domingo, 28 de dezembro de 2008

A PARÁBOLA DAS SEIS FLORES

Esse texto foi meu discurso de paraninfa CIEM (29/11/2008).
Um monte de gente pediu cópia, coloquei aqui para ficar mais fácil copiarem.

Parabéns, flores: Ivonete, Luzimeire, Floriléa, Josiane, Conceição e Juliany!

A PARÁBOLA DAS SEIS FLORES
Reflexão em Ec. 3,1-11

Profa. Lília Dias Marianno

O Senhor Criador, que fez o céu e a terra, a relva e os animais plantou neste mundo um lindo jardim. Vez ou outra o Criador re-inventa sua própria criação. E neste jardim chamado mundo, ele escolhe um cantinho, um canteiro especial para tratar de flores especiais. E foi assim, que um dia o Criador resolveu plantar 6 novas flores, 6 flores lindas, resolveu fazer uma experiência, tirou cada uma de um canto completamente diferente do jardim e começou a cultivá-las e tratar delas numa nova terra.

A primeira delas (Ivonete) é uma flor resistente, suas sementes vem lá do interior das Minas Gerais, de Mantena, interior gostoso, de gente tradicional. A flor estranhou a fumaça da cidade, mais ainda: a fumaça da teologia. Por um tempo quase morreu, ficou debilitada, e perguntou ao Criador: "mas por quê me tiraste da minha terra pra me plantar neste solo estranho, solo hostil, onde brota gente intelectualizada demais e me sinto tão pequena"? Mas um dia o Criador se revelou a esta flor e lhe disse: "você é mais forte do que pensas, não quero que pares por aí, ainda tens muito a aprender, este é só o começo".
A primeira flor mineira se alegrou, e descobriu que o aprender é uma dádiva do Senhor,e foi assim, que se dissolveu de tanto estudar. As outras flores do jardim pensavam: "ela vai enlouquecer"! Prá quê tanto curso de uma vez só? Mas a flor sabia, Deus sabia, e ela prosseguiu, completou primeira etapa, completou a segunda etapa, e enquanto cursa a quarta etapa, termina a terceira etapa... Ah, flor mineira, você vai longe, muito longe!
Tudo Deus fez formoso no seu devido tempo...

A segunda flor (Luzimeire) veio lá do nordeste, de Aracaju, da terra que dá caju e muita manga. De fato é uma flor tropical, da região das praias, dos coqueiros, dos côcos... Deus trouxe esta flor lá do nordeste e plantou aqui, neste Rio de Janeiro encantador e belo. Durante um tempo esta flor flutuava, meio aérea. Ela sabia porque estava aqui, mas faltava alguma coisa para lhe dar aquele "click". E assim esta flor ia e vinha, participava de todas as atividades do jardim como uma mera coadjuvante. Até que um dia o Criador pensou, ela está com saudade da terra dela, dos coqueiros... ! Então, num encontro completamente imprevisto pela lógica humana, o Criador trouxe lá do sul do continente um belo cavalheiro. Num belo dia o cavalheiro encontrou a flor do nordeste, e num passeio inocente ele sentou-se sob um coqueiro. Foi drasticamente atingido por um côco que despencou da árvore, quase quebrou o pescoço. A flor se desesperou e começou a cuidar do nobre cavalheiro. O perfume da flor atingiu o cavalheiro e o côco, tão comum em Aracaju, foi uma iluminação ao nobre rapaz. Daí em diante esta flor mudou. De aérea passou a líder, de apática passou a mais guerreira, de senhorita passou a senhora, de alguém que queria bancar a faxineira nas horas vagas, tornou-se enfermeira... é flor! Quanta mudança! Sábio é o Criador que trouxe o cavalheiro do sul e o côco verde do teu nordeste, pra lhe acordar pra vida! E agora você vai... Quem te segura agora? Ninguém!

Tudo Deus fez formoso no seu devido tempo...

A terceira flor (Floriléia) veio lá do norte do país. Do distante Amapá, no meio da Floresta Amazônica. Parece uma índia. Foi plantada no cantinho do jardim de Deus no Rio de Janeiro. Um belo dia, nas aulas do jardim, uma mestra lhe perguntou, você é peruana? Ela disse "si, yo soy"! rsrs. Essa era a única flor que trazia flor no nome. Flor disciplinada, diligente, caprichosa. Interessada nas línguas bíblicas a ponto de aprender quase sozinha, de tanta curiosidade.
Cumpridora de todos os seus deveres. Na reta final de seu tempo no jardim, esta flor descobriu coisas importantes sobre o amor. Primeiro que ele nos envolve, segundo que ele nos movimenta, terceiro que ele nos leva a proteger. O amor, ela descobriu, consegue fazer a gente se esvair, se dissolver. Na perda e na separação, ele causa dor cruel, insuportável e injusta. Mas o que será que o Criador pretendia ao lhe permitir sofrer tanto. Logo ela, tão correta? Quem sabe o Criador não queria ensinar que o justo sofre, que aquele que verdadeiramente ama padece de dor da separação. Mas que tanto a dor, quanto a separação são apenas uma pequena amostra daquilo que o Filho de Deus padeceu e sofreu, ao se separar do Pai e se dissolver, se desmanchar em amor pela humanidade.. esta flor se desmanchou de amor e conheceu o outro lado, o lado de quem se entrega por amar tanto aqueles que são julgados como bons, quanto aqueles que são julgados como maus. A dor de Cristo, é a dor da separação, dor que se converte em alegria quando aquele que estava apartado consegue se reaproximar, consegue se reconciliar... Ah Flor... quantas outras cenas parecidas você ainda vai presenciar?

