quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

44a. celebração

30/12/2009 -

Hoje, às 13:25, completei 44 anos de vida!



Então, se queres saber como eu estou me sentindo, veja este clip. É "minha cara" em dia de niver!  =D



Começo o dia meio sonolenta e desafinada, afinal, não sou uma pessoa "da manhã" meu negócio é a noite, mas depois que a voz afina... ninguém me segura mais =D

Eu já escrevi aqui, muito tempo atrás, que eu nunca entendi porque as pessoas gostam de esconder a idade.
Pra quê? Pra fingir que não envelhecem (como se isto fosse possível!)? Que coisa mais tonta!
Talvez seja pra tentar mentir pra si mesmo ou tentar abstrair a verdade nua e crua de que, a cada dia que passa, estamos mais perto da morte.  Falar de vida, para mim, sempre é falar, também, da morte. Lido com isso com muita tranquilidade.

Por que alguns cristãos ainda sentem tanto medo de morrer? O primeiro e-mail que havia na minha caixa postal hoje pela manhã era de uma pessoa que nega a morte com tanta veemência, que afirma categoricamente que não vai morrer porque vai ser arrebatada, ela acredita firmemente que Jesus vem antes e que ela não morrerá.

Quanto mais o tempo passa, mais certeza eu tenho que viver, cada minuto, cada segundo, é um privilégio  dado a nós apenas pelo amor incondicional do nosso Pai Celestial, e pela  predisposição obstinada dele em exercer conosco dádiva e gratuidade, o  tempo inteiro. Amor escancarado, sem pudor, sem condições, sem esperar nada em troca, amor beijoqueiro, abraceiro, amor escandaloso, amor irreverente, simplesmente amor.

Nenhum dos minutos da minha vida me pertence, jamais foi meu. Tudo é dEle. Costumo dizer que  Deus tem a eternidade como calendário e a vida eterna como agenda. Ele, só Ele, é quem decide quanto tempo passarei aqui entre vocês. Jesus mesmo falou que nenhuma pessoa consegue acrescentar sequer um centímetro ao seu tamanho quanto mais um dia à sua existência!

Por isso, sinto-me tão abençoada por ter vivido 44 anos nesta terra! Foram 16.060 dias! 385.440 horas!
Gente, isso é muita coisa! Tanta gente morre tão jovem, não é verdade? Quantos partiram desta terra antes de viver metade dos anos que eu vivi? E quanta coisa eu fiz nestes mais de 16.000 dias? Uau! Coisa demais!

Eu só consigo pensar que aniversário é uma dupla celebração. É celebração por ter o privilégio de ter vivido tantos dias e horas, e também é celebração porque estou cada vez mais próxima do dia que irei encontrar o Amado da minha alma! Aquele que me ama mais que tudo, que me conhece como ninguém! Que compreende perfeitamente a linguagem muda das minhas sobrancelhas arqueadas, do olhar de canto de olho, da minha testa franzida, da minha coxa estapeada... Ele é o único que sabe qual é o assunto que me faz rir sozinha, qual foi o sonho que sonhei que me faz acordar, em algumas manhãs,  sorrindo e cantando (aliás, Ele brinca comigo toda a madrugada! Não tem como não acordar sorrindo!)

Ele é o único que sabe porque a lágrima me cai no rosto, porque tenho ataques de riso, porque tem hora que sai da minha boca um palavrão do tamanho de uma montanha, e porque às vezes me sinto tão cansada que tudo que quero é meu banho, meu chá, minha cama, e quando começamos a conversar, eu acabo adormecendo...

Ele...  meu Deus, meu Pai, meu Criador, Amado meu, querido demais,  o único que estava comigo em todos os momentos difíceis e insuportáveis que passei, dos quais alguns de vocês já me ouviram falar uma parte, pequena ou grande.

Sim, só Ele estava ali comigo, me impedindo de enlouquecer, de me ferir, convertendo meu pranto em dança, e meu lamento em regozijo, convertendo o desespero em esperança, a desilusão em sonho, Ele, só Ele consegue fazer estas coisas!

O que mais posso eu querer a não ser encontrá-lo, me jogar nos  braços dele e beijá-lo incessantemente, sentada no seu colo, abraçada juntinho, como uma menina pequena, sem qualquer preocupação com o resto da vida, sem preocupar de ter que me soltar dos braços dele porque ele tem outro compromisso a cumprir (ou eu teria!).

Tudo que eu quero é poder encontrá-lo e repetir no ouvido dele: eu te amo, eu te amo, eu te amo. Eu quero olhar nos olhos dele, e sentir esta coisa aqui dentro que queima demais só de pensar que irei fitá-lo, que eu O verei. Aniversário é sempre chegar mais perto deste dia!

Ai! A saudade é tanta que me rasga o coração!




Eu sei exatamente o que este sujeito quis dizer quando escreveu isso aqui:

"Vê-lo-ei por mim mesma, os meus olhos o verão, não outros, de saudade me desfalece o coração dentro de mim ... eu te busco ansiosamente, a minha garganta tem sede de ti." Jó 19,27 e Sl. 63,1.


sábado, 26 de dezembro de 2009

Ainda pensando no Natal...

