Sei que a luta feminista dentro da instituição é necessária, mas a pergunta que eu me faço muitas vezes é: que peso a INSTITUIÇÃO ocupa dentro do Reino de Deus! Este peso é justo? Será que vale a pena brigar por isso? Bem, essas são minhas crises pessoais, perguntas que ficam sem respostas ou que têm respostas que eu prefiro nem mencionar, e quando minhas colegas feministas lerem isso eu vou ser taxada como um Judas, rs.

Mas, por fim, uma coisa que, me parece, a gente esquece com muita facilidade: nossa latinidade!
Somos brasileiros, vivemos num continente latino. A cultura latina é altamente machista! A realidade feminista hoje na sociedade brasileira ainda é um sonho para muitas culturas de nosso continente (e ainda temos tanto a conquistar!). Eu não sei se podemos culpar as lideranças eclesiásticas por funcionarem como a sociedade funciona! A igreja é fruto do seu ambiente cultural, nasce na cultura e serve à cultura. No dia que a cultura mudar a igreja não terá dificuldade em mudar também, mas enquanto a sociedade legitima o androcentrismo, não sei se a igreja vai conseguir, vai tentar ou vai ter interesse de nadar contra a correnteza, creio que não, porque a igreja é instituição e instituição se encaixa no modelo da sociedade vigente. Fora da instituição conseguimos ser reacionários, mas na instituição somos engessados.

O que fazer então?
Bem, eu estou dando meu jeito: tentando não perder a ternura! Endurecendo sempre que necessário, mas sendo menos esquisofrênica, não acreditando em teoria da conspiração atrás de cada esquina. Isso me deixa bem livre, de olhos bem abertos e com sanidade para enxergar as pessoas dentro do todo. Enxergar os homens dentro da constituição do gênero masculino e as mulheres dentro da constituição do gênero feminino. Tento lembrar sempre que o ministério da Igreja é o da reconciliação e mulheres são melhores nisso do que os homens. No entanto, a proteção de um grupo faz parte da constituição do gênero masculino, e nisso eles são melhores que as mulheres. Precisamos uns dos outros e quando vejo o quanto o pastorado de uma instituição é pesado, sinceramente, prefiro ficar na religiosidade popular! Mas como não tenho qualquer chamado para ser pastora de igreja, mas sim professora e discipuladora, minha tendência é suavizar as coisas mesmo e colocar "minhocas" nas cabeças dos seminaristas.

Rodei, rodei e fiquei na mesma! Desculpa Rubinho! Mas faz parte.
Teólogo é uma raça que enrola!!! rsrs

Meu abraço pra vc!

Hay que endurecer, pero sin perder la ternura jamás!

Feminismo não é feminicentrismo! Por caridade!

Eu recebi um comentário muito interessante sobre o meu texto "Submissão e subversão", de alguém que diz ser membro da minha ex-igreja, mas eu não conheço. Como os comentários neste blog são moderados, me reservei ao direito de não publicá-lo pelos motivos que vocês já vão entender.

Se tratava de uma "mulher", de 22 anos que diz ter uma "longa experiência" nesta área, não concordando com o texto, dizendo que o feminismo não é coisa de Deus e que as mulheres tem que estar numa hierarquia inferior na relação familiar, de dependência e obediência.
Além disso ela falou que minha leitura de Paulo estava equivocada (eu trabalhei com um texto de Pedro!!! Não me recordo ter usado Paulo!) e que não concordava, mas gostou do blog e ainda queria me adicionar como amiga no orkut.

Quando olhei o perfil dela no orkut, tinha cara de fake, uma pessoa sem foto, sem profile muito definido, com 6 amigos adicionados, um ou outro eu conheço. Achei meio fantasma e preferi ver se a pessoa é real antes de postar o depoimento dela aqui.

Mas o que me impressionou no comentário dela foi, em primeiro lugar, a falta de coragem de dar as caras, segundo, a total falta de atenção a tudo que leu! O nosso povo anda muito precipitado em fazer julgamentos. Mas ela me mostrou um ponto interessante que merece esclarecimento: FEMINISMO NÃO É FEMINICENTRISMO!!! Temas de GÊNERO NÃO SÃO EXCLUSIVOS DO FEMINISMO

Quando fiz esta comunicação no congresso muita gente me procurou, principalmente os homens (havia vários no Congresso de Mulheres) para fazer comentários muito legais justamente pelo resgate dos papéis masculinos na sociedade atual dentro da minha fala.

O povo ainda tem que entender que o feminismo na teologia bíblica luta por igualdade de direitos respeitando as diferenças de gênero, jamais colocando a mulher acima do homem senão seria um feminicentrismo e seria apenas uma versão distorcida do androcentrismo que já existe por aí. As teólogas biblistas feministas são contra o rebaixamento da mulher, mas não me lembro, em nenhum momento destes últimos 8 anos de estudo, de vê-las querendo uma supremacia sobre os homens. Isto é um grande mal-entendido. Fica aqui a notinha!

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Submissão e subversão

Lília Dias Marianno[1]

Muito se fala, atualmente, sobre a revisão do papel da mulher cristã na sociedade no século XXI. A pós-modernidade tem mexido muito com as estruturas de uma sociedade que vinha, até 30 anos atrás, se ancorando num modelo androcêntrico de estabelecimento de valores. Os tempos mudaram. Desde a década de 70, com a força do movimento feminista, as mulheres voltaram a conquistar espaços primordiais na sociedade, espaços que lhes foram seqüestrados por cerca de 3000 anos.

Na antiguidade, mesmo no Antigo Oriente, a mulher não foi relegada ao segundo plano o tempo inteiro. Estudos têm mostrado que, quanto mais antigo é o período da história da humanidade, mais proeminente era o papel da mulher. Isto porque a mulher, pela sua capacidade de abrigar a gestação da vida dentro do seu corpo, sempre fora associada, pelas civilizações primitivas com deusas, porque só os deuses é que criam vida. Esta mentalidade ainda estava bastante presente na pré-história de Israel (ou seja, ao período dos patriarcas e do tribalismo).

Não se tinha, nos princípios da história humana, muita noção da proporção da participação do homem na reprodução humana. As funções cúlticas eram exercidas por sacerdotisas em sua grande maioria. A presença masculina veio sendo efetivada em funções sacerdotais a partir do primeiro milênio antes de Cristo.

O espaço da casa sempre foi o ambiente da mulher da antiguidade, ali quem mandava era ela. Sara, Tamar, Rute, Atalia, Jezabel e as mulheres em Ne 5 (que reclamam diante do governador que os homens estão espoliando seus irmãos) são provas bíblicas de que as mulheres são ativas na vida comunitária, inclusive com participação em importantes decisões políticas.

