sexta-feira, 5 de março de 2010

Me voy, cantando!



Quando na dor, na tentação,
quero em Tuas mãos agarrar
para que não venha a me desviar,
quero poder permanecer
sempre nos teus caminhos
para firmar meus pés em Ti
ó Autor da vida, meu Senhor!

(Nelson Bomilcar - Permanecer)

Esta semana recebi, do coordenador de nossa faculdade, uma correspondência dirigida aos professores, com uma afirmação interessante, para nos dar ânimo, em meio a uma situação muito difícil que estamos vivendo na casa. Ele disse: "conheço a política, a maldade, conheço nosso balanço, conheço as dissimulações dos religiosos, as pantomimas da confissão..." e eu tive que assinar em baixo. Nós conhecemos, e não são belas.

Há momentos da vivência religiosa, principalmente da vivência no institucionalismo  religioso, que a alma seca, a fé se vai e a esperança enfraquece. Estes momentos acontecem principalmente quando nossos líderes religiosos nos decepcionam, nos tratam como objetos, esquecem do ser humano que está ali diante deles, esquecem da dinâmica do ministério de Jesus e da forma como ele era incapaz de desvalorizar o ser humano carente, que a ele se achegava.

Como permanecer firmes, no ministério, no chamado para capacitar os vocacionados que vão servir a Deus por meio desta instituição, se somos tratados desta forma? Como dar uma aula inspiradora? Como falar do amor de Deus nestas circunstâncias?

Uns dias atrás, pela manhã, chegando para a aula das 08, eu vinha cantando um corinho que minha mãe me ensinou quando eu tinha uns 4 anos de idade, e que eram a expressão clássica daquele americanismo que regia nossas liturgias na década de 60. 

A canção, traduzida para o português (traduziam nossos corinhos infantis!!!) dizia assim:

Graças te damos, terno Jesus, 
pelas manhãs tão cheias de luz, 
e pelo sono reparador 
que desfrutamos por teu grande amor. 
Pelos gorjeios do rouxinol, 
pelos amigos raios de sol, 
que às criancinhas trazem vigor 
e ao mundo fazem tão encantador.

Só missionários americanos conseguem colocar numa canção para primeira infância palavras como "reparador", "gorjeios", "desfrutamos", mas esta herança me colocou de pé no dia de ontem.

Sem contar das tribulações pessoais que nós, professores, temos enfrentado,  iniciei a aula recitando este poema (quase cantei, mas só receitei) e depois oramos.

Nossa aula (minha para eles e deles para mim) foi um momento de mútua inspiração, de quebrantamento e de reentrega ao Senhor de nossos desejos, nossas habilidades e nosso ministério.

Por estas e outras situações, concluo que estamos vivendo tempos epifânicos na Colina. Tempos nos quais é a esperança na bondade divina que nos mantém de pé. A despeito de todas as adversidades, cantamos, felizes, a bondade do Senhor porque Deus é Deus, homem é homem. Saber disso já basta!



quarta-feira, 3 de março de 2010

Olhando o olhar

"O que se passa atrás do seu olhar
neste lugar onde o meu olhar
não pode penetrar!

O que se esconde atrás do seu sorrir
neste lugar onde o mentir
não pode enganar.

Pois mesmo que a cada dia
vista-se roupa nova
ou seja perseguida a alegria
carrega-se a si mesmo como prova
de que tudo será como antes.

Mas pode haver novo dia
com esperança nova
se Cristo é a razão da alegria
carrega-se a si mesmo como prova
de que nada será como antes"

(Sérgio Pimenta - Nada como antes)

Sempre me impressionei com a capacidade que Jesus tinha de olhar as pessoas e enxergar o que elas verdadeiramente eram. Sempre orei para que ele que me desse esse discernimento, de olhar para o ser humano e compreendê-lo, discerni-lo, compadecer-me e me movimentar na direção dele. Mas isso requer exercício. Olhar para discernir, é algo que exige prática de compaixão, capacidade de enfrentamento construtivo e, atualmente, exige também muita determinação, pois sempre que encarado, a tendência do ser humano é esconder o olhar. Eu mesma, me pego, muitas vezes, escondendo o olhar...