Tudo Deus fez formoso no seu devido tempo...


A quarta flor (Josiane) é resistente também, ela veio daqui de perto, de Guarapari, no Espírito Santo, da terra da muqueca. Suas sementes, estão na terra dos capixabas, terra de gente amiga e simpática. Essa flor sempre teve muitas certezas. Quando o Criador a plantou neste jardim, suas certezas começaram a ficar abaladas. "Eu não entendo, professora, a senhora diz uma coisa, outro professor diz outra"... Durante um tempo ela se debateu no desconforto de ter que admitir que as coisas não eram bem do jeito que suas certezas sempre disseram que eram. Um dia essa flor conheceu o hebraico, conheceu a exegese e descobriu que sua intensa alegria era mergulhar na Palavra do Criador!Quanta coisa linda estava ali, naquela Palavra e ela não havia percebido antes! Quanta ousadia o Criador colocou neste livro. Que tesouro precioso são suas palavras. E a flor da terra da muqueca entendeu que seu prazer, verdadeiramente, é a Lei do Senhor. Ela vale a pena!Ela ensina tudo. Ela avisa de tudo, Ela aconselha tudo! A tensão desta flor está desaparecendo, daqui uns dias, ela vai concordar, como nunca concordou antes em qualquer etapa de sua vida, com aquele texto que diz "passará o céu e a terra, mas as minhas palavras não passarão"... e ela vai perceber que em TUDO, a palavra do Criador estava o tempo todo ali, criando, refazendo, dando novo sentido, sentido que vai lhe alimentar pelo resto do seu viver...

Tudo Deus fez formoso no seu devido tempo...

A quinta flor (Conceição) também veio do nordeste, lá de Santa Cruz, no Rio Grande do Norte, terra das dunas e das praias quentinhas. Esta era a flor mais tímida, mais recatada. Difícil conhecê-la. Reservada, comedida, prudente, coerente. Essa flor sempre gostou muito dos livros. Seu tempo no jardim era gasto, em grande parte, com os livros. Mas esta flor tinha uma coisa a aprender. O carinho e o amor do Criador, o carinho paterno de Deus. Um dia seu pai adoeceu e ela ficou aflita. Não podia estar perto dele, tinha medo de ele partir e ela estar aqui no jardim, tão longe... e foi assim que o Criador encontrou a brecha para mostrar a esta flor o quanto ele a ama. Seu pai na terra, convalescente, agora no tempo final desta flor no jardim, lhe disse: "filha, eu te amo". Esta palavra veio como um relâmpago do céu que incendeia onde passa. Essa flor entendeu. Meu pai me ama! E Deus susurrou no ouvido dela: "e eu te amo mais ainda!" Essa flor mudou, passou a sorrir, passou a sonhar com o amor. No meio do rodamoinho e do vendaval que muda as estações do jardim uma coisa a manteve firme: Meu Pai me ama! É flor... suas descobertas sobre o amor estão apenas começando... é em amor e por amor que você vai viver daqui pra frente. Tudo em que colocares a mão, terá que ser feito por causa deste amor que você começou a aprender o que é.

Tudo Deus fez formoso no seu devido tempo...

A sexta flor (Juliany) também veio da terra da muqueca, mas veio do interior, de Rio Novo do Sul, de uma casa das mulheres. Florzinha brava esta! Vermelhinha, parece um moranguinho. Inconformada todo o tempo... "ah professora...! (desabafo) ou então "ah professora..." (desalentada), ou ainda "professora... a senhora não sabe a metade!"
Mas como o Criador a ama! Que paciência o supremo jardineiro tem com esta flor. Num tempo em que suas inconformidades a sufocavam, o Criador dizia, minha flor, fica calada, ouve apenas, evita falar o que não deve para não se arrepender depois. Penso que esta deve ter sido uma das lições mais importantes que esta flor aprendeu durante seu tempo no jardim. No fim dos tempos, os ventos foram fortes, esta flor quase sucumbiu, quase sucumbiu porque, por breves instantes, não lembrou que tudo era o mover miraculoso e esvoaçante da mão do Criador quando mexe na ordem das coisas. Quando sopra seu vento criador que coloca ordem no meio do caos. Você já está aprendendo. Mas daqui uns tempos, você entenderá plenamente o que significa "o ouvir é melhor que o falar", e quando isto acontecer, o Criador vai sorrir novamente, pois Ele, mais do que ninguém, sabia que você conseguiria.
Tudo Deus fez formoso no seu devido tempo...

Um tempo passou, outro tempo começa.
E agora o Criador resolveu cortar vocês do jardim.
E colocou todas vocês, tão diferentes umas das outras, juntinhas num belo vaso e vai presentear o mundo com este lindo vaso de flores perfumadas.

