quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Sonho de águia

Sonho de Águia
(Cidade do Panamá - 19/05/2008)
Lília Dias Marianno
Dentro de mim mora uma menina
Sonhadora, romântica, alegre
Vibrante como uma gérbera amarela
Ela está lá no Panamá
De costas para todos
De frente para a pista de pouso e decolagem
E se lembra que ela é uma águia
Ignora as pessoas
Ignora as novidades
Ignora até o momento histórico
de pisar um chão totalmente novo.
Ela sente o impulso de voar como um pássaro forte
Desses que voa lá no alto
E que constrói seu ninho nos lugares absurdos
No cume das montanhas
Nas cristas dos penhascos
Mas ela não sabe onde está seu ninho
Sonolenta, ela adormece
Esperando pelo avião que a levará
Para um destino temporário
Enquanto suas próprias asas não a levam
Para o ninho solitário no cume das rochas
Dividido apenas com seus filhotes e com seu amor.
A menina sonha e dorme...
Dorme e sonha...
Sonha com a águia, seu par
Linda e cortês, galante e fiel.
Sonha em admirá-la e respeitá-la
E por ela ser respeitada e admirada.
A menina sonha e dorme...
Dorme e sonha...
Sonha em ser o arrimo do seu cavalheiro
A quem oferece o peito acolhedor
Quando este chega cansado, abatido,
exausto das guerras da vida.
A menina sonha e dorme...
Dorme e sonha ...
Sonha que um dia será completa
Amando de novo
E sendo amada, talvez pela primeira vez
E suspira dormindo ...
A menina sonha e dorme...
Dorme e sonha...
Sonha com um dia de sol e frescor
Um dia em que o vento
Que sopra nos quatro cantos da terra
Trará para ela
Um inédito alvorecer do amor!

domingo, 6 de setembro de 2009

Mente insana no corpo são

Quando se completa quarenta anos, a vida muda de perspectiva.
Dizem que os homens sentem que nasceram de novo.
Se sentem meninos e pensam que são adolescentes de novo, hehehe
As mulheres, por sua vez, entram na famosa "idade da loba"
Essa idade é maravilhosa! Estou amando cada segundo dela.
Mas o fato é que, quando cheguei aos 41, comecei a refletir sobre a velhice com uma curiosidade singular. Passei a me encantar ainda mais com a sabedoria do ancião e a me alegrar sobremaneira quando encontro estes velhinh@s bem vivid@s e bem resolvid@s
que nos transmitem tanta lição de vida com um simples sorriso
ou uma frase curta dita com muita precisão de conteúdo e de momento...
Comecei a querer ser um deles.
Dizem que depois dos 40 as mulheres não dizem mais que idade tem
e que escondem de todas as formas possíveis 
a visibilidade dos anos no seu corpo... 
eu acho isso tão engraçado!
É óbvio que eu gostaria de ter o corpinho dos 18 anos novamente,
que mulher não gostaria? Essa vaidade feminina tem endereço certo em quase todas as mulheres, mas abrir mão da experiência que esta  quadra de décadas me proporcionou?
nem pensar! Prefiro mil vezes ficar com a idade dos 40 no corpão dos 40.
Mas ainda olho para a boa velhice com um certo encantamento ...
E tenho pena das pessoas que vivem de uma forma que sempre querem voltar no tempo
para refazer as coisas, para ter uma segunda chance.
Quando olho para trás, não sinto esta nostalgia.
Sinto saudade dos momentos vividos, mas não mudaria nada da maioria deles.
Houve momentos na vida que, se tivesse maior maturidade, teria feito as coisas de modo diferente, mas quando olho para o meu coração naquela época,
era tão ardoroso, tão cheio de paixão por tudo que fazia, com tanta vontade de acertar
que, sinceramente, me perdôo pelos "nós" do meu passado com tanta tranquilidade
que às vezes penso que não sou muito normal...
Aí abaixo vai um conto que escrevi sobre velhice em 2007, baseado em fatos reais,
desses que a gente passa na cozinha de casa em qualquer dia da semana ...