Povo querido, quando chega esta época eu sempre quero escrever um texto caprichado pra vocês, mas os resíduos do semestre letivo ainda me controlam. Mas enquanto me desembargo das correções de provas e lançamentos de notas ainda estou pensando em Natal. Este ano, especialmente, minha atenção voltou-se para as pessoas impedidas de celebrar o natal por conta das guerras. Acho que é efeito de "Band of Brothers", a série produzida por Spielberg e Tom Hanks, que conta a história dos soldados da Cia Easy durante a 2a Guerra Mundial. Comprei o box duas semanas atrás assisti tudo em três dias. Essa companhia serviu desde a invasão da Normandia até o fim da guerra, sendo a cia que tomou o quartel general de Hitler na Áustria. Dos 10 episódios, o que me deixou mais impactada foi o que ocorreu no natal de 1944, quando subnutridos, mal agasalhados, sem munição,os heróis sobreviveram quase um mês na floresta nevada diante do pesadíssimo fogo cruzado da cidade que se renderia mais tarde. Foram muitas baixas naquele natal, maiores foram as baixas emocionais, daqueles soldados que viram seus companheiros perecendo sem conseguir ajudar pois o fogo era intenso demais. Assim, durante este Natal, pensei o tempo inteiro nas pessoas espalhadas por campos de batalha tão diversos, seja das disputas militares, do desemprego, do desamparo familiar, da fome, da violência, da marginalização, da violação dos direitos humanos... Como ansiamos ainda pela chegada do Príncipe da Paz em tantas áreas da nossa vida! Parece que o Verbo ainda não encarnou, que não virou gente, que não habitou entre nós... até quando? Neste natal, meu desejo é que nossas alegrias não se contenham dentro de nós, e sejam partilhadas por muitos dias e anos com aqueles que nada tem, da forma mais inusitada possível, do jeito mais inesperado. Que o Verbo encarnado, a Palavra que se fez gente, nos motive a mostrar e dividir com outros, o quão conosco esse Deus está e que diferença isso realmente faz. Feliz Emanuel pra vocês!




http://www.youtube.com/watch?v=tvx5uNV02lY

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

ENTRE FLORES E FRUTOS

Texto dedicado à turma de Teologia (turno da NOITE!),  formandos de 2010 da FABAT
15 de Dezembro de 2009












O tempo passa por nós, as pessoas passam por nós ...
Mas nós também, passamos pelas pessoas e passamos pelo tempo...
O que carregamos destas passagens?
Apertos de mão? Esbarrões? Trombadas?
Divergências? Discrepâncias? Desavenças?
Interesse? Amizade? Parceria?
Reflexão? Reconhecimento? Maturidade?
Caules? Folhas? Espinhos ou Pétalas?
Aceitação ou repulsão?
Acolhida ou afastamento?

Os encontros entre pessoas que se gostam
deve ser comparado ao cultivo de um grande jardim-pomar
com plantas, flores e árvores frutíferas variadas,
cada uma com sua identidade, sua característica.

Cuidar de jardins envolve
sentir o aroma delicioso da terra molhada ...
contemplar a alegria das folhas balançantes com o peso da água ...
água da chuva que acabou de cair...

Cuidar de jardins envolve
remover a sujeira das folhas secas que a cada dia caem,
oferecendo espaço para os brotinhos bebês
que verdinhos e risonhos, contemplam a luz do sol...

Cuidar de jardins envolve
sujar a roupa com a lama,
machucar os dedos realizando podas
sangrar as mãos com espinhos
plantar a semente na ocasião oportuna...

Cuidar de jardins envolve
futucar a terra procurando por larvas
empretecer as unhas com o grude da terra,
terra que vai demorar pra sair
ter paciência com a semente,
aguardar seu tempo de primeiro morrer, para depois germinar,
regar, ver crescer, cuidar e colher...

Carrego vocês na memória
como um tempo precioso passado  num lindo jardim
com cravos, gerânios, amores-perfeitos, jasmins, lírios...
vocês são tão variados!
Olho para minhas mãos encardidas
e minhas unhas sujas de terra e penso:
a flor  plantada é tão linda...

Cerco com carinho o canteiro
aquele montinho de terra onde coloquei sementes
e que por vezes quase foram levadas
pelas águas da enxurrada...

Sinto tristeza pela semente que não morreu
e por isso não germinou,
que coisa nova consigo plantar neste lugar?
Contemplo o arbusto rebelde, violento
com um novo formato, gentil e agradável aos olhos,
 prazeiroso de estar ao lado
tratado pelo Senhor, o melhor de todos os jardineiros...

Sim, esse jardim é dele
Me foi confiado um tempo muito agradável e muito precioso ali.
Que ele traga tanta alegria e bem estar a outros
como trouxe para o meu coração!

Bênçãos divinas sobre o Natal e o Ano Novo de vocês!

Profa. Lília Dias Marianno




(qualquer piada com frutinha ou com florzinha haverá revanche docente, viu?
Hehehe! Até parece  que não conheço esse bando de machos, ao invés de chorarem
escondidos no banheiro vão começar a fazer piada!)

OS QUE PROTESTAM!


TEXTO DEDICADO AOS FORMANDOS DO STBSB EM 2009,
Escrito em junho de 2008, publicado só agora...




Eu resolvi escrever-lhes para contar uma história. Uma história de uma turma que conheci aqui na Colina logo que cheguei. Bem... era uma turma muito esquisita. Na verdade não era uma turma, eram várias turmas dentro de uma: extrema direita, fundão, retaguarda central, centrão e o MST (Movimento dos Sem-Turma). Não se misturavam, alguns ainda não se misturam... Eu tenho 13 anos de docência no ensino superior e nunca tinha visto nada parecido. 5 turmas dentro de uma só, tinha vezes que eu pensava que eram 7 turmas, tamanha a fragmentação.

"Professora me passa isso por e-mail pois eu sou representante da turma", disse um logo na primeira aula. No outro dia chegou outro: "professora queria pedir... como representante da turma". E nenhum dos dois era aquele que me fora apresentado como representante no primeiro dia!! E também não me apresentaram uma comissão de representantes da turma! Eu fui descobrindo na convivência. Eu perguntei com meus botões:"que maluquice é esta?"

O tempo foi passando, daí a pouco o centrão tava indo pro fundo, e o fundão  foi aumentando de tamanho até que me pediram pra mudar o programa do curso, naquele surpreendente dia em que eu respirei aliviada por poder finalmente começar a lecionar. Que alívio! Tanto alívio que tive uma crise de riso pra aliviar todas as tensões de ter que lecionar dentro de um formato que não é o meu. E em abril, finalmente começamos a trabalhar. Mas DO MEU JEITO.