Mas isto também significa que é o tempo em que vocês começam a morrer. Morrer para as certezas de outrora, morrer para os embaraços da vida, morrer para tudo aquilo que impede vocês na caminhada. Morrer para as pessoas que lhe afastam do Criador! Ah! Quanto morrer ainda será necessário?! Quem sabe com muita água fresquinha ainda durem mais um pouco, mas não devem se esforçar para se manterem vivas não. O tempo é outro!

O ministério do seguidor de Jesus é tomar cada dia sua cruz e segui-lo. Isso envolve uma crucificação diária, um morrer diário. Só quem morre pode ressuscitar. Quem insiste em forçar a vida na hora que é tempo de morrer, perde a oportunidade gloriosa da ressurreição. Vocês passaram um bom tempo no jardim, e se teve algo que o Criador ensinou a todas vocês, de um jeito ou de outro, ou de forma muito insistente, é que aqui é o lugar onde a gente aprende a morrer.

O morrer da flor é um morrer diferente do morrer da semente. A flor vai perdendo seus polens, deixando seu perfume e seus pedaços onde quer que ela é colocada. A semente é enfurnada na terra, ali apodrece escondida onde ninguém vê. Sô se vê depois que ela gera esperança com uma nova plantinha. A flor não. A flor perde pétalas, perde pólem, perde perfume, perde beleza, mas são estes pedacinhos que ela deixou espalhados, que foram voando pelo vento, que geraram incontáveis vidas por onde quer que elas passaram

Eu gostaria de dizer que o tempo que vocês tem pela frente é um tempo de glória, tempo de alegria e felicidade sem medida, na qual vocês nunca envelhecerão nem sofrerão, mas se eu dissesse isso, eu estaria mentindo. Mas sabe o que eu descobri? Descobri que o mais maravilhoso de ser uma flor neste jardim é poder gerar vida enquanto a gente se dissolve.

Só fertilizarão a terra se seus polens se dissolverem pelo ar
A essência de vocês perfumar esta vida. Sem flor não há fruto! Já pensaram nisso?
Se a beleza de vocês "durar pouco", não se preocupem, pois é quando começam a morrer que as flores podem conduzir a existência dos frutos.

Como eu disse no princípio, o Criador se dá ao direito de re-inventar sua própria criação. Nesta nova vida vocês serão não mais meras flores, mas flores-semeadoras. O que vocês semearem produzirá novas flores, novos frutos. O Criador também já nos disse que plantar também se faz com lágrimas, mas a alegria de ver os frutos é indescritível. (Aquele que sai plantando e chorando, volta sem dúvida com alegria trazendo consigo os molhos). Percebem? Só há riso onde houve pranto antes.

Entrar nesta reinvenção da Criação significa: assinar novos contratos em branco com o Senhor. Implica em não saber o que ele vai fazer. Não saber se as regras do jogo poderão ser mudadas repentinamente. Uma coisa que vc tinha por certa de repente não será mais certa.

É entrega total, confiança desmedida e integral naquele que conduz a história do mundo, naquele conduziu a existência da turma de vocês, naquele que continuará conduzindo a vida de cada uma de vocês.

Ficaram mais sensíveis?
Choraram muito mais do que imaginaram que chorariam?
Se decepcionaram com as pessoas muito mais do que esperaram?
Foram traídas por gente em quem confiaram?
Foram julgadas injustamente?
Tudo isso faz parte! Vocês tiveram uma boa escola!

Afinal, o que é ser discípula de Cristo senão passar também pelas dores que ele passou, pelas injustiças, calúnias e etc, sem que isso lhe faça perder a fé nas pessoas?
Isso é que é ser discípula: passar pelas dores e ainda continuar acreditando no ser humano, continuar amando este ser humano, continuar investindo nele.

Recebam neste dia, meus parabéns, meu carinho e minha oração para que Deus seja com vocês, em cada parte do Grande Jardim, onde Ele decidir plantar vocês.

Meu abraço,

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Tapete de Nuvens

Lilia Dias Marianno
Em 24/05/2008 (Entre Quito e Panamá)

Estou voando sobre um grande tapete de nuvens.
Sua brancura em contraste com o azul do céu
me lembra: estou alto, muito alto.
O horizonte mudou de namorada
Não se deixa mais beijar pelas águas do oceano
Apaixonou-se pelo oceano de fumaça
a quem beija demoradamente
A paz deste oceano branco me transporta
Para um mundo perfeito onde não há dor
Diferente daquele lá de baixo.
Pobre mundo sofredor! Tão belo e tão conturbado!