TERAPIA DO RISO
Por Lília Dias Marianno
Esses dias eu estava na cozinha e, ao segurar o botão que ligaria o fogo, constatei a dura realidade: a gordura estava começando a chegar num nível insuportável no meu auxiliar de tarefas domésticas: João - o meu fogão. “Tá sujinho hein, velho”, falei para ele.
Interrompi tudo que fazia para esguichar um desses limpa-tudo – desengordurante –abrilhantador - polidor que a química moderna inventou para donas e donos de casa atarefados que não têm tempo de empregar seus músculos na dura tarefa de limpar aquela joça. Detesto limpar fogão!
Mas lá foi o João, sendo enchuveirado pelos esguichos de um Easy-off misturado com Veja multiuso. A alquimia no recinto estava no ápice, e os vapores daquela mistura toda subiam de forma tão bem disposta que tive que ligar o exaustor, pois o cheiro começava a me sufocar. Fiquei pensando como é fácil ser envenenado na própria casa e pelas próprias mãos. Basta usar um desses “limpa-tudo” mágicos divulgados pela mídia.
Para limpar direito tive que retirar as grades, depois os queimadores, as tampinhas dos queimadores, algumas estavam limpas, era só passar um pano. Mas outras precisavam ser lavadas com uma dose especial de disposição. Já era tarde. Coloquei a tampinha maior no queimador de origem e deixei as outras dentro da bacia da pia para lavar no dia seguinte.
Dia seguinte, hora da comida, aquele rush das onze horas que me faz colocar meus lentos pré-adolescentes em movimento de alimentação, verdadeiro trabalho de Hércules. Os queimadores do João estavam limpos no lugar, sem suas tampinhas. Lavei as ditas cujas, enxuguei, mas ao recolocá-las nos queimadores, constatei a ausência de uma delas. Fiquei intrigada. No dia anterior eu colocara três dentro da pia, só não coloquei a do queimador gigante, como é que agora só encontrava duas? A tampa gigante estava no lugar desde a véspera. Fiquei aflita, procurei, pensei: gente, será que joguei no lixo? Se foi isso minha caduquice está maior do que pensei. Revirei o lixo da cozinha. Nada. Revirei o lixo que se encontrava a caminho da lixeira fora de casa. Nada.
O tempo corria e eu tinha que preparar o almoço dos meninos para irem à escola. Fiquei chateada com a coisa. Como eu podia perder um componente tão importante do João desse jeito? Assim, do nada? Como isso acontece?
Quando os meninos saíram revirei todas as partes da cozinha, dali eu sabia que o objeto não teria saído. E danei a procurar, e procurar. Nada! Tive que começar a pensar onde eu poderia comprar uma tampa de queimador do mesmo modelo. Porque a que faltava, eu só podia ter jogado no lixo, lixo que já tinha tomado seu destino longe de mim há tempos, pelo jeito.
Passaram-se dois dias e eu ainda pensava na tampa do queimador. Mais dois dias cozinhando apenas com três bocas de fogo, pensando no ocorrido e completamente estupefata comigo mesma, na forma como a idade me faz perder o controle da situação à minha volta. Me senti cansada com cento e vinte anos, uma velha, senil que não consegue lembrar onde colocou um objeto cinco minutos antes, que coisa degradante.
Fiz uma prece por causa desta tampa: “Deus, preserve-me a memória, porque no dia que eu começar a esquecer de coisas tão recentes como esta é porque estou pronta pra partir desta vida. Ficar aqui com uma cabeça dessas, não dá não, é dar trabalho para os outros”.
Passada uma semana estava na hora de limpar João novamente. Em geral cozinho com muita limpeza no ambiente, o que me leva a esta mordomia de só limpar o fogão uma vez por semana, mas meu primogênito  tinha fritado hambúrgueres na cozinha e de repente  João e José (o exaustor) estavam irreconhecíveis. Impressionante como uma cozinha limpa, feminina, decorada, cheirosa se transforma numa barraca de camelô em pouco menos de cinco minutos. A fritura de um mísero hambúrguer, que poder destruidor!
Gordura, aquela coisa asquerosa estava lá de novo. Lá fui eu desta vez atacando José também. José estava numa situação interna deplorável. Ele não aspirava mais os vapores do cozimento. Como um canceroso dos pulmões que fora um fumante inveterado por toda a vida ele arfava ruidosamente aquela gordura que entrava violentamente por seu motor à dentro. Claro, limpar José sem limpar João depois era besteira.
Ao levantar as grades e retirar os queimadores para nova limpeza, exceto aquele quarto queimador que jazia sem tampa desde a semana anterior, fui surpreendida com uma cena inesperada: sobre a tampa do queimador maior havia algum relevo. Estranho. Chegando mais perto não discerni muito bem, mas quando discerni não cri: a quarta tampa estava ali, todo aquele tempo, em cima da tampa maior.
A tampa perdida, no lixo procurada, que inculcou a dona da casa e a levou à reflexões filosóficas sobre a fragilidade da condição humana e sobre a possibilidade de uma velhice inválida. A tampa que a fez levantar uma prece diferente, estava ali, camuflada pelas próprias reentrâncias circulares da tampa maior, aquela que não tinha ido parar no meio da pia.
Comecei a rir descontroladamente e passei uns quinze minutos sentada no chão da cozinha, dando gargalhadas que me arrancavam lágrimas e me doíam a barriga. Estava sem forças para levantar de tanto que ria e pensando: meu Deus, o nível de caduquice está pior do que eu pensava! A senilidade já chegou e eu nem percebi. A tampa nunca saiu daqui. Minha cegueira é que não me permitiu enxergá-la, e eu cozinhando durante uma semana com apenas três bocas de fogo. João, porque você não me mostrou isso, seu indecente!
Ainda bem que meus filhos não estavam em casa, se me encontrassem sentada no chão da cozinha chorando de tanto rir teriam ligado na mesma hora para minha mãe. Até imaginei a cena:
“Alô, vó, é você vó?”
“Eu sim, é você Daniel?
“Sou eu! Vó, corre aqui! Minha mãe tá passando mal!”