Quase matei vcs de tanto trabalho, mas foi consciente.Os seminários também, milhares!!! rs Queria ver o que vocês são capazes de produzir na escrita e na oratória. Turma desafiadora, professora desafiante. Eu sabia que essa turma tinha um potencial enorme, só estava igual uma colcha de retalhos sem saber se encontrar, um bando de "baratas-tontas".

Mas vocês foram desenvolvendo minha proposta "absurda" de disciplina, sem se queixar. Quer dizer, pelo menos não se queixavam na minha frente, o que considerei respeitoso devido às circunstâncias que todos nós nos encontrávamos. Vocês com uma saturação justíficável e eu em processo de adaptação na casa. Sei que muitos leram os textos somente por ler, porque eram obrigados.Teve gente se rasgando pra dar conta das leituras, sei que teve gente que deve ter pago a alguém pra fazer...? Alunos, alunos... filme velho! rs. Outros se enrolavam nos textos, pior que gato novo em novelo de lã. Emboladíssimos. No princípio não conseguiam resumir idéias centrais de um texto. Não sabiam escrever! Mas progrediram! Os textos dos redatores mais problemáticos desta turma, agora no fim, estão irreconhecíveis.Parece que estou lendo textos de mestrado!

Muitos se irritaram por ter que ler a Bíblia, esse livro que andava ficando esquecido da vida acadêmica de vcs. Outros voltaram a conversar com ela com uma alegria, como quem não encontra um parente querido a muito, muito tempo. É impressionante como tantos de vocês tiveram dificuldade justamente com a leitura da Bíblia. Mas muitos outros se encontraram justamente nela. Foi uma delícia ver algumas conversas com o texto bíblico que alguns produziram nestas titulações, vcs que conversaram com a Bíblia, tem um futuro promissor com este livro. Lembrem-se tudo passa, menos as palavras eternas!
 
Mas enfim, resolvi escrever-lhes porque fiquei muito contente. Vocês conseguiram superar um desafio muito maior do que imaginavam. Vcs não tem noção de quantas coisas eu estava avaliando neste processo. Não sou uma professora que trabalha apenas conteúdo e notas. Quero ver o efeito disso na vida de vcs. Faço parte de uma geração remanescente de educadores que quer ver o educando crescer, progredir, frutificar. Mesmo que para isso tenha que brigar com ele, mostrar-lhes o desperdício de energia que realiza quando tem má-vontade de aprender..

Muitos de vocês se superaram. Alguns chegando "doentes" pra me entregar os textos na semana de reconstrução. Outros que pensei: "esse desistiu", me apareceram no último momento com todos os textos fichados e todos os livros do NT titulados! Vocês me surpreenderam!

Sabe por que isso me deixou contente? Mesmo com os trambiques que eu sei que aluno SEMPRE  faz? Porque eu vi esforço, esforço individual que foi se transformando em esforço coletivo. Esforço pra tentar funcionar como uma turma. Começaram a orar juntos! Alguns na turma criando grupos para se apascentarem no ministério!!! Nos dois churrasco eu vi isso, não há mais 7 turmas, nem 5! Há só duas, e espero que em breve a menor delas perceba que está perdendo o "bonde da história" e se torne uma com a maioria.

Gente,  a formatura de vocês está chegando. Esse seminário tem uma tradição que já vem desde os dias que meu pai era seminarista, talvez ainda mais antiga que os idos de 1979...

1) primeiro ano "todo santo",
2) segundo ano "se matando de estudar - fase intelectual",
3) terceiro ano revoltado, ativista, "protestante" no sentido etimológico,
4) quarto ano: "quer saber? tudo é festa! to me formando!"

Na década de 80 o CADS tinha umas camisetas celebrativas de cada uma destas fases. Era uma ovelha (ou uma vaquinha) com aquele aro de santinho, depois com um óculos cheia de livros em volta, no terceiro ano com atitudes de protesto (de "paralisação" rsrs) e por fim o capelo da formatura e um sorrisão de formando, com o canudo na mão.

Vocês demoraram pra amadurecer como turma, mas saúdo aqueles que estão chegando ao final do terceiro ano com muita garra, motivação e vontade de aprender.Lamento por aqueles para os quais, estar nesta casa estudando, é quase que um fardo. Ainda estão no terceiro ano, mas já estão na fase 4, porém amargos, ao invés de felizes. A fase 4 deles, não significa: "tudo é festa", significa "que se dane, to indo embora mesmo!" Uma pena!.

É tudo uma disposição interior e é isso que faz a diferença.
Quis escrever tudo isso enquanto ainda há tempo. Enquanto há tempo de serem um, como Jesus e o Pai são um! Não sabemos se estaremos vivos amanhã. Se hoje fosse a formatura de vocês isso bem que poderia ser a parte de um discurso, mas ainda não é, então espero que aceitem o desafio da fase 4! encerrar com brados de júbilo ao invés de raízes de amarguras e falas rabugentas.


Parabéns novo 6o período! Vocês me deixaram feliz! E me aguardem no segundo semestre!
Não abusem da minha paciência, e nem pensem que estarei "boazinha" no segundo semestre a só por causa desta "cartinha de amor". Continuo "dura na queda".

Meu carinho pra vocês.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

TRIBUTO À ERLY


Ah, Erly...
ainda te vejo chegando todas as manhãs
torvelinhando a casa
abrindo as janelas, sacudindo cortinas
batendo as mantas nos sofás da sala ...
Que alvoroço gostoso!


Ah, Erly...
ainda te ouço cantarolando na cozinha
fazendo um cafezinho,
fritando bolinhos de vagem com cenoura
enchendo as garrafas  com cloro por causa do limo...
Que cozinha apertada para nós duas!