Nuvens... nuvens densas e esparsas
Tranqüilas ou turbulentas
Vocês me lembram os momentos da vida
Tão belos e ternos! Tão turvos e densos
Momentos que, assim como vocês, eles passam
Momentos pelos quais, às vezes quem passa sou eu

Como floquinhos de algodão
Os filhotinhos de nuvens bailam diante dos meus olhos
Acariciando minha alma risonha com o espetáculo
Essas nuvenzinhas são aprendizes,
Nem sempre a coreografia sai perfeita
E elas me deixam ver um pouquinho do que deviam esconder
Criancinhas sapecas que me mostram o continente
A linha sinuosa da costa
E os rios gentis que pedem licença para ali desaguar
E como num chamar da grande nuvem mãe
Os floquinhos se reagrupam rapidamente
Para reconstruir meu tapete de nuvens

Quando os filhotinhos de nuvens me deixaram ver a terra
Um grande buraco no céu se estabeleceu.
Tive uma curiosidade quase infantil de chegar bem na beirinha
Para olhar lá pra baixo
Mas a sabedoria schwantiana ressoou em meus ouvidos:
“menina, tu gostas de olhar o buraco...
Tens que olhar para cima, para o horizonte
É no horizonte que está a esperança”

Sol, céu e nuvens
Flocos de neve e um azul intenso
são os atores deste espetáculo maravilhoso
Indescritível...

Tão indescritível que me sinto uma tola
Nesta tarefa impossível de definir
Um frescor de alma
Uma alegria das veias
Um pulsar da mente
Um batimento de emoções
Um emocionar dos cabelos
Um escutar dos olhos
Um ver dos ouvidos
Que coisa mais inútil...

Sim, o céu é obra das Suas mãos
E é aqui que encontro paz no meu coração
Quero voar num nível mais alto
Obcecado pela grandeza do Criador
Com pés saltitantes de corças
Ou asas fortes de águia
Desprendido das tristezas da vida

As nuvens passam por baixo de mim
Só tenho relances do mundo lá em baixo
Mas aqui em cima meu coração entende
a ternura e a graça do Pai
Teimosia pura em encontrar bondade humana.
E quando alguém faz o bem a outro ser
Sorridente ela se satisfaz.

domingo, 15 de junho de 2008

Asas do Condor

Lília Dias Marianno
Quito, 22/05/2008

Quito... experiência inesquecível.
Junto com o povo latino da Bíblia
por poucos, mas valorosos instantes
dei-me ao direito de entregar-me
a um novo momento de contemplação,
como que a inaugurar um novo tempo de vida.

Um certo aviador me falara:
"Olha! Quito é cheia de altos e baixos".
Sim! Muitas ladeiras!
Rodeada de vulcões,
só se tem uma noção mais justa do que ela é
quando se está de cima!

Minha parte favorita em Sociedade dos Poetas Mortos
é o inesquecível momento em que o professor
faz com que todos seus alunos subam nas mesas
e olhem para a classe de cima para baixo .
ele disse: "o mundo é totalmente diferente
quando se olha de cima".
Desde que vi esta cena, tantos anos atrás
desenvolvi uma paixão pela montanha como nunca antes
e o mirante da Rio-Petrópolis
é o lugar onde grito: Jerônimo!

Quito é uma cidade assim,
que nos obriga a olhar para baixo
apoiados nas asas do Condor
ave extinta, típica dos Andes
cordilheira que hospeda esta cidade singular.


É certo que o mundo sofre
e alguns Guayasamins gastam a vida
nos lembrando desta dor.
Dolor de las madres sufrientes,
dolor de las familias apartadas ,
dolor de los que siguen amando
los que con los vivos ya no viven más,
dolor de los pobres y miserables...
Dores trazidas à memória
em nossos encontros matinais com Jó.

Mas Intiñan me trouxe tanta alegria!
Esses povos de culturas solares
que passavam seu tempo olhando para o sol,
que professores!
Me recuperou a esperança no amor entre família
na bondade compartilhada entre os que se amam
animais da Amazônia me ensinaram
sobre a fragilidade e a força
daqueles seres cuja profissão
é apenas cumprir o ciclo da vida.
nenhuma preocupação mais!

Relógios solares,
ovos equilibrados na cabeça de um prego,
e os rodamoinhos nas águas,
mudando de movimento se pisamos no norte ou no sul
Sim! A metade do mundo me encantou,
exalando a sabedoria dos antigos
que viviam de forma tão simples e essencial:
A comunhão entre os que se amam
e o curso natural da vida!
Olhavam para o alto!
Seus olhos, fitos no sol, isso fazia toda a diferença.

Ah! Estrela da Manhã, sempre presente!
Sol da minha vida e razão do meu viver!
Aqui do alto ou enquanto lá embaixo
nas descidas e subidas do tobogã da vida
esta vida complicadamente bela que me presenteaste
Para tornar-me o ser complexamente simples que eu sou
Não tenho dúvidas: Tu estás comigo!
O vento que bate no meu rosto
neste vôo magnífico sobre as asas do condor
Deixam meus olhos molhados
por sentir aquele alegre frio na barriga,
friozinho gostoso
de que jamais verei o mundo do mesmo jeito outra vez!

sábado, 14 de junho de 2008

Batistas & Bíblia: uma conversa informal

Texto apresentado em painel no encontro de catequistas da CNBB em outubro de 2005.
Publicado na íntegra em Cadernos da CNBB, n.91, São Paulo:Paulus, 2006.

Lília Dias Marianno.