Mas houve um tempo em que as mulheres começaram a ser silenciadas. Isso aconteceu quando a religião israelita se institucionalizou, passando a ser permitida oficialmente somente no templo. O período em que este silenciamento se efetivou foi a partir da reforma feita pelo rei Josias, por volta dos anos 630 a 625 a.E.C. A mulher foi sendo excluída da memória literária embora continuasse ativa na religiosidade popular, pois esta exclusão da mulher do serviço religioso se deu apenas no templo. Nas aldeias e nas casas elas ainda eram consultadas e respeitadas como líderes religiosas. Tanto que os ajudantes do próprio rei Josias, ao receber os rolos que estavam guardados no templo, foram consultar a profetisa Hulda, e não o profeta Jeremias.

Mas depois do exílio a mulher foi silenciada, pois o modelo androcêntrico determinou o padrão da sociedade israelita. Os homens começaram a dominar as questões da religiosidade. O culto oficiado pela mulher se tornou tão inadequado neste novo modelo que, nesta época (quando o cânon do AT começou a ser fechado), a participação da mulher no serviço religioso foi interditada, até mesmo por causa da menstruação. Esse resgate histórico só é possível através do confronto do texto bíblico original com a literatura extra-bíblica da mesma época, realizados por especialistas em Bíblia ao redor do mundo, chamados exegetas.

Os tempos passaram, e no período neotestamentário este androcentrismo tornou-se o padrão da vida em sociedade nas culturas de seu tempo. O cristianismo adotou o modelo androcêntrico como o “modelo correto” de ser cristão. Neste modelo, o homem é o cabeça da família, a mulher tem que estar submetida a ele e os filhos também. Neste modelo tudo depende do homem e os que estão abaixo lhe obedecem. Esta transição não foi fácil. O homem nunca tinha sido reconhecido como cabeça da casa. A mulher mandava na casa. A sociedade mal tinha se acostumado com o homem exercendo o domínio na religião e agora teve que se acostumar com o homem mandando também na casa. Mas isto se deu por alguns fatores.

Primeiro porque o modelo de governo do império greco-romano era androcêntrico. Quando a cristianização progressiva do império ia acontecendo, era completamente constrangedor que as igrejas nas casas continuassem sendo regidas por mulheres. Por isso as epístolas pastorais recomendam tanto que os pastores sejam respeitados nas suas próprias casas (Tm 3). Antes disso as funções dos homens na sociedade eram estritamente relacionadas a guerras e atividades militares.

Então, por 2000 anos, a igreja ignorou, às vezes de forma inocente, mas muito mais vezes de forma institucional a relevância das mulheres em lideranças religiosas e na área da espiritualidade da família.

Estamos no século XXI, e qual o quadro que temos diante de nós? Uma sociedade na qual a mulher recupera os espaços que antes exercia, na qual a mulher, pela sua natural versatilidade e habilidade de dominar simultaneamente muitas atividades, tem ocupado espaços no mercado de trabalho que antes eram apenas masculinos. Muitos homens têm perdido empregos e suas posições de destaques em seus ambientes profissionais porque uma mulher considerada mais competente que ele (ou seria mais barata?) assumiu seu cargo.

Vários destes homens têm passado anos no desemprego, sem conseguir recolocação profissional e isso tem abalado a identidade masculina, na qual sempre se cobrou do homem ser o provedor da família. A mulher contemporânea precisar ir à luta para a “casa não cair”, mas a igreja continua cobrando delas uma submissão que por 2000 tem sido confundida com subserviência. E devemos ser realistas, é muito difícil ser homem hoje em dia. Por mais que as conquistas femininas ainda sejam poucas perto da necessidade mais ampla, não é fácil ver sua posição de poder ser perdida dia após dia na sociedade por causa da força da mulher.

Quando fazemos uma análise de gêneros constatamos que Deus nunca colocou na mulher um espírito passivo, subserviente. A mulher sempre foi, ao longo da história, aquela que reclama, que protesta, que toma a iniciativa contra injustiças, que abre a boca para denunciar, que não fica quieta quando as coisas estão erradas. Deus deu à mulher um espírito irrequieto. As mais quietinhas sabem do que digo, pois, quando vêem algo injusto, errado e não corrigem, ficam passando mal, e se o ambiente obriga a mulher a sempre se omitir nestes momentos, ela começa a somatizar uma série de doenças. Mulheres têm, por mais que se prove o contrário, uma natureza subversiva, conspiradora e ai do mundo se não fossem as conspirações das mulheres.
Diante desta natureza irrequieta que nos foi dada por Deus, e da confusão terminológica causada pela igreja com a expressão submissão, a pergunta que fazemos é? O que é ser uma mulher submissa na contemporaneidade, na qual o homem tem perdido “poder” e “autoridade” e muitas vezes, o próprio homem cristão não está muito interessado em cumprir o papel que a Igreja lhe atribuiu durante todo este tempo?

Talvez uma resposta provocativa esteja na própria etimologia, voltar à origem das palavras e entender o que realmente se exige de nós no texto bíblico.

vós mulheres, sede submissas a vossos próprios maridos, para que também se alguns deles não obedecem apalavra, pelo procedimento de suas mulheres sejam ganhos sem palavra [...] vós maridos, vivei com elas com entendimento, dando honra à mulher como vaso mais frágil, e como sendo elas herdeiras convosco da graça da vida, para que não sejam impedidas as vossas orações” (I Pe 3,1.7).

A palavra submissão neste texto vem do grego upotassomenai que quer dizer estar em sujeição. No português, submissão significa: 1. submeter-se a uma autoridade, lei ou força, obediência, subordinação. 2. disposição para aceitar um estado de dependência, docilidade. 3. Estado de rebaixamento servil, subserviência.

No primeiro sentido, verificamos que, submeter-se à uma autoridade é algo necessário para que a anarquia não seja instalada, à lei por causa do exercício coletivo da civilidade e à força por causa da violência física da qual desejamos ser poupadas. É inteligente ser submissa, neste caso.
No sentido 2 fica mais interessante pois aqui é que se requer da nossa natureza irrequieta e subversiva o jeito todo feminino de convencer, de persuadir de conduzir um grupo na direção da razão sem perder a compostura: a docilidade. E sabemos que, quando nós mulheres mostramos dependência, cooperamos para a preservação da auto-estima daquele que deseja nos proteger. Isto requer de nós também maior capacidade de entender o gênero masculino, as capacidades naturais dos homens, e aprender a não exigir deles coisas que eles não têm condições de fazer.
Por fim, o sentido 3 é o grande causador desta confusão que vemos hoje instalada no meio da igreja, a idéia de que submissão é subserviência, da redução da mulher a um patamar quase servil.