Ah, Erly...
ainda sinto o cheiro da fumaça
das folhas de amendoeiras que tu queimavas
enquanto os maruins assombravas
com aquela varreção no quintal,
E o sudoeste batendo na costa da Marambaia ...


Ah, Erly ...
ainda te escuto ameaçando os meninos:
"Samuel, Daniel, desce deste muro! 
vai cair do outro lado e o jacaré vai te pegar!"
Escuto a resposta deles:
"Tia, aqui não tem jacaré! mentira é coisa do diabo!"
E te vejo rindo, pelos cantos da casa
repetindo as falas das crianças.


Ah, Erly ...
ainda me lembro dos teus olhos arregalados
contrariando o olhar apertado e piscante
que te era tão comum,
cada vez que algo muito sério acontecia
Como prestavas atenção à mim!


Minha amiga querida,
Tu fostes morar com Papai tão de repente...
Oito anos se passaram 
e ainda te busco pelo mundo para o abraço final.
Sinto falta do teu alvoroço,
sinto falta do teu bom humor,
sinto falta da tua atenção,
sinto falta do teu desejo de servir,
sinto falta da tua diaconia tão alegre e espontânea.
Teu lugar no meu coração nunca será ocupado!



Nunca te disse tudo isso em vida
mas tenho saudade do teu amor por todos nós,
da tua comida simples, da tua atenção 
às minhas tristezas e desolações,
do jeito que me ouvias, quando ninguém queria ouvir.

Uma falha irreparável desta minha percepção
tosca, lerda e limitada.
Me fazes muita falta!


Não como uma arrumadeira ou babá
Mas como aquela amiga leal,  confidente, 
como mulher de oração que intercedia por mim
como mãe, como avó, como irmã
como alguém que se revoltava contra a injustiça
mas que alegrava minha vida sempre que tinha chances.


Perdão, amiga, pela minha visão tacanha
sem-noção, sem amor próprio,
de uma estupidez tamanha.
Perdão pela cegueira voluntária à qual me impus
que não me permitiu ver tua alma gigantesca.


Eu me mudei da Marambaia em 2005
e os meus meninos, seus bebês, estão mais altos que eu!
Daniel tem 16 e vai para o segundo grau,
toca violão muito bem
Samuel não quer nada com os estudos
mas é um excelente dançarino,
Está com 13, um poço de muitas emoções.


Encontrei Elisa um tempo atrás,
Ela trabalha no Downtown e vai cursar faculdade.
Suelen já casou, acredita?
Quem diria que aquela magrela ia casar antes da mais velha?
Tuas filhas estão bem, minha querida, são bonitas!
Elas refletem o coração bom e generoso da mãe delas.


Sei que agora,  estás junto do Pai
dando seus risinhos agudos
com os olhos apertados
enquanto aqui  eu me desfaço em lágrimas,
nessa tentativa sem nexo de voltar no passado
e sarar a  ferida enorme que abri dentro de mim
quando não te dei o valor que tu merecias.


Te amo amiga querida, minha irmã, minha parceira!
Como eu queria poder te abraçar agora
para repetir-te, o que sempre me dizias
quando voltavas pra tua casa:
Fica com Jesus!



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Erly partiu em 2001 pra ficar com Jesus.
Nunca mais minha vida foi a mesma.
Depois de sua partida, minha vida tomou rumos que ela já devia ter previsto
mas sempre fez de conta que não sabia.
Ela me ensinou a receber amor com gratuidade.
Hoje, percebi que tinha que escrever este tributo
E enquanto me recomponho da convulsão
de lágrimas que me assaltou
recordo que não havia chorado no sepultamento dela.
Sinto que hoje consegui dizer adeus,
de lá do fundo, 
de lá do endereço da dor.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

ROMANTISMO - LÍRIO

O romantismo que em mim existe
me faz olhar a vida com esperança
a sarar as dores com rapidez
a fim de não perder nenhum momento
do tempo bom que começa hoje.

O romantismo que em mim reside
é uma doença incurável
mas não posso dizer que ele é mau nem chamá-lo de mal
ele é bom, ele é bem!

Ele me leva a regar flores
plantar jardins
cultivar amores
cheirar jasmins
acariciar hortênsias
a ter a coragem do alecrim,
mas finca-me na terra
qual lírio belo, perfumado e forte
evocando do meu nome
aquilo que Lília deve ser


E por falar em Lírio, lembrei de você
poema-irmão-mais-velho
Um lúcido déjà vu de anos passados
que resignifica minha existência:                                                                     2009



Lírio
Flor do campo, flor selvagem,
Folhas verdes muito escuras
Pétalas brancas intensamente perfumadas.
Com tua brancura ornamentas a rebeldia da relva
Teu caule é firme, esguio;
És ao mesmo tempo delicada e forte
Quem tenta te arrancar pela raiz surpreso ficará
Ao ver que, ao invés de morta, renasceste no mesmo lugar.

Lília
Flor da vida, flor selvagem;
Carne desejável muito gostosa
Pétalas macias inconfundivelmente perfumadas
Com tua cor negra ornamentas a rebeldia da humanidade
Tua estrutura é esbelta, inabalável;
És ao mesmo tempo delicada e forte
Quem tenta te matar pela raiz surpreso ficará
Ao ver que, ao invés de morta, recomeças do mesmo lugar.                                                        2005

TEUS MEDOS MEUS

Este poema não é novo, ele surgiu num momento de ruptura, de perda, de muita dor,
mas marcou profundamente o momento em que comecei escrever poesias, anos atrás.


Esse poema me ensina que quando se quer, a gente consegue transformar dor em arte e sofrimento em beleza . Estou ouvindo agora uma música que fala exatamente o que escrevi aqui, 5 anos atrás: o amor não tem medo!