Um cotidiano que já vem de quatro gerações

Certa vez, uma mulher de origem batista e de condição muito pobre, contava com pouco mais de vinte anos quando começou a passar por sérias crises em seu casamento. Decidida, resolveu salvar sua união conjugal através daquilo que ela conhecia, de sua família e também dos irmãos de sua igreja, como culto doméstico. O culto doméstico deveria ser um momento diário em que, a família reunida, ocuparia algum tempo para a leitura e exposição do texto bíblico e para a oração. Mas o marido nunca estava presente, como fazer? Assim, a jovem senhora decidiu fazer o “culto doméstico” com sua filhinha de três anos. Para suprir a ausência de uma explanação do texto bíblico para uma criança tão pequena, a jovem senhora resolveu adotar o procedimento de fazer sua filhinha decorar os versículos bíblicos. Num desses cultos domésticos, a mãe resolveu ensinar à pequena o seguinte verso: “Onde abundou o pecado, superabundou a graça”. A menininha deveria responder até conseguir falar de cor o verso bíblico, como já havia feito com tantos outros ao longo de tantos cultos diários. Mas a pequena não conseguia. A mãe dizia: vamos, filhinha, repete com a mamãe: “onde abundou o pecado”, superabundou a graça. Então imediatamente a pequena respondeu: “não mãe, abunda é feio!”.
Talvez nem fosse necessário revelar que a jovem senhora era minha mãe e a pequena era eu, com uma atitude de análise semântica ultra-ortodoxa, mas ao mesmo tempo uma crítica ao texto que, se houvesse condições de se avaliar a profundidade do problema, por certo outro caminho teria sido tomado. Ou quem sabe, já fosse um “prenúncio profético” de que a ocupação da pequena seria “exegeta”.
Mães batistas, pelo menos na minha época, foram ensinadas a fazer com que seus filhos decorassem o texto bíblico. Era uma forma de ensinar a criança no caminho onde deveria andar para quando crescer não se desviar dele (Pv.22:6). Não importava se aquilo fazia ou não sentido na cabeça dos pequeninos. O que importava era incutir o texto bíblico. No futuro ia ser útil para alguma coisa. E eu pertenço à quarta geração de batistas...
Determinados termos vulgares, na década de 60, tidos como corriqueiros na atualidade, também eram banidos de nosso vocabulário desde que aprendíamos a balbuciar as primeiras palavras. Não podiam ser pronunciados. Eram “palavras torpes” (Ef. 4:29) e não deveriam sair da nossa boca. Minha negativa se deu justamente porque, com três anos de idade e um vocabulário bastante reduzido, eu já sabia que aquele termo era uma palavra proibida, e não podia falar, e isso me tinha sido ensinado pela minha própria mamãe. Como é que ela, agora, contradizia tudo o que me ensinara?
Ao mesmo tempo em que, quando menina, me recusei a pronunciar uma palavra que, me soava como um xingamento, também minha mamãe não dominava os rudimentos da simplificação do vocabulário e, por certo, algum tipo de revista de escola bíblica dominical determinara que aquele deveria ser o texto da leitura bíblica diária. E isso não deveria ser mudado. Sim! Alterar o texto da leitura estabelecido nas revistas de nossa denominação era quase uma heresia!

“Oh! Quanto amo a Tua Lei”