Creio que a partir daqui podemos celebrar a nossa submissão como algo necessário no mundo. Não algo que nos tire a auto-estima, nos fazendo sentir culpadas pela nossa subversão, nossas conspirações. Mas a conspiração feminina deve ser feita com docilidade, cobrando, denunciando, indo à luta, fazendo justiça, mas sem incendiar o país, sem destruir a vida que há na terra.

Por fim, gosto muito da definição de um ancião que ouvi certa vez: Submissão é missão de baixo, de base, do subsolo, do alicerce sobre o qual se apóia toda uma estrutura. O que está no interior é o fundamento das coisas. Às mulheres foi dado o dom de cuidar da base, a missão de prover estrutura para o lar, estrutura emocional, espiritual, logística, administrativa, muitas vezes também a missão de autoridade e financeira quando nos falta o provedor. Não podemos exigir dos homens coisas que foram dadas a nós como dom de Deus, nos aproveitando da confusão etimológica estabelecida pela igreja por todo este tempo, e transferindo para os homens responsabilidades que nos foram dadas naturalmente.

Gosto da frase de Guevara que diz:
há que endurecer sim, sem perder a ternura, jamais!
E isso é coisa que somente mulher consegue fazer.


[1] Comunicação apresentada em Painel no Congresso de Mulheres da Primeira Igreja Batista do Recreio dos Bandeirantes em Março/2007.
Revista Mandrágora No. 12 – Gênero, Religião e masculinidade.
SCHOTTROFF, Luise. Mulheres no Novo Testamento. Exegese numa perspectiva feminista. São Paulo: Paulinas, 1995.
REIMER, Ivoni Richter. Vida de mulheres na sociedade e na Igreja. São Paulo: Paulinas, 1995.
RESS, Mary Judith. História da Teologia Feminista na América Latina. Em: FRIGÉRIO, Téa (Org.) Ecofeminismo: novas relações, nova terra, novos céus... Série: a Palavra na vida. São Leopoldo: CEBI, 2002.

domingo, 13 de janeiro de 2008

Sexo frágil? Que nada!

Lília Dias Marianno[1]

Movimentos humanos de nossa época...

Alguns fatos que tenho vivido, recentemente, têm me levado a refletir sobre a força da mulher. Enquanto estou nestas reflexões não consigo impedir que minha mente reproduza os ecos de certos versos do cancioneiro popular: “... dizem que a mulher é o sexo frágil, mas que mentira absurda! Eu que faço parte da rotina de uma delas sei que a força está com elas...”.

Nas últimas décadas, a mulher tem conquistado espaços e reconhecimentos cada vez maiores na sociedade. A competência feminina, no fundo uma bela mistura da sensibilidade e versatilidade, tem levado muitas mulheres à posições de destaque no ambiente acadêmico, profissional, político e também religioso, além da casa, seu espaço principal.

Os reflexos deste irreversível movimento social afetam, inclusive, os setores líderes de nossa denominação, como se pode conferir na discussão sobre a inclusão das pastoras na Ordem dos Pastores Batistas do Brasil. A assembléia anual de 2007 terá decidido sobre este assunto baseada no posicionamento das 31 seções regionais da CBB. E este é apenas um exemplo da incursão das mulheres nos segmentos oficiais de nosso círculo, onde elas foram impossibilitadas de exercer determinadas funções por tanto tempo.

Lamentavelmente, esta conquista do “espaço” feminino tem afetado o espaço masculino de uma forma também irreversível. Os novos papéis que a mulher vem desempenhando na sociedade têm “seqüestrado” espaços outrora exclusivamente masculinos[2]. Muitos chefes de família acabaram perdendo seus empregos porque foram substituídos por mulheres mais “competentes” que eles e “mais baratas”, pois, na verdade esta substituição também tem a ver com a economia de mercado que, em diversos setores, ainda paga salários menores a mulheres que desempenham as mesmas funções dos homens nos mesmos cargos. Não podemos deixar de reconhecer que a sociedade está em movimento e parece que a força da mulher é uma espécie de “motor” neste processo de mobilização, de reposicionamento dos indivíduos.

Movimentos das mulheres nas memórias da minha infância

Na década de sessenta tive oportunidade de residir num dos morros mais famosos do Rio de Janeiro. Naquela época morro ainda não era esconderijo do tráfico. Era tipicamente o lugar de gente humilde, migrante, que tentava recomeçar a vida na cidade grande e aquele foi o único local onde pôde se estabelecer para tal recomeço. Foi o caso de meus avós, que vieram do Espírito Santo com a numerosa família tentando “melhorar de vida”.

No morro a água não chegava até o topo. Muitas mulheres tinham que descer até o “tanque”, o lugar comum para lavar roupa, recolher água e levar para suas casas. Sempre elas, as mulheres. Eu ficava vidrada vendo aquelas mulheres negras, robustas, com uma lata cheia de água na cabeça e outras duas, uma em cada mão, subindo a escadaria do “tanque”, sem deixar cair uma gota no chão! Na minha mente de criança aquilo me fascinava, era artístico o malabarismo impecável daquelas mulheres. Nem uma gota sequer!

Não me vinha à mente nada parecido com segregação racial, estratificação social, pobreza, eu só conseguia enxergar a força delas. Carregar todo aquele peso de latas d’água sem deixar cair uma só gota me parecia uma super competência. Naquela época em que máquina de lavar ainda era um artigo de luxo, a profissão de lavadeira era comum e muitas destas mulheres trabalhavam nela para alimentar suas famílias.

Recentemente, lavando algumas roupas na mão, recordei essas mulheres da minha infância, com suas mãos. Mãos envelhecidas, sofridas, magras, muito enrugadas, rachadas, manchadas, com veias entupidas, unhas quebradiças, com micoses e unheiros infeccionando as cutículas, sempre úmidas. Eram as mãos das minhas tias, minhas avós, e tanta gente da geração delas que gastou a saúde de suas mãos e ventres atrás de tanques e fogões, fazendo faxina, limpando privadas porque, afinal, aquilo era “serviço de mulher”. Pensei no quanto estas mulheres sofreram por falta de uma máquina de lavar e por falta de uma sociedade mais justa, que reconhecesse o valor moral destas mulheres e educasse os homens para ajudá-las nas tarefas pesadas.