Postei  esse poema  aqui pois um amigo, perguntou noutro blog, o que nós fazemos com os nossos medos. Lembro que na época que o escrevi, alguns amigos me disseram que este poema os tinha ajudado a perceber algumas coisas sobre eles mesmos. Então aqui vai:

Sabe do que tenho medo?
Tenho medo que teu medo te domine,
te enclausurando em decisões amargas,
a ponto de não mais querer-me
(se é que algum dia me quiseste)
E, por medo, te afastes
E eu, termine por não ter-te.

Sabe do que tenho medo?
Tenho medo que tu penses
Que não precisas ser amado
A ponto de rejeitares meu amor
(se é que um dia o quiseste)
E, por medo, tu me percas
E eu, termine por perder-te.

Sabe do que tenho medo?
Tenho medo que tu queiras ser galinha
E não perceba a importância de ser águia
A ponto de deixar-me escapar de teu lado
(se é que um dia comigo voaste)
E, por medo, eu alce um vôo distante
E tu, termines por não ver-me.

Sabe do que tenho medo?
Tenho medo que as dores do teu passado
Te transformem numa criatura tola,
A ponto de te embargarem um futuro lindo
(se é que um dia pretendes pensar  no amanhã)
E por medo, tu olhes pra trás
E termines por não ter vivido.

Sabe do que tenho medo?
Tenho medo que teus amigos te olhem no futuro
Reprovando teu desperdício de vida, de amor
A ponto de não mais te “levarem a sério”
(sé é que um dia tu mesmo te levaste)
E, por medo, tu também os perca
E termines por ficar sozinho.

Há quase dois milênios alguém falou:
“No amor não há medo,
Antes, o perfeito amor lança fora o medo;
Porque o medo envolve castigo;
E quem tem medo não está aperfeiçoado no amor”.
(1 João 4:18)
2005

Invadida

Lembrança do tempo bom
gostoso de se lembrar ...
a santa-ceia celebrada em família
riso, comidas e falas
muito riso!

Lembrança do dia bom
gostoso de se lembrar ...
memórias saltitantes na mente
qual criança cheia de energia
muita saudade!

As lembranças que atravessam minha mente
interrompem minha seriedade num repente;
sentam-se diante de mim como donas da situação
e me contemplam satisfeitas
quando o riso, trancado no ferido coração
me surge espontâneo nos lábios
qual flor desabrochando naturalmente
no princípio da primavera...

Ah,
lembranças de um momento eterno
gostoso de se lembrar...
tiram minha atenção de um texto
e me desconcentram completamente!

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Pai-e-mãe

Supremo Artista
que da alma cuida
enquanto a vida afunda
mas com a paz inunda
pois o amor abunda

Querido amigo
cuja graça emana
de uma fonte inesgotável
de desejo alegre
por minha felicidade imensurável

Deus Supremo,
que com linhas certas
escreve tudo certo,
endireita minha visão
para eu deixar de ver torto
e não tornar o espírito morto
enquanto o Autor da Vida
a tudo tem em suas mãos.

Doce e querido Pai
Saiba eu que teu cuidar paterno
supera em muito meu amor materno.
pois tão materna quanto minha maternidade
é a tua paternidade.
Tu também és pai-e-mãe
pai solteiro, mãe solteira
enquanto pai, se supera,
enquanto mãe, ainda mais.

À tua maternidade
confio o filho que tu me deste
cuida dele com teu mais perfeito,
doador e incondicional
amor de mãe!

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Entranhas

Num só olhar
meu mundo ruiu.
Uma só palavra
me destruiu
As entranhas maternais
Se contorceram
em novas contrações
como a parir o filho outra vez...
não para o meu regaço
não para o meu seio
não para o meu abraço
mas para o acaso
para o ocaso
para longe da minha vista
para onde a saudade aperta tanto
que  mesmo estando perto
se me parece tão distante,
inalcançável, inatingível
e me corrói o peito
com o entorpecimento de um delírio
do qual eu quero acordar
mas não consigo

domingo, 1 de novembro de 2009

Fôlego

Sabe...
o pulmão espremido,
o pranto retido,
o sofrer percebido,
o grito não emitido?

Sabe...
o amor rejeitado,
o concentrar anulado,
o sono alterado,
o olho marejado,
o respirar sufocado?

Sabe...
o corpo dolorido,
o abraço não dado,
o gemido contido,
o beijo esperado,
o suspiro emitido?

Ontem corri,
Corri até o pulmão doer!
Mil metros me cortaram o respirar
esfaqueando meu peito
como lâminas cruéis.

A tristeza cansa ...
Tristeza cansa,
Eu parei, olhei para o céu,
A lágrima não veio,
Mas eu ouvi o chafariz da praça...

Estirei o corpo,
Abrindo o ventre espremido
Alonguei a alma
Senti o coração partido
e respirei todo ar que pude

Um pouco ... expirei,
Segunda vez... expirei,
Três, quatro, cinco,
E ele foi entrando, o Vento
abrindo brechas entre
os músculos do peito
que contraídas
me oprimiam o pulmão

Ele veio, o Espírito,
Como sopro divino
me fazendo alma vivente
de renovado coração ardente
O sofrer curando
O ar penetrando
O respirar liberando
O fôlego voltando

E a dor...
Foi passando, passando,
passando...

Lília Dias Marianno - 01/11/2009


terça-feira, 27 de outubro de 2009

Endereço da dor

Que lugar é este entre o aperto e a libertação?
Entre a angústia e o sossêgo?
Entre a turbulência e a paz?
Não sei o nome...
Mas sei que sufoca o peito,
Atravessa a garganta,
Interrompe o suspiro,
Atrapalha o respirar...
Chega à traquéia com força de grito
que quando não se torna liberto
Se tranca na alma com cara de dor...
dor... dor...
Acho que é esse é o nome do lugar!
Ainda bem que isso também passa.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Pensamentos que se desprendem, acidentalmente, quer dizer... nem sempre!