Retornar um pouco a essa via do passado ajuda-me a perceber a importância e a centralidade da Bíblia na vida dos batistas, algo que sai de nossos documentos denominacionais e atinge a micro-estrutura familiar, chegando até a mente de uma criança com três anos de idade. E embora a história verídica mais pareça uma anedota, ela nos leva a percorrer a vereda do cotidiano dos batistas com a Bíblia, o Texto Sagrado, nossa regra de fé e conduta. Mas muitas vezes temos nos encontrado meio que divididos entre uma ética de vida concreta, fundamentada nos ensinos bíblicos ou a acomodação com a literalidade.
Enquanto crescíamos dentro das igrejas batistas, pessoas da minha idade presenciaram e participaram de inúmeras gincanas propostas nas Escolas Bíblicas Dominicais. Muita gente se pergunta por que os batistas sempre tiveram dois cultos no domingo? Um era para evangelização, à noite, mas o primeiro momento, o da manhã, e, salvo raras exceções, na primeira hora da manhã do domingo, era tempo do estudo da Bíblia, seguido pelo dito “culto doutrinário”.
Classes divididas por faixa etária separavam-se para o estudo da Bíblia. Havia (e ainda há) um currículo para os estudos dominicais que perpassa todo o conteúdo bíblico. Quase que sem variação, aos domingos pela manhã, das nove às dez horas da manhã estão as mais de seis mil igrejas batistas de nosso país e, teoricamente, os mais de um milhão de batistas realizando estudos bíblicos. Depois que o estudo era encerrado, um momento que variava de quinze à trinta minutos reunia todas as classes no templo. Ali as crianças recitavam o verso bíblico decorado (cada faixa etária tinha seu próprio recitativo) e as classes de adolescentes, jovens e adultos eram estimuladas com gincanas bíblicas. Nestas gincanas eram feitos programas de perguntas e respostas e também maratonas de leituras bíblicas, cujo objetivo era ler a Bíblia toda em um ano. Os participantes ganhavam os registros para marcarem a leitura bíblica. Ao final do ano aquele registro era enviado para a Imprensa Bíblica Brasileira e esta emitia ao leitor um certificado de conclusão de leitura da Bíblia.
Muitos colecionavam estes certificados. Ouvi falar de um irmão que já tinha lido a Bíblia inteira mais de quarenta e duas vezes. Nós, mais jovens, olhávamos estas pessoas como verdadeiros ícones, e quase nos matávamos quando chegávamos à Levítico com aquelas inúmeras listagens de utensílios do tabernáculo e leis que proibiam tudo. Muitos desistiam da maratona ali. Outros conseguiam superar o Levítico mas “engasgavam” em Crônicas com as intermináveis listagens genealógicas. Ali outra metade desistia. Mas os que venciam Levítico, Crônicas, o Salmo 119 e as estranhas visões de Ezequiel e Zacarias chegavam logo, logo à delícia do Novo Testamento. Ah! As bem-aventuranças. Era uma glória chegar até elas! E os ensinos de Paulo? As epístolas pastorais nos alegravam o coração sabendo que estávamos na reta final. Por fim, erguíamos o registro de leituras bíblicas orgulhosos quando terminávamos o Apocalipse. Se nos perguntassem o sentido deste último livro, ninguém sabia muito bem, mas tínhamos terminado a maratona. E isso era glorioso. Eu mesma percorri esta via umas oito vezes, depois desisti de contar. Por isso, não era pequeno o número de pessoas que se entendiam vocacionadas para o ministério pastoral que, ao chegarem às instituições de ensino teológico, já conheciam o conteúdo do texto bíblico de norte a sul, leste a oeste.
Um pouquinho da nossa história.
Esta minha memória é também a de muitas pessoas de gerações anteriores, da minha geração e continua sendo a de gerações mais recentes, sobretudo no interior do país ou em comunidades de periferias. Mas os grandes centros já não conseguem mais atrair a atenção dos batistas para a Bíblia desse jeito. Temos sido vencidos pela pós-modernidade e seu sistema de valores confuso e pouco centrado. Mas por que tanta ênfase na leitura e memorização de textos bíblicos?
A expressão batista surgiu no século 17, somos, portanto, reformados, ao contrário do que tentam afirmar alguns de nossos mais ortodoxos membros, quando querem remeter nossas origens à João Batista. Supõe-se que a expressão batista seja uma simplificação do termo “anabatista” que é aquele que batiza de novo.
Nossa origem remonta ao puritanismo (1534), grupo sectário, oriundo do anglicanismo inglês. A primeira igreja batista que se tem notícia foi fundada em Amsterdã, em 1609 por John Smyth. Após a morte de John Smyth uma parte dos batistas se uniu aos menonitas. O grupo que se manteve fiel aos ideais de Smyth fundou em 1612 uma igreja em Londres. Este grupo cresceu na Inglaterra debaixo de forte perseguição da Igreja Anglicana. Muitos migraram para os EUA em busca de liberdade religiosa. A primeira Igreja Batista nos EUA foi fundada em Providence, em 1639, na colônia de Rhode Island. A partir daí os batistas se espalharam por todo o mundo chegando ao Brasil em 1860 através de Jefferson Bowen e consolidando-se a partir de 1882 com Willian Bagby.
Entre os documentos batistas mais relevantes, encontra-se a Declaração Doutrinária da Convenção Batista Brasileira[2]. Em sua introdução está escrito que:

“os discípulos de Jesus Cristo que vieram a ser designados pelo nome batista se caracterizavam pela sua fidelidade às Escrituras e por isso só recebiam em suas comunidades, como membros atuantes, pessoas convertidas pelo Espírito Santo de Deus [...] e não reconheciam como válido o batismo administrado na infância por qualquer grupo cristão, pois para eles, crianças recém-nascidas não poderiam ter consciência do pecado, regeneração, fé e salvação”[3].

Todo este “ardor” e “zelo” com que os batistas têm convivido com a Bíblia ao longo de sua existência, fruto inclusive de nossa inegável participação no movimento puritano, terminou por acarretar duas situações que se fazem notar de forma muito evidente em outros círculos cristãos. A primeira delas é uma rejeição por vezes consciente e por vezes inconsciente da fé de outros grupos de cristãos, principalmente dos que batizavam recém-nascidos. De forma direta e também indireta, escutei inúmeros sermões alegando que cristãos que batizavam crianças que não tinham condições de ter consciência do pecado ou se arrepender do mesmo não levavam “à sério” a doutrina da Salvação.
Com isso, a segunda situação foi mera conseqüência: uma espécie de “superioridade espiritual” no meio batista sempre existiu. Sempre se acreditou, em nosso meio, que batistas eram “mais cristãos” que outros segmentos.
Por se colocarem nesta política de exclusividade, os batistas sempre estiveram muito distantes dos círculos ecumênicos ou de comunidades de resistência política. Inclusive porque, em muitos momentos de nossa história, nossa denominação sempre se fez representar nas cadeiras conservadoras da direita, inclusive durante o regime militar.
Encontrar batistas em movimentos com as características políticas das CEBs era, moralmente falando, algo tido como “imoral”. Fomos fundados por missionários batistas norte-americanos no século XIX e que, por sua vez, sempre tiveram posições políticas de direita. Ou seja, sempre houve em nosso meio, uma quase total incapacidade de diálogo com outros segmentos denominacionais do cristianismo, em especial os católicos ou outros grupos que se posicionavam politicamente como oposição.