Neste ponto a viagem do meu imaginário extrapolou minhas memórias, pois imaginei a época da escravidão, quando nem tanque havia, as roupas eram lavadas nas beiras de rios, em cima de tábuas, com aquelas mulheres agachadas na beira da água, apertando seus ventres molhados, ovários e úteros, contra as pernas contraídas na postura de lavadeira que eram obrigadas adotar durante grande parte do dia a serviço dos patrões. Quem é mulher sabe quão preciosa é, para nossa saúde geral, a saúde da “barriga”.

Um dia desses estava dirigindo à noite para dar aula na faculdade de teologia. Um desses caminhoneiros cuja gentileza parece fugir dele como o “diabo foge da cruz”, fez uma “bandalha” na minha frente, uma fechada daquelas, quase causando um acidente. Ainda pasmada com a hostilidade deste condutor, e sem saber para onde ir, ainda tive tempo de escutar a pérola que saiu da boca deste cidadão: “vai procurar um tanque pra lavar roupas sua...” . E pensei: é fácil ser valente atrás de um volante, difícil é ser macho para encarar um tanque de roupas.

Movimentos das mulheres nos meus dias mais maduros...

Tempos atrás eu tive acesso à história das Madres de Plaza de Mayo através de um artigo sobre a genealogia dos heróis bíblicos[3]. Recentemente estive em Buenos Aires num encontro de teólogos biblistas latino-americanos e fiquei muito contente quando a organização do encontro levou nosso grupo para visitar a Plaza de Mayo e também o café das madres. Então a história destas mulheres se tornou vívida na minha frente. E esta história merece ser partilhada com aqueles que sobre ela sabem muito pouco.

As Madres de Plaza de Mayo são mulheres parentes de prisioneiros/as políticos na Argentina. Estes/as prisioneiros/as são pessoas que lutaram na resistência contra a ditadura naquele país. Durante o regime militar, foram aprisionados, exilados e muitos simplesmente sumiram (ou “foram sumidos”). E enquanto desaparecidos, não existe um luto. Existe sim, uma expectativa de retorno que talvez nunca se cumpra, e que impede estas mulheres de fecharem um ciclo em suas vidas, o de conhecer o paradeiro de seus entes queridos.

Essas mulheres constituem quatro gerações envolvidas com estes desaparecidos, algumas mães e esposas, outras são filhas de presos políticos e outras são avós de crianças nascidas em cativeiro, filhas dos presos que nunca apareceram. No dia 30 de Abril de 1977 estas mulheres começaram uma vigília que já dura trinta anos. Elas passaram a se reunir na Plaza de Mayo, todas as quintas-feiras, caminhando em volta do obelisco central, em frente à Casa Rosada, sede do governo federal da República Argentina[4]. A marca delas é o lenço branco que elas amarram na cabeça. Estas mulheres fazem sua vigília pelos desaparecidos, protestando e exigindo a aparição com vida destas pessoas. Parece fabuloso, mas eu soube que elas já conseguiram recuperar 70% dos desaparecidos, embora muitos ainda continuem sumidos sem nenhuma explicação dos dirigentes, algo que elas exigem incansavelmente. Dezenas de lenços brancos foram pintados em volta do obelisco da praça, como que a marcar um território sagrado onde o espírito maternal desta mulheres, que pariram filhos desaparecidos, clama, reivindica, exige e recupera aquilo que foi perdido.

A organização destas mulheres ganhou repercussão em todo mundo. Hoje elas têm uma universidade aberta para qualquer pessoa, chamada Universidad Popular de las Madres. Fiquei impressionada com os cursos ali ministrados, disciplinas inteiras em nível de graduação superior ou especialização ao preço do que seriam quinze reais em nossa moeda, trazendo conscientização sociológica, política, antropológica. A universidade acaba servindo como uma extensão de grupos marginalizados naquele país que precisam divulgar suas causas para o resto da população. As madres me levaram a pensar em quão sábia, articulada e eficiente pode ser uma mobilização feminina, e que superação intelectual as mulheres são capazes de promover no senso coletivo quando se propõem a fazê-lo.

Mulheres como as migrantes dos morros do RJ, as escravas do passado e as Madres de Plaza de Mayo me relembram que essa força é mesmo coisa de mulher. Lembro da intelectualidade de Débora mobilizando exércitos de Israel, das mãos de Jael, matando a golpe de pedra o poderoso inimigo Sísera (Jz. 4 e 5), da articulação inteligente de Ester (Et. 5), do ventre negligenciado da escrava Agar, que gerou o primogênito de Abraão (Gn 16) e às vezes é considerada como um acidente de percurso na vida do patriarca, da gravidez recriminada de Tamar, o único instrumento pelo qual Judá pôde nos dar origem ao Salvador (Gn 38), da reivindicação jurídica de Rute (Rt 3), ao exigir que Boaz exercesse o papel de resgatador de Noemi (Rt 3). Estas mulheres estão todas ali, no texto bíblico, fazendo história, mostrando que a mão do Senhor esteve com todas elas dando-lhes força nas mãos e sabedoria na mente. Provando que a força delas não é deste mundo, mas tem origem nAquele que nos criou, imagem e semelhança dEle.

Que as mãos e ventres molhados das escravas, o equilíbrio e a robustez das lavadeiras, os lenços brancos destacando a intelectualidade das madres nos façam lembrar, no Dia Internacional da Mulher, que toda esta força é de Deus, vem de Deus e que, ao ser usada, deve, invariavelmente promover justiça na história humana honrando a vida, colocada em nós por Ele, e assim glorificar o nome dEle.

Mulher, bendita seja esta tua força!

[1] Artigo celebrativo do dia internacional da mulher, publicado em: Palavra e Vida. Niterói, Jan-Março, p. 24-27, 2007.
[2] Para aqueles que desejam se aprofundar neste assunto, sugiro que acessem a Revista Mandrágora, No. 12, 2006, Masculinidade, Gênero e Religião, publicada pela editora da UMESP.
[3] MANSILLA, Sandra Nancy. Hermenêutica das linhagens políticas – Um estudo sobre os discursos em torno das genealogias e suas implicações políticas. Revista de Interpretação Bíblica Latino-Americana, Petrópolis, Vozes, n. 41, p. 92-102, 2002/1. Para conhecer a história destas mulheres, veja http://www.madres.org/asociacion/noticia/madresver2.asp

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

RIBLA - Revista de Interpretação Bíblica Latino-Americana (1986 - 2006): memórias e Perspectivas

Lília Dias Marianno [1].