Esses dias eu e Claudio Carvalhaes tomamos um "chá" virtual.
Adoro conversar com esse amigão, é muito raro, mas sempre muito divertido.
Claudio é teólogo, PhD pela Columbia, especialista em liturgia, arte e performance.
Tem um blog/portal lindo que está para entrar no ar, vou colocar o endereço aqui quando estiver pronto.
Ele está nos EUA há bastante tempo, mais recentemente como professor de uma faculdade presbiteriana em Kentucky, e eu aqui no RJ.
Se vc quiser um diálogo sobre arte e pós-modernidade na religião, esse é o cara!
A gente conversa pouco, e se vê menos ainda (uma lástima para uma amizade como a nossa!), mas sempre que a gente conversa um rastro de coisa boa  fica por aqui na memória, estimulando novos textos, poesias e reflexões.

Hoje resolvi transformar em texto um pedaço da conversa da semana passada, fragmentos do nosso digitar convulsivo no MSN. Quem sabe ajuda alguém!
Então, desfrutem!


Reflexos de mim no chá do meu amigo.

É engraçada, essa coisa de relacionamentos afetivos.
Todo mundo quer ter um, pessoas centradas querem ter um, desde que não "desarrume a casa", desde que não tire a vida da ordem, não tire nosso mundo do eixo, não desestabilize a rotação dele, nem seqüestre o equilíbrio e a paz conquistados. E isso é possível?

De alguma forma me sinto muito identificada neste espaço de "suspensão confortável". Não tenho um relacionamento específico com alguém, mas fico  naquela "antes só do que mal acompanhada". Claro, esperando que alguém tenha a coragem de ser ousado e insistir em entrar no meu mundo, ansioso por ser explorado... rsrs (essas contradições da vida!)
Claro que será bem vindo!

Aí o Claudio falou: isso é bom, mas também é ruim!
Pois é...

Mas as pessoas hoje em dia andam construindo relações afetivas de um jeito tão doentio, atravessado, obcecado, estonteante, desequilibrado e esquisofrênico que eu, sinceramente, muitas vezes perco a coragem de me aproximar e arriscar meu equilíbrio numa relação que tem todo potencial para ser uma grande "dor de cabeça"

É difícil encontrar alguém que ainda se doe por amor e que não confunda amor com paixão. Que entenda que paixão é incontrolável, obcecada e devastadora, mas o amor é que traz paz, serenidade e segurança. Entenda que amor não surge num estalo, mas vai sendo construído na medida que a intimidade gostosamente vai chegando...

Amor não transtorna o equilíbrio do outro, mas oferece amparo e segurança, amor soma, não divide, amor não desestabiliza, mas aquieta. Amor deixa o outro respirar aquilo que ele mesmo é, sem querer mudar, sem forçar a barra.

Eu tenho tanto orgulho de ter encontrado meu ponto de equilíbrio, depois de um relacionamento devastador, estou tão confortável aqui, feliz, serena, fazendo minhas mil e duzentas coisas de uma vez, mas são minhas coisas, rapidamente tumultuam, rapidamente se acertam também.

Lamentavelmente, a gente vai se acostumando a estar só, a não ter ninguém por perto, quando tem que contar com alguém, a só ter a si mesmo e quando precisa de ajuda, só encontra a si por perto. Isso não é bom, com certeza, ainda mais nesta fase em que os filhos estão batendo asas, loucos para voar do ninho...

Mas dói menos que a rejeição, dói menos que o desapontamento do desencontro, dói menos que a sensação de solidão, já que estar sozinho não significa necessariamente ser solitário, dói menos do que o se entregar e não ter reciprocidade...

Nunca se conhece o outro plenamente, mas conseguir decifrar parte do mistério que vai na outra mente, que se esconde atrás do olhar, dentro do coração, e se lançar para atender aquele grito mudo que está ali, que clama por aceitação e compreensão, sem precisar dizer palavras, puxa, isso deve-se querer sentir!

Devia haver mais gente acreditando no amor. O problema é que as pessoas estão se tornando especialistas em estabelecer com o ser amado uma relação comensal. Ou, no mínimo, utilitarista. Nunca se pergunta, num relacionamento: "o que eu tenho para doar", mas sim "o que eu posso ganhar com isso". Quando foi que a humanidade se tornou tão frívola desse jeito? Acho que sempre foi e eu, na minha mente infantil, tantas vezes, não percebi isso antes...

Ser inteiro é se perceber incompleto, por mais antagônica que seja esta percepção.
Mas ser incompleto não significa ser mutilado, significa perceber que se precisa de alguém, alguém que faça as ideias ventilarem, o sorriso se abrir, que faça a gente se olhar no espelho, dando um retoque a mais no visual pensando que aquele alguém vai gostar da novidade...

Eu me disciplino para não entrar nesta onda individualista dos seres humanos pós-modernistas. Mas me sinto muito bem quando me dou ao luxo de fazer algumas coisas só para mim (anos atrás isso seria impensável!). Altruísmo obsessivo também é falta de amor próprio, auto estima-baixa!  E sabe o quê? Sinto-me mais íntegra, mais bela, por dentro e por fora, mais curada, mais saudável... Talvez eu só esteja conseguindo me amar mais do que nunca me amei...

Tenho aprendido de um jeito muito próprio que os outros nunca serão como nós.
Precisamos aprender a amar o outro com todas as suas limitações, sem esperar medida igual,
Afinal, eu também tenho limites, muitos, aliás, cada dia que passa descubro um limite novo!
O outro é o outro, o outro não sou eu.
Amor de verdade entende isso e  fica feliz por simplesmente ser o que é: amor.