Em algum lugar entre a letra que mata e o espírito que vivifica

Quanto à Bíblia, nosso documento de Declaração Doutrinária diz que:

“A Bíblia é a palavra de Deus em linguagem humana. É o registro da revelação que Deus fez de si mesmo aos homens. Sendo Deus seu verdadeiro autor, foi escrita por homens inspirados e dirigidos pelo Espírito Santo. [...] seu conteúdo é a verdade, sem mescla de erro, e por isso é um perfeito tesouro de instrução divina [...] é a autoridade única em matéria de religião, fiel padrão pelo qual devem ser aferidas as doutrinas e a conduta dos homens. Ela deve ser interpretada sempre á luz da pessoa e dos ensinos de Jesus Cristo”[4].

E quanto à igreja, ainda diz:

“... a igreja é uma congregação local de pessoas regeneradas e batizadas após profissão de fé [...] tais congregações são constituídas por livre vontade dessas pessoas com finalidade de prestarem culto a Deus, observarem as ordenanças de Jesus, meditarem nos ensinamentos da Bíblia para a edificação mútua e para a propagação do Evangelho”[5].

Já na Declaração de Princípios Batistas consta o seguinte:

“A Bíblia fala com autoridade porque é a palavra de Deus. É a suprema regra de fé e prática porque é testemunha fidedigna e inspirada dos atos maravilhosos de Deus através da revelação de si mesmo e da redenção, sendo tudo patenteado na vida, nos ensinamentos e na obra salvadora de Jesus. As Escrituras revelam a mente de Cristo e ensinam o significado de seu domínio. [...] A Bíblia é a autoridade final que atrai as pessoas a Cristo e as guia em todas as questões da fé cristã e dever moral. O indivíduo tem que aceitar a responsabilidade de estudar a Bíblia com a mente aberta e com atitude reverente. Procurando o significado de sua mensagem através de pesquisa e oração, orientando a vida debaixo de sua disciplina e instrução.”[6].

É neste ponto que, nossa declaração de princípios tem esbarrado com alguns rudimentos do diálogo ecumênico com a Bíblia. Isso porque, toda nossa declaração doutrinária, ao mesmo tempo em que estabelece a primazia da Palavra incentiva o livre exame da Escritura, e a atitude de reverência ao texto bíblico. Muitas vezes para sermos reverentes ao texto bíblico temos que romper com certos paradigmas institucionais como Jesus fez em sua época. E não se pode estudar a Bíblia com mente aberta sem dialogar com os demais segmentos cristãos, que também colocam a Bíblia como centro, como regra de fé e conduta, como livro normativo. Mas como vencer a tentação de se acomodar com a literalidade do texto bíblico e partir para uma ética que se faz viva através da ação do Espírito Santo na Igreja de Cristo na terra, que por certo não é metodista, presbiteriana, congregacional, católica, assembleiana e muito menos batista?

Tempos confusos que demandam certezas

Neste momento desejo fazer uma análise muito pessoal do que, como batista há quase quarenta anos, tenho observado, não apenas do meu contexto congregacional local mas principalmente do contexto denominacional mais amplo. Acredito ter condições de expressar-me desta forma por estar trabalhando ininterruptamente na liderança batista há vinte e quatro anos, a nível local, regional e também nacional, e em diversos de nossos órgãos representativos, além de ser filha de um pastor batista e conhecer com profundidade o cotidiano de nossos líderes eclesiásticos. Antes, porém, desejo reconhecer também a limitação de minha análise pois a faço a partir do contexto do Rio de Janeiro, que durante mais de noventa anos tem sido o coração da educação teológica da denominação batista, mas isto não quer dizer que seja o melhor representante do pensamento batista a nível nacional
A tradição de zelo pela palavra de Deus que nossa denominação tem carregado ao longo da história, muitas vezes nos deixou muito próximos (quando não nos inseriu totalmente) do legalismo e da intolerância religiosa. Sei que ao registrar de forma escrita estas palavras corro muitos riscos, mas ser indiferente com o processo pelo qual estamos passando, num momento no qual tenho que refletir sobre a centralidade da Palavra no meio batista, seria assumir uma postura “a-histórica”, algo que não pretendo fazer.
Com o crescimento do movimento neo-pentecostal nas décadas de 80 e 90, muitos crentes batistas, bastante fartos do institucionalismo religioso e do estruturalismo eclesiástico, que por muitas vezes acabou ocupando o lugar da centralidade da Palavra no nosso meio, e tantos outros pela própria atratividade que uma prática religiosa mais mística estava oferecendo, começaram a esvaziar várias de nossas igrejas em direção às neo-pentecostais. Esse fato não é isolado. Também tem sido atestado, pelos pesquisadores das Ciências da Religião, que as igrejas protestantes históricas continuam experimentando um esvaziamento, ao contrário dos segmentos neo-pentecostais. E isto também tem acontecido no meio batista de uma forma ou de outra.
Nos anos já referidos, muitas lideranças batistas que, por longo tempo, combateram os segmentos e doutrinas pentecostais, viram não apenas os membros de suas comunidades debandando como também tantos inúmeros pastores, formados dentro de nossas instituições “padrão” de ensino teológico, saírem criando comunidades que ainda se auto-denominam com um sistema de governo batista mas no fundo possuem uma postura eclesiástica neo-pentecostal. Muitos desses adotaram tais medidas como rebeldia a um sistema que não consideravam mais eficiente.
A mudança de milênio foi marcada por diversos congressos de identidade denominacional, onde se pretendia reafirmar a identidade batista estabelecendo muitos debates em torno de nossos objetivos doutrinários e fazendo uma nova promulgação de nossos princípios, e etc. Com isso, a Bíblia, que sempre ocupou lugar central dentro de nossos valores, foi novamente evocada como a nossa base, de forma a mostrar que nunca abrimos mão da nossa regra de fé e conduta. Coincide com este momento a decisão governamental de começar a reconhecer os cursos de bacharel em teologia, exigido para a formação de nosso “clero”.
Entre as exigências do MEC está a abertura do curso e da instituição para que, estudantes de quaisquer credos religiosos tenham acesso às graduações de teologia oferecidas por nossas instituições de ensino superior. Uma grande polêmica se estabeleceu (e tem tomado palco em seguidas assembléias nacionais) nos últimos seis anos sobre a importância de se ter um curso de teologia reconhecido pelo governo e se abrir a instituição para pessoas de quaisquer credos religiosos ou de se manter a informalidade do curso e preservar o acesso apenas aos batistas vocacionados ao ministério pastoral.
A polêmica ainda não acabou, mas o caminho irreversível pelo qual todas as instituições de ensino teológico do meio batista estão tendo que trilhar para a obtenção do reconhecimento do MEC, acabou abrindo precedentes para algo que nunca acontecera em nosso meio: professores com doutorado, oriundos de outros segmentos denominacionais como os presbiterianos, luteranos, metodistas e etc, começaram a integrar os quadros de professores de nossas instituições, especialmente no Rio de Janeiro.
Somando-se a isto o fato de que, já é de algum tempo que nossos teólogos mais conhecidos no meio ecumênico deram preferência para realizar seus estudos de pós-graduação na Europa, ao invés de nos Estados Unidos, como de praxe. A convivência com uma teologia crítica e “liberal”, a descoberta dos rudimentos da exegese histórico-crítica (embora com 200 anos de atraso!!), o contato com os métodos de interpretação da Bíblia embasados na sociologia, antropologia, arqueologia e história, tem revolucionado a mente de nossos teólogos em ascensão.
Não posso deixar de crer que o crescimento do sentimento anti-americano pelo qual nosso país tem passado também tem afetado os teólogos em formação, que tem simpatizado cada vez mais com uma teologia bíblica que vem da Europa do que a que vem dos EUA. A ordenação de mulheres ao ministério pastoral também é um caminho irreversível, e que, embora não seja reconhecido oficialmente pela Convenção Batista Brasileira, através do sistema de governo autônomo que cada uma de nossas igrejas possui, torna-se impossível de controlar. Hoje já são quatorze pastoras batistas ordenadas por todo o Brasil. Há cinco anos era apenas uma.
Também é digna de nota a iniciativa que um grupo tem tomado, de organizar um movimento batista progressista, reunindo outros segmentos que sejam afinados com nosso sistema de pensamento mas com o objetivo de, principalmente, criar vínculos com outros organismos dentro e fora do Brasil e, acima de tudo, “enriquecer e celebrar a diversidade existente no meio batista e fortalecer nossa comunhão com os demais cristãos a partir de uma inserção mais organizada na sociedade, acreditando que temos algo a contribuir tanto no que concerne à diversidade/unidade do corpo de Cristo, bem como nas nossas relações com a sociedade mais ampla”[7].
Todos estes acontecimentos são também frutos de novos olhares sobre a Palavra de Deus, algo que vem como uma torrente em dia de chuva, e vai levando quem está mais próximo.
Muitos teólogos batistas na faixa etária dos 25 à 30 anos têm ingressado em instituições ecumênicas ou nas universidades católicas para um estudo mais crítico das Escrituras. São diversos os que hoje integram o quadro discente de instituições como PUC/RJ, UMESP e UCG. Isso tem obrigado a nova geração a dialogar com os outros segmentos cristãos.
Muitos de nós têm estado ansiosos por isto, outros tantos só “descobriram agora” que havia outros cristãos. É um quadro pitoresco de nossa realidade mas profundamente real. Uma enorme quantidade de batistas que tem “infestado” os eventos de ordem ecumênica como o Congresso Brasileiro de Pesquisa Bíblica promovido pela UCG, o Fórum Internacional de Teologia Contemporânea promovido pelo Instituto Milenium, Jornada Ecumênica, e que tem participado com alegria e emoção da eucaristia celebrada por sacerdotes católicos e pastores protestantes em eventos deste tipo, assumem, com isso, que não mais se consideram superiores aos demais cristãos mas são irmãos dos demais. Isso tem se espalhado como um