Mais nova que a revista Estudos Bíblicos, RIBLA[2] tem estado presente na trajetória dos teólogos biblistas latino-americanos há aproximadamente 20 anos. A primeira edição de 2005 comemorou os 50 números da Revista. O Dr. Milton Schwantes narra os inícios da revista no editorial desta edição com as seguintes palavras:

“A revista de Interpretação Bíblica Latino-Americana/RIBLA é fruto de um sonho que vem sendo respirado há muito tempo: a América Latina e o Caribe têm seu berço no mesmo episódio, o da expansão da vida européia para novas terras. Esta conquista se sobrepôs violentamente aos povos que aqui viviam e que passaram a ser chamados de índios. Importou para cá nações africanas que, naqueles tempos, já estavam sob domínios escravistas europeus. E, enfim, para estas novas terras expulsou quem por lá, em terras européias sobrava, porque havia empobrecido em demasia ou porque aqui quisesse fazer rápidas riquezas e por outros tantos motivos. Em meio a este turbilhão de gentes, de origens tão diversas, portadoras de alegrias marcantes bem como de tristezas profundas, de jeitos diversos, esta Revista busca um encontro, um encontro de horizontes. [...] A Revista é fruto de encontros. É assim que a experimentamos, desde seus começos. Ela é fruto do desejo de intercâmbio. Estamos nos encontrando desde o primeiro semestre de 1985. A primeira vez foi na casa de Jorge Pixley, que naqueles anos vivia na cidade do México; na ocasião reunia-se uma comissão de estudos, promovido pelo Conselho Mundial de Igrejas. No contexto deste encontro, juntaram-se alguns biblistas para idealizar a elaboração de uma revista latino-americana que recolhesse a variedade de novas leituras e experiências bíblicas. Meses depois fizemos um encontro similar em São Paulo, com um grupo de outras pessoas. Daí resultou a projeção de um encontro de biblistas de mais outros países, como do Chile, da Argentina, da Bolívia, da Colômbia, tendo a intuição de uma revista, simultaneamente em português e em espanhol, para que crescesse o intercâmbio entre nós, em busca de melhor entender as transformações culturais e sociais latino-americanas e caribenhas formuladas em linguagem de interpretação bíblica” [3]

Assim, usando as definições do Dr. Schwantes, diríamos, sem medo de errar, que RIBLA é resultado da troca que acontece no encontro de gente que cruza fronteiras. Um intercâmbio de interpretações bíblicas transculturais promovido em solo latino-americano e caribenho, de gente que tem que atravessar o país, cruzar as fronteiras e andar com o passaporte em dia para manter aceso o propósito da leitura popular da Bíblia. RIBLA transforma em hermenêutica e exegeses bíblicas as experiências concretas de grupos indígenas, afro-descendentes e nativos no nosso continente. Nem todos os nossos colaboradores são latino-americanos, temos alguns da outra América e também da Europa, mas por alguma razão, estes colaboradores viveram neste solo e vivenciaram a Bíblia no chão desta terra trabalhando com o povo nativo, sendo “um de nós”. Povos nativos daqui e povos nativos de lá, que em algum momento cruzaram fronteiras, se encontraram e trocaram idéias e sonhos sobre a influência da Bíblia na vida do nosso continente.
RIBLA é uma revista de fronteiras. Fronteiras que são cruzadas para os encontros de estudo, das temáticas a serem abordadas, para os planejamentos dos números que seguem no prelo, para a discussão dos rumos da teologia bíblica na América Latina e Caribe. Fronteiras que são cruzadas constantemente pelos latinos e brasileiros que por vocação e dedicação ao estudo da Bíblia saem de suas terras para cursar especialização bíblica num outro país, dentro ou fora do continente. Daqui para Europa ou América do Norte, ou migrando dentro da própria América Latina e Caribe. Fazendo uma passagem rápida pelos rostos dos/as colaboradores/as de RIBLA, não nos recordamos de um/a sequer que tenha vivido o tempo todo em sua terra sem ter que migrar. Todos, ou pelo menos a maioria, ao menos uma vez na vida, por causa do estudo da Bíblia, tiveram que cruzar fronteiras e morar longe de suas próprias culturas. RIBLA é uma revista de colaboradores migrantes e porque não dizer também peregrinos.
RIBLA também é uma revista de releituras da vivência ecumênica. Temos observado nos encontros que a Revista está constantemente se relendo. Faz estudo da trajetória percorrida para estabelecer a estratégia do avanço. Este processo constante de auto-releitura é uma vereda que a Revista trilha com muita naturalidade, faz com gosto e produz resultados muito significativos.
As mulheres têm espaço especial na Revista. A maioria das edições equilibra o número de colaboradores e colaboradoras. As mulheres de RIBLA se reencontram com certo espaço de tempo, fora do encontro geral da Revista, para avaliar o caminho percorrido e avançar com novas pautas hermenêuticas. Na mesma edição n. 50 está o texto que é resultado dos encontros de reflexão, avaliação e projeção de novas pautas hermenêuticas da teologia bíblica feminista latino-americana do ano de 2004. “Avalia e reflete a caminhada de mulheres biblistas junto ao povo no trabalho com a Bíblia. Rememora avanços e esboça desafios hermenêuticos, epistemológicos, metodológicos, (est) éticos. Reafirma nossa fidelidade a Deus que se manifesta como compromisso junto ao povo empobrecido, principalmente mulheres, crianças e outras minorias qualitativas. Reafirma nossa identidade feminista de libertação”. [4]
RIBLA é uma revista de opção pelos pobres. Este é um compromisso assumido e sempre relembrado para que nunca seja negligenciado. As temáticas escolhidas para cada número são frutos dos debates entre os colaboradores, das necessidades de intervenção bíblica que se fazem prementes em nosso chão, sempre olhando para as experiências concretas de vida de grupos desprivilegiados e que sofrem qualquer tipo de segregação social, étnica ou sexista. A necessidade constante de intervenção da teologia bíblica nas situações do cotidiano de nosso povo movimenta as temáticas da revista pelas fronteiras da economia, da política, da ecologia, da religiosidade e da história da nossa sociedade.
É bonito ver, por exemplo, como a vigília semanal que já dura três décadas, das Madres de la Plaza de Mayo (pelos seus filhos e netos, presos políticos em Buenos Aires), se transforma num artigo sobre hermenêutica das genealogias dos heróis bíblicos publicado em RIBLA 41, e anos mais tarde se concretiza numa visita de todo o grupo de colaboradores no Café de las Madres e na discussão dos eventos políticos e sociais que mobilizam estas mulheres há tanto tempo[5]. É assim que RIBLA vai fazendo seu caminho, e vai trilhando o seu chão. Encontro de gente, que cruzou fronteiras para encontrar gente, para ler gente, para se reler, para ler a Bíblia com gente.
RIBLA é fruto de um ideal que não pode morrer. É um amplificador do texto bíblico como voz profética contra as injustiças que se promovem contra toda a criação de Deus: seres humanos, animais, a natureza. Por isso mesmo a nova geração de biblistas, que desejar palmilhar a trilha da hermenêutica libertadora da palavra de Deus, será bem-vinda[6]. A reflexão inovadora que mantenha o foco no compromisso da Revista é recebida de braços abertos e com alegria. A Revista respira esta necessidade de mentes novas, centradas na Palavra, que mantenham a perspectiva e a chama do ideal libertador acesa.
Os temas são escolhidos em conjunto. As publicações são projetadas de forma que se intercale uma edição dedicada a livros bíblicos com uma edição temática. O planejamento já está feito até 2010, uma vez que os colaboradores se encontram apenas uma vez a cada ano e meio. Em termos de projeção, os biblistas de RIBLA estão trabalhando para trazer aos seus leitores dos próximos números as seguintes temáticas:

53 (2006/2) - Interpretação bíblica em busca de sentido e compromisso (Métodos int.)
54 (2006/2) – Raízes afro-asiáticas no mundo bíblico
55 (2006/3) – Cartas Deuteropaulinas
56 (2007/1) – Masculinidades
57 (2007/2) – Reprodução humana
58 (2007/3) - Apócrifos do Segundo Testamento
59 (2008/1) – Vida em comunidade
60 (2008/2) – Profetas Anteriores
61 (2008/3) – Alianças
62 (2009/1) – Cartas Paulinas
63 (2009/2) – Migrações
64 (2009/3) – Religiões populares do Mediterrâneo.

Estão definidos também os temas das edições 1 e 2 de 2010. O próximo encontro da Revista acontecerá no ano de 2008 no Equador. O desafio de RIBLA é permanecer como publicação impressa no meio da proliferação de documentos eletrônicos, no qual o seqüestro de propriedade intelectual e o plágio em trabalhos acadêmicos ficam assustadoramente facilitados. É importante que os professores de Bíblia estimulem a assinatura da revista para as bibliotecas de suas instituições de ensino e também por parte de seus alunos.


[1] Comunicação apresentada em Setembro/2006 em Goiânia, na Universidade Católica de Goiás
[2] Frei Ludovico Garmus me incumbiu a tarefa de fazer uma síntese da revista RIBLA para este Congresso, mas preciso avisar o leitor que este será um relato de uma colaboradora apaixonada pela revista, pelo seu ideal e pela sua forma de trazer para o povo latino-americano e caribenho, novas possibilidade de interpretação bíblica; o relato de alguém que experimenta encontros transformadores com os textos da Revista. A comunicação apaixonada gerou um texto menos acadêmico.
[3] SCHWANTES, Milton; RICHTER REIMER, Ivoni. Editorial. Revista de Interpretação Bíblica Latino-Americana. Petrópolis, n.50, p.7-8, 2005/1.
[4] RICHTER REIMER, Ivoni; BUSCEMI, Maria Soave. Respiros... entre transpiração e conspiração. Revista de Interpretação Bíblica Latino-Americana. Petrópolis, n.50, p.157, 2005/1.
[5] Refiro-me ao encontro de RIBLA em Buenos Aires do ano de 2006 e ao artigo de Sandra Mansilla, que toca neste assunto: MANSILLA, Sandra Nancy. Hermenêutica das linhagens políticas: um estudo sobre os discursos em torno das genealogias e suas implicações políticas”. Revista de Interpretação Bíblica Latino-Americana. Petrópolis, n. 41, p. 92-102, 2002/1.
[6] Falo disso por experiência própria, pela forma calorosa como fui acolhida pelos veteranos quando participei do meu primeiro encontro de RIBLA no ano de 2004.

Sob as luzes da ribalta: relações de gênero na corrida pelo "púlpito" ... eletrônico

Lília Dias Marianno [1]

Ao pensar nesta comunicação, minha idéia era aproveitar alguns dos temas já desenvolvidos neste simpósio, sobre os quais venho fazendo alguns apontamentos e tocar em pontos nevrálgicos a respeito do uso da mídia televisiva e a espiritualidade popular. Como já foi dito aqui, a TV e o clero possuem o monopólio da fala, por esta razão a idéia era levantar alguns questionamentos sobre a presença e atuação de mulheres em posição de “clero” na TV: pastoras, esposas de pastores e “tele-evangelistas”.

Todavia isto carece de esclarecimento de que uma análise de gênero não é uma análise exclusivamente feminista. As teorias feministas forneceram um roteiro para os demais estudos de gênero, isto é fato, mas falar de gênero como sinônimo de feminismo provoca um empobrecimento de sentido que precisa ser corrigido. Falar de relações de gênero na corrida pelo púlpito implica em tocar nas disputas de interesses e medições de força (que entram nas esferas políticas, religiosas, econômicas, simbólicas e coercitivas como já foi falado aqui) quando se coloca homens e mulheres na condição de pastores e pastoras, chegando até o extremo mais polêmico que é o de discutir a questão dos gays na posição de pastores, algo que já aviso: NÃO FAREMOS AQUI. Por isto também tivemos que incluir os homens, já que a corrida pelo “palco luminoso” nunca foi exclusividade feminina.
Esta tentativa nos fez deparar com uma antiga questão, muito mais relevante para a ética cristã do que se mulheres e gays têm ou não têm o direto ou condições de exercer o pastorado. Trata-se de uma questão que ainda se encontra sem uma resposta convincente: qual uso que os evangélicos têm feito dos canais de comunicação públicos? Este uso tem glorificado o nome de Cristo? Ou uma questão ainda mais fácil de pesquisar: qual é o percentual de pessoas que realmente tiveram uma experiência de encontro com o Salvador por estas vias?
Tentei fazer uma seleção das "pérolas" nas bocas destas “celebridades” evangélicas que andam expostas por aí, na intenção de montar um pequeno vídeo de MP3 contendo uma mixagem de trechos que “marcaram” a trajetória destas personagens na TV, uma pequena amostragem de 5 minutos. Mas a tarefa foi ficando impossível e o rumo do meu ensaio acabou mudando um pouco.
Com o intento inicial começamos a recolher materiais relacionados a: mulheres, liderança, espiritualidade popular e TV. Tivemos contatos com alguns materiais simplesmente bizarros, reais, e, assustadoramente, muito bem recebidos pelo público em geral. Verdadeiros mecanismos de lavagem cerebral e manipulação das massas. Nosso olhar focava o efeito destas pregações da “telinha” na vida dos fiéis.