Se um coração não encontra um par para devotar tudo isso,
Ele deve aprender a não depender só de uma pessoa para liberar tal devoção.
Ele precisa aprender a se espalhar, se aspergir em tudo que faz e por onde se for passando.
O mundo é grande demais para tanto amor ficar reservado para uma pessoa só.

Assim estou, assim vou.
Vôo, navego, corro, velejo...
Vou com o vento...
Quando quero, paro e aquieto,
Quando canso, rodamoinho e parto,
Livre ... sem dor!
Não carrego arrependimentos na alma,
Talvez porque tudo que fiz, eu fiz amando,
Amando tão intensamente que valeu a pena, pelo simples fato de amar tanto.
Amando a vida, amando as pessoas,
Amando as coisas que faço, amando escrever,
Amando o dar, o doar-se,
Mas amando também o receber, o ser acolhida.
Amando cuidar, de mim, dos meus, do próximo, da criação...
Amando a Deus, acima de tudo, acima de todos.
Ele de novo: Deus no centro de tudo!
Está aí o segredo de tudo isso.

Vez ou outra tenho sensação que, depois de um tempo na vida a gente só fala o óbvio,
Mas é um óbvio que parece tão novo...
Aí da vontade de publicar!

Ame, acima de tudo!
Viva amando!
Deus acima de todos e de tudo,
As pessoas serão abençoadas por conta deste amor!

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Sonho de águia

Sonho de Águia
(Cidade do Panamá - 19/05/2008)
Lília Dias Marianno
Dentro de mim mora uma menina
Sonhadora, romântica, alegre
Vibrante como uma gérbera amarela
Ela está lá no Panamá
De costas para todos
De frente para a pista de pouso e decolagem
E se lembra que ela é uma águia
Ignora as pessoas
Ignora as novidades
Ignora até o momento histórico
de pisar um chão totalmente novo.
Ela sente o impulso de voar como um pássaro forte
Desses que voa lá no alto
E que constrói seu ninho nos lugares absurdos
No cume das montanhas
Nas cristas dos penhascos
Mas ela não sabe onde está seu ninho
Sonolenta, ela adormece
Esperando pelo avião que a levará
Para um destino temporário
Enquanto suas próprias asas não a levam
Para o ninho solitário no cume das rochas
Dividido apenas com seus filhotes e com seu amor.
A menina sonha e dorme...
Dorme e sonha...
Sonha com a águia, seu par
Linda e cortês, galante e fiel.
Sonha em admirá-la e respeitá-la
E por ela ser respeitada e admirada.
A menina sonha e dorme...
Dorme e sonha...
Sonha em ser o arrimo do seu cavalheiro
A quem oferece o peito acolhedor
Quando este chega cansado, abatido,
exausto das guerras da vida.
A menina sonha e dorme...
Dorme e sonha ...
Sonha que um dia será completa
Amando de novo
E sendo amada, talvez pela primeira vez
E suspira dormindo ...
A menina sonha e dorme...
Dorme e sonha...
Sonha com um dia de sol e frescor
Um dia em que o vento
Que sopra nos quatro cantos da terra
Trará para ela
Um inédito alvorecer do amor!

domingo, 6 de setembro de 2009

Mente insana no corpo são

Quando se completa quarenta anos, a vida muda de perspectiva.
Dizem que os homens sentem que nasceram de novo.
Se sentem meninos e pensam que são adolescentes de novo, hehehe
As mulheres, por sua vez, entram na famosa "idade da loba"
Essa idade é maravilhosa! Estou amando cada segundo dela.
Mas o fato é que, quando cheguei aos 41, comecei a refletir sobre a velhice com uma curiosidade singular. Passei a me encantar ainda mais com a sabedoria do ancião e a me alegrar sobremaneira quando encontro estes velhinh@s bem vivid@s e bem resolvid@s
que nos transmitem tanta lição de vida com um simples sorriso
ou uma frase curta dita com muita precisão de conteúdo e de momento...
Comecei a querer ser um deles.
Dizem que depois dos 40 as mulheres não dizem mais que idade tem
e que escondem de todas as formas possíveis 
a visibilidade dos anos no seu corpo... 
eu acho isso tão engraçado!
É óbvio que eu gostaria de ter o corpinho dos 18 anos novamente,
que mulher não gostaria? Essa vaidade feminina tem endereço certo em quase todas as mulheres, mas abrir mão da experiência que esta  quadra de décadas me proporcionou?
nem pensar! Prefiro mil vezes ficar com a idade dos 40 no corpão dos 40.
Mas ainda olho para a boa velhice com um certo encantamento ...
E tenho pena das pessoas que vivem de uma forma que sempre querem voltar no tempo
para refazer as coisas, para ter uma segunda chance.
Quando olho para trás, não sinto esta nostalgia.
Sinto saudade dos momentos vividos, mas não mudaria nada da maioria deles.
Houve momentos na vida que, se tivesse maior maturidade, teria feito as coisas de modo diferente, mas quando olho para o meu coração naquela época,
era tão ardoroso, tão cheio de paixão por tudo que fazia, com tanta vontade de acertar
que, sinceramente, me perdôo pelos "nós" do meu passado com tanta tranquilidade
que às vezes penso que não sou muito normal...
Aí abaixo vai um conto que escrevi sobre velhice em 2007, baseado em fatos reais,
desses que a gente passa na cozinha de casa em qualquer dia da semana ...