Idade... ela chega! Querendo ou não querendo!
Se aprendermos a dar gargalhadas das peças que ela nos prega passaremos a velhice rindo, e rindo muito!

Sorriso nublado

Eu 2007 eu comecei a perceber que meu sorriso estava muito escuro.
Nunca tive dentes muito claros, mas eles estavam escuros demais.
Cada fotografia que tirava era um sorriso cinza!
A coisa ficou tão esquisita que isso mudou meu jeito de sorrir,
percebi que meus sorrisos em fotos evitavam mostrar os dentes, 
com medo de que aquele cinza ficasse perpetuado para a posteridade!
Agora vê?!
Com um pouco de auto-crítica, reparei que o excesso de cafeína (para aguentar as noites acordada produzindo textos para as editoras) e a taração pelo chocolate estavam deixando efeitos colaterais naquele pedaço do corpo que será útil para o reconhecimento da minha carcaça deteriorada, muito tempo depois que eu me for deste "mundo mundo, vasto mundo"...
Comecei a cotar um clareamento dental. Procurei um especialista e depois de séria análise, tive a triste notícia de que meus dentes já são meio cinzentos por conta de antibióticos (tetraciclina) que minha mãe tomou, quando estava grávida de mim, lá no século passado, quase na metade dele! Que m..!
É muito azar! Não tem clareamento a laser que deixe os meus dentes brancos.
Num dia que ria dessa minha "desgraça", escrevi este texto muito rapidinho e mandei para o meu dentista! Ele vai aqui em baixo pra vc.

Ó grande guru dos dentes brancos:
salvai nossos dentes acinzentados pela tetraciclina,
amarelecidos pela erva mate,
grafitados como dia nublado e amarronzados como um girassol ressecado.
Acima de tudo, guru, guardai-nos da taração pelo chocolate, da veneração pelo café, do apego ao vil metal chamado ferro que transborda ameaçador de nossos copos de açaí, encardindo a brancura de nossos mordedores, oxidando nossas intenções risonhas!
Livrai-nos do mal, guru! Livrai-nos do mal!
E se Deus quiser, o seu carão for suficiente e nossa vergonha na cara for bastante, permaneceremos com eles tão brancos quanto a neve até o dia da nossa morte.
Ou melhor, após a morte, acabando com a raça dos legistas
que tentarem descobrir nossas identidades através dos exames de arcada.
Tais aventureiros serão ofuscados pelo brilho de nossos dentes e cegos perguntarão: 
"que branco é esse"?

Dessas coisas que não fazem sentido

Como pode uma pessoa que escreve tanto, mas tanto,
e que gosta tanto de escrever 
e que escreve tão rápido como eu escrevo, não ter tempo para escrever mais um pouquinho?
É um troço esquisito, mas tão real que me assusta!
Quando olho esse blog sem texto novo há 9 meses, sinto vergonha.
Tem tanta coisa já escrita, era só postar aqui!
Talvez eu quisesse fazer deste espaço um lugar específico para postagem de textos mais ligados com gênero e Bíblia, e por isso, evito colocar os "respiros" cotidianos.
Esse rigor excessivo com certas  coisas é um algo que me persegue.
Não gosto dele, mas me prendo a ele. Mas tenho que arrumar um jeito de me soltar disso.
Então, tentando dar um jeito de burlar meu próprio nível de exigência comigo mesma, 
vou arrumar uma desculpa esfarrapada para colocar aqui textos de outras naturezas.
Primeiro porque não estou a fim de abrir outro blog que certamente não terei tempo de alimentar,  rs...
Segundo porque Bíblia e gênero são minha vida, não tem jeito de eu escrever qualquer coisa que, de um jeito ou de outro, não estejam conectadas com estas duas áreas. 
Sempre estarei sendo movida pela Bíblia para administrar minhas relações de gênero.
Então amigos, não se assustem, se os textos que forem postados doravante,
não forem mais tão "estudos", nem tão "de Bíblia", nem tão "de gênero".
No fundo, no fundo, eles são pedaços da Lília enquanto relê a Bíblia,
então, acho que não fujo tanto do assunto  se eu os postar aqui.
Boas leituras!