Começando com alguns trechos de Josué Yrion[2], pregando no Brasil, flambando a Disney no seu português inglesado, neurotizado pelos efeitos demoníacos dos filmes e desenhos da produtora na vida das crianças (americanas). Impressionante a ausência de exemplos brasileiros para justificar sua tese, apenas exemplo norte-americanos desconsiderando todo o contexto cultural americano que tanto favorece determinados resultados. A seguir alguns trechos da pregação da menina pastora, Ana Caroline[3], aos 7 anos de idade, verborragizando um sermão sem sentido, que misturava pedrinhas da funda de Davi com a fidelidade de Rute e as promessas de Deus a Josué de ser forte e corajoso, junto com muita saliva e gritaria dela e do auditório que experimentava uma verdadeira catarse emocional na reunião, obviamente, durante tudo isso os dízimos eram recolhidos.

Depois destas duas tomadas consegui encontrar Baby do Brasil em 2006, no programa do Jô celebrando seus 6 anos de conversão, afirmando que como ministra de louvor e “pop-stora” diz para sua igreja que “não vai ter bunda-mole no céu só casca grossa”[4], a seguir tentava impetrar a cura divina sobre um problema que o apresentador tem nos braços, após ele confessar que durante uma dessas orações pela televisão ele orou com fé pela cura do braço e nada aconteceu. É de se imaginar que não houve espaço no programa para a continuação da operação de maravilhas.

A junção destas primeiras incoerências já causava transtorno mental, mas achei que este continuaria sendo um bom caminho para nossa análise, então mergulhei num outro vídeo, no qual Estevam e Sônia Hernandes[5], em maio de 2002 no programa do Gugu Liberato, transtornados pela capa de Época que os chamava de “caloteiros da fé”[6], negavam as acusações de acúmulo ilegal de patrimônio, mesmas acusações que os deixaram sob vigilância da Receita Federal e que de certa forma é responsável pelos episódios do início de 2007[7]. Depois disto encontrei outro vídeo, desta vez com Silas Malafaia descendo o cajado no casal Hernandes pelo enriquecimento[8] e seguidamente um outro vídeo, desta vez com Caio Fábio[9] descendo o cajado no Silas e nos Hernandes, afirmando que ninguém pode acusá-lo de nada. Fiquei confortada ao concluir meu roteiro na internet com outro vídeo da menina pastora, vídeo atual[10], no qual ela conta com 13 anos de idade e desenvolveu um ministério de oração pelas pessoas, no qual atende em casa, através do telefone, ou no monte de oração, ali sozinha, com os membros de sua família às vezes, sem nenhum chamariz, sem nenhuma ribalta, sem nenhum holofote.

Depois deste ataque à minha própria capacidade de tolerância, desisti da internet e resolvi cumprir a tarefa de assistir aos programas evangélicos de TV que passam no canal aberto, mas confesso que foi mais difícil do que pela internet. Assustei-me ao ver a forma como importantes questões de gênero quanto: depressão masculina, sexualidade masculina e feminina, incluindo questões de impotência eram tratadas de forma tão leviana através do “púlpito eletrônico”..
Esta semana assisti Malafaia em uma de suas pregações gastar perto de 10 minutos de uma de suas mensagens falando de vigor sexual masculino, usando o exemplo de Caleb aos 80 anos, dizendo que a força de um homem está no seu falo, na sua potência sexual. Que os homens de 40 anos hoje estão todos caídos... “Se está faltando potência, meu irmão: toma catuaba, viagra”, e dizendo que a medicina hoje está muito avançada, concluiu dizendo: “A obediência à Bíblia é o segredo para o sucesso”, e eu fiquei me perguntando: e quando o crente é obediente e sincero, é um justo, e mesmo assim sofre e não tem sucesso em tudo? Por que só se prega sobre sucesso, e não sobre graça na provação? Por que este espaço público não é usado com honestidade para falar dos sofrimentos que passamos por nos dedicarmos à obediência e à vida de verdadeiro discípulo de Cristo?

Claro que depois de tudo isso mais 10 minutos do programa eram usados para a promoção de livros de sua editora, que com a bagatela de “140 reais” o cliente tem descontos pela compra dos 4 volumes, incluindo um livro de auto-ajuda, não cristão muito interessante chamado: Degraus de poder para o sucesso ... muito imprópria esta insistência com as palavras poder e sucesso em todo o teor da pregação e também no decorrer do programa,
Ah sim, não podia deixar de falar das dicas de higiene fornecidas por sua esposa ensinando as pessoas a lavarem as mãos antes das refeições, isto além da publicidade de duas de suas obras mais recentes: Diário da Mulher Vitoriosa (uma agenda com páginas em branco para serem anotadas) e Devocional da Mulher Vitoriosa , contendo textos bíblicos para meditação no dia a dia. O programa completou 25 anos no ar! Isto significa que o povo assiste e aprova!

Tomei algum tempo também assistindo R. R . Soares, que pelo menos não me afrontava com aquela gritaria no microfone dos outros interlocutores. Embora eu faça sérios questionamentos ao formato da teologia do missionário, principalmente o foco na questão da prosperidade, tenho que admitir que seu programa, dentre os evangélicos, foi o único que me proporcionou algum alívio com o quadro: Novela da vida real na qual alguém se apresenta dando testemunho de seu encontro transformador com Jesus Cristo. Ufa! Finalmente o Senhor Jesus conseguiu assumir “o púlpito”.

Lembrei-me de um professor de Sociologia, quando iniciei minha graduação em administração, que, numa ocasião, levou para a sala de aula uma gravação do programa de rádio do Haroldo de Andrade, no qual as pessoas narravam seus dramas pessoais em busca de conselho e orientação. Alguns alunos caíram na gargalhada, dizendo que era ridículo um professor universitário ouvir aquele tipo de coisa. Me lembro como se fosse hoje das palavras que ele dirigiu a nós, administradores em formação, mais de 20 anos atrás: “Vocês querem vender seus produtos às massas, mas como conseguirão fazer isso sem ouvir estas massas? Vocês têm que ouvir os problemas dessas pessoas se querem alcançá-las”. Que conselho tão verdadeiro e tão pastoral, vindo de alguém que nem cristão era. Lembrando das palavras deste professor, esgotei minha cota de paciência com os programas evangélicos e fui ao encontro dos programas que as massas estão assistindo nos fins-de-tarde brasileiros, e para minha surpresa, encontrei mais coerência num programa “belicoso” como o de Márcia Goldschmidt, cuja vinheta é: “mexeu contigo, mexeu comigo” do que no nosso festival evangélico de fartas promessas de prosperidade, vitórias e vida de sucesso.