TERAPIA DO RISO
Por Lília Dias Marianno
Esses dias eu estava na cozinha e, ao segurar o botão que ligaria o fogo, constatei a dura realidade: a gordura estava começando a chegar num nível insuportável no meu auxiliar de tarefas domésticas: João - o meu fogão. “Tá sujinho hein, velho”, falei para ele.
Interrompi tudo que fazia para esguichar um desses limpa-tudo – desengordurante –abrilhantador - polidor que a química moderna inventou para donas e donos de casa atarefados que não têm tempo de empregar seus músculos na dura tarefa de limpar aquela joça. Detesto limpar fogão!
Mas lá foi o João, sendo enchuveirado pelos esguichos de um Easy-off misturado com Veja multiuso. A alquimia no recinto estava no ápice, e os vapores daquela mistura toda subiam de forma tão bem disposta que tive que ligar o exaustor, pois o cheiro começava a me sufocar. Fiquei pensando como é fácil ser envenenado na própria casa e pelas próprias mãos. Basta usar um desses “limpa-tudo” mágicos divulgados pela mídia.
Para limpar direito tive que retirar as grades, depois os queimadores, as tampinhas dos queimadores, algumas estavam limpas, era só passar um pano. Mas outras precisavam ser lavadas com uma dose especial de disposição. Já era tarde. Coloquei a tampinha maior no queimador de origem e deixei as outras dentro da bacia da pia para lavar no dia seguinte.
Dia seguinte, hora da comida, aquele rush das onze horas que me faz colocar meus lentos pré-adolescentes em movimento de alimentação, verdadeiro trabalho de Hércules. Os queimadores do João estavam limpos no lugar, sem suas tampinhas. Lavei as ditas cujas, enxuguei, mas ao recolocá-las nos queimadores, constatei a ausência de uma delas. Fiquei intrigada. No dia anterior eu colocara três dentro da pia, só não coloquei a do queimador gigante, como é que agora só encontrava duas? A tampa gigante estava no lugar desde a véspera. Fiquei aflita, procurei, pensei: gente, será que joguei no lixo? Se foi isso minha caduquice está maior do que pensei. Revirei o lixo da cozinha. Nada. Revirei o lixo que se encontrava a caminho da lixeira fora de casa. Nada.
O tempo corria e eu tinha que preparar o almoço dos meninos para irem à escola. Fiquei chateada com a coisa. Como eu podia perder um componente tão importante do João desse jeito? Assim, do nada? Como isso acontece?
Quando os meninos saíram revirei todas as partes da cozinha, dali eu sabia que o objeto não teria saído. E danei a procurar, e procurar. Nada! Tive que começar a pensar onde eu poderia comprar uma tampa de queimador do mesmo modelo. Porque a que faltava, eu só podia ter jogado no lixo, lixo que já tinha tomado seu destino longe de mim há tempos, pelo jeito.
Passaram-se dois dias e eu ainda pensava na tampa do queimador. Mais dois dias cozinhando apenas com três bocas de fogo, pensando no ocorrido e completamente estupefata comigo mesma, na forma como a idade me faz perder o controle da situação à minha volta. Me senti cansada com cento e vinte anos, uma velha, senil que não consegue lembrar onde colocou um objeto cinco minutos antes, que coisa degradante.
Fiz uma prece por causa desta tampa: “Deus, preserve-me a memória, porque no dia que eu começar a esquecer de coisas tão recentes como esta é porque estou pronta pra partir desta vida. Ficar aqui com uma cabeça dessas, não dá não, é dar trabalho para os outros”.
Passada uma semana estava na hora de limpar João novamente. Em geral cozinho com muita limpeza no ambiente, o que me leva a esta mordomia de só limpar o fogão uma vez por semana, mas meu primogênito  tinha fritado hambúrgueres na cozinha e de repente  João e José (o exaustor) estavam irreconhecíveis. Impressionante como uma cozinha limpa, feminina, decorada, cheirosa se transforma numa barraca de camelô em pouco menos de cinco minutos. A fritura de um mísero hambúrguer, que poder destruidor!
Gordura, aquela coisa asquerosa estava lá de novo. Lá fui eu desta vez atacando José também. José estava numa situação interna deplorável. Ele não aspirava mais os vapores do cozimento. Como um canceroso dos pulmões que fora um fumante inveterado por toda a vida ele arfava ruidosamente aquela gordura que entrava violentamente por seu motor à dentro. Claro, limpar José sem limpar João depois era besteira.
Ao levantar as grades e retirar os queimadores para nova limpeza, exceto aquele quarto queimador que jazia sem tampa desde a semana anterior, fui surpreendida com uma cena inesperada: sobre a tampa do queimador maior havia algum relevo. Estranho. Chegando mais perto não discerni muito bem, mas quando discerni não cri: a quarta tampa estava ali, todo aquele tempo, em cima da tampa maior.
A tampa perdida, no lixo procurada, que inculcou a dona da casa e a levou à reflexões filosóficas sobre a fragilidade da condição humana e sobre a possibilidade de uma velhice inválida. A tampa que a fez levantar uma prece diferente, estava ali, camuflada pelas próprias reentrâncias circulares da tampa maior, aquela que não tinha ido parar no meio da pia.
Comecei a rir descontroladamente e passei uns quinze minutos sentada no chão da cozinha, dando gargalhadas que me arrancavam lágrimas e me doíam a barriga. Estava sem forças para levantar de tanto que ria e pensando: meu Deus, o nível de caduquice está pior do que eu pensava! A senilidade já chegou e eu nem percebi. A tampa nunca saiu daqui. Minha cegueira é que não me permitiu enxergá-la, e eu cozinhando durante uma semana com apenas três bocas de fogo. João, porque você não me mostrou isso, seu indecente!
Ainda bem que meus filhos não estavam em casa, se me encontrassem sentada no chão da cozinha chorando de tanto rir teriam ligado na mesma hora para minha mãe. Até imaginei a cena:
“Alô, vó, é você vó?”
“Eu sim, é você Daniel?
“Sou eu! Vó, corre aqui! Minha mãe tá passando mal!”

Idade... ela chega! Querendo ou não querendo!
Se aprendermos a dar gargalhadas das peças que ela nos prega passaremos a velhice rindo, e rindo muito!