Coloquei a música acima para tocar, e escutei, logo depois, a música seguinte. Um longo e enlevador  instrumental, interpretado pelo Grupo Semente: Ele é o teu louvor, também de autoria de Sérgio Pimenta. Piano maravilhoso tocado por Gerson Ortega. Simplesmente linda! Sempre que  ouço esta música sou transportada para um outro nível de aproximação com Deus. No encarte deste CD se conta o seguinte "Não dá para esquecer... o Gerson  gravando a música "Ele é o teu louvor" ... quebrantado e cheio do Espírito Santo, sofrendo com a enfermidade de seu primeiro filho, dedicando o que tocava a Jesus..." Os companheiros de equipe do Grupo Semente se conheciam, a ponto de discernir toda a dor que Gerson enfrentava enquanto interpretava "Ele é o teu louvor", em lágrimas, como oferenda ao Rei dos reis. Isso é treino, é prática, isso é comunhão, isso é intimidade, isso é ser um, como Jesus e o pai são um.

O que se se esconde atrás do seu olhar?


Um dos exercícios que inventei para minhas turmas de treinamento em evangelismo urbano é o de lermos os olhares das pessoas. Tentar aprender com o Mestre esse tipo de olhar que vê o ser humano lá dentro, no profundo da alma, que o discerne, que estremece de compaixão pela necessidade do outro, e que se move em favor dele. Um olhar que ama. 

O exercício se chama : 3 minutos do seu olhar. Escolhem-se duplas, normalmente entre pessoas que praticamente não se conhecem. A tarefa: passar 3 minutos olhando nos olhos um do outro, discernindo um ao outro. Como eu monitoro o tempo, posso observar as reações, algumas vezes também participo, e verifico que no primeiro minuto sempre acontece um desconforto gigantesco, as pessoas lutam para não se encararem, tem crises nervosas de riso, tentam olhar para outros lados ou para qualquer parte da sala que não encontre com os olhos do seu companheiro da dupla. Mas o olhar não pode ser desviado. É um momento de muita tensão. A partir do segundo minuto as pessoas sossegam um pouco, a agitação desaparece, se acomodam e há o início da leitura da alma do outro ser. No terceiro minuto do olhar, ambos estão relaxados, há o enternecimento, a compreensão da outra alma, o discernimento dos sofrimentos e das angústias que o outro ser está enfrentando. Há compaixão e o amor começa a nascer.

Terminados os três minutos, os membros da dupla são encorajados a contar o que viram um para o outro, só entre eles, e a orarem juntos a respeito. Já apliquei este exercício dezenas de vezes nos treinamentos missionários que ministro, e todas as vezes, o resultado é o mesmo: o que as pessoas viram no olhar do outro corresponde, no mínimo, a 80% do que a outra pessoa estava passando. Mas elas só discerniram isso, porque empregaram tempo em olhar, em discernir o olhar das outras.

Eu tenho praticado por 20 anos  olhar para o olhar das pessoas. E nestas estradas da vida, vejo tanta dor, tanto sofrimento, desespero e desesperança... eu me identifico com estas pessoas e isso me parte o coração porque muitas vezes estou impotente para solucionar estas questões. E sabe o que mais? Isso deixa o meu próprio olhar cansado e triste. De uns tempos para cá andei concluindo que Jesus teve, provavelmente, um olhar triste, pois é impossível sentir a dor do sofrimento humano sem ser mexido por ela, sem se afetar com ela.

De uns meses para cá eu reparei que meu semblante estava perdendo a energia por conta dos meus olhos, cada vez que era fotografada, eu parecia estar com sono. Passei, nos últimos seis meses, a pintá-los com discrição, na tentativa de dar uma vitalizada no olhar. Mas tenho me lembrado do olhar das pessoas, envelhecido pela dor, cansado de sofrer ... e quando os pinto, percebo que meu olhar reflete a pele do meu corpo, também tatuada pela dor, pelos  sofrimentos, pelas decepções dos sonhos que nunca se realizaram... essa poeira da vida que , conforme o tempo vai chegando, as dores vão passando e as cicatrizes vão ficando, embaça o olhar mais brilhante e infantil.  Nada será como antes, é o que diz o castanho-escuro dos meus olhos, pois lá no fundo deste par de "jabuticabas" brilha uma chama tenra. Não é ofuscante, é delicada e perene, tão sutil que pouca gente percebe, mas é a luz desta chama eterna chamada Cristo, que me enche de amor pela vida e me traz esperança.

O olhar do Mestre tem me inspirado a ensinar e a fazer tudo que faço hoje, que o "Seu maravilhoso olhar" te toque o coração.

"Ao desembarcar, viu Jesus uma grande multidão e compadeceu-se deles, porque eram como ovelhas que não têm pastor. E passou a ensinar-lhes muitas coisas." (Marcos 6,34)

Nem um momento só, deixou-me o seu olhar
Nem quando eu dava dó, negou-me o seu amar
Nem quando me omiti, como se pudesse me esconder
Nem mesmo quando não vi solução
Negou-me sua mão.

(Sérgio Pimenta - Nem um momento só)