Fiquei impressionada com a fartura de programas de auditório que lidam com sérias questões de gênero como: infidelidade conjugal, mentira entre amigas íntimas, mentiras entre cônjuges, desprezo de filhos de um segundo casamento, netos que se envergonham do comportamento de suas avós, valorização do ser humano, enfim, questões tratadas em talk-shows que expõem problemas de pessoas das camadas mais pobres, mas são pessoas que pedem para serem expostas, pois entendem que a sinceridade e o confronto público ainda é a melhor forma de solucionar as questões. Gente que busca solução e reconciliação, apesar da “ribalta”...

Apresentadoras como a jornalista Regina Volpato do programa Casos de Família tratando com tanto carinho e meiguice às pessoas sofridas que passam por seu programa tentando caminhos desesperados de reconciliação, carinho que no meu entender muitos pastores não dedicam à suas ovelhas em seus gabinetes, muitos líderes não exercem com seus liderados, muitos patrões crentes não exercem com seus empregados. Nossos púlpitos andam impregnados de promessas de vitórias e auto-ajuda, mas para aqueles que contribuem regularmente, as viúvas pobres que tem 2 moedas uma vez ou outra, se sentem fora da promessa de bênção.
Ouvi recentemente de uma delas o seguinte: “saio da igreja com um enorme peso, tenho a sensação que minhas finanças estão na mão do diabo depois da mensagem do pastor, me sinto tão culpada por não poder contribuir mais, fico triste, mas não tenho de onde tirar, irmã!”.
Para completar minha crise, o programa onde vi algumas questões tratadas mais seriamente com um viés um pouco mais espiritual, embora por caminhos teológicos que qualquer evangélico fará sérias recriminações, foi Luiz Gasparetto, com o Encontro Marcado nos fins de tarde.

Concluindo minha maratona, confesso que me sentí tão cansada quanto quem correu 50 km numa única manhã, talvez mais cansada pois também me sinto desanimada, um cansaço emocional que somatizou no corpo me deixou fragilizada por uns dois dias fazendo perguntas a mim mesma que não têm mais a ver com o tema que eu precisava desenvolver nesta comunicação, mas me perguntam pela espécie de cristianismo que estamos mostrando a este mundo. Que qualidade de vida transformada é a que temos, que nos expõe publicamente de forma tão desmoralizada? E pior, ainda fazemos questão de estar na ribalta, sob as luzes dos holofotes. Para quê? Para mostrar um corpo de Cristo rachado, sangrando no meio de tantas divisões e intrigas, amargura e acusação?

Na tentativa de ver como as questões de gênero eram tratadas na mídia pelos apresentadores evangélicos, acabei percebendo que nós, evangélicos, andamos negligenciando o ministério da reconciliação que nos foi conferido pelo Senhor. Não estamos trazendo pessoas para uma reconciliação com Deus nem para uma reconciliação umas com as outras. Estamos usando nossos dedos para condenar, atacar, falar de coisas que não conhecemos e o nome do Senhor Jesus que restaura a vida das pessoas está sendo esquecido quase todo o tempo.

Os seres humanos continuam com os mesmos problemas e a igreja tem desprezado sua missão de trazer alívio ao sofrimento humano através do testemunho de nosso encontro com o Senhor Jesus. A Igreja tem deixado que as pessoas que não têm dentro de si o Deus da Vida pastoreiem estas questões. A igreja se ressente das tendências das mulheres feministas em “assumir o poder” eclesiástico, esquecendo que a sensibilidade feminina, por uma questão de gênero, é a sensibilidade humana que mais promove reconciliações.

A ternura da apresentadora de Casos de Família me lembrou II Co 5,18-19: “Ora, tudo provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo e nos deu o ministério da reconciliação, a saber, que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões, e nos confiou a palavra da reconciliação”. Nosso papel não é acusar, é reconciliar e isso Regina Volpato estava fazendo muito bem!

O Senhor Jesus falou disso no sermão do monte: “se ao deixares tua oferta no altar, lembrares que tens alguma coisa contra teu irmão, vai tu, reconcilia-te com ele primeiro, então vem e traz a tua oferta”. Do que adianta ofertar sem perdoar, sem reconciliar?

Me desaponta ter que admitir que pessoas que não são discípulas de Jesus estejam mais envolvidas com a reconciliação do ser humano do que nós estamos. Será que este evangelho que se encontra tão machucado na mídia ainda tem o poder de sobrepujar os corpos e vidas de seus pregadores e ainda falar mais alto? Temos a promessa bíblica que sim. Graças a Deus pelo Espírito Santo, que transforma esta bagunça que fazemos em verdadeiros milagres! Mas isto não nos isenta do dever de testificá-lo diariamente com nosso viver, com nossa ética, com nosso interesse pelo sofrimento humano e nossa dedicação em trazer a presença de Cristo para este mundo que agoniza, preenchendo os corações. Fiquemos com as palavras de Sérgio Pimenta, em sua poesia e música.

FONTE
Sérgio Paulo Muniz Pimenta

As palavras não dizem tudo, mesmo que o tudo seja fácil de dizer.
Com certeza, fala bem melhor o mudo, se sua atitude manifesta o que crê.
Compromisso, sumiço, omisso; ou faz o que fala ou se cala de uma vez,
Que não venha sobre si justo juízo, pois terrível coisa é cair nas mãos do Rei.

Mesma língua que abençoa – amaldiçoa!
Mesma língua canta um hino e traz divisão,
Não pode da mesma fonte o doce e o amargo, se Cristo habita de fato no coração.


[1] Comunicação apresentada em Painel no II Simpósio de Ciências da Religião promovido pelo programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião IBEC em 08 de Dezembro de 2007.
[2] http://www.youtube.com/watch?v=_Wud5vSIQ0I
[3] http://www.youtube.com/watch?v=KC0on_LpoMM
[4] http://www.youtube.com/watch?v=RVG6NeHoQBg&feature=related
[5] http://br.youtube.com/watch?v=cf1sr6ru7L4&feature=related
[6] http://epoca.globo.com/edic/210/especialgolpea.htm
[7] http://br.youtube.com/watch?v=ytJApy4p2V8 sobre o acúmulo de capital: http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EDR76167-6009,00.html
[8] http://br.youtube.com/watch?v=INTssKOBJfQ
[9] http://br.youtube.com/watch?v=eLm-4fYYhWg
[10] http://www.youtube.com/watch?v=uhr_87LOtUk&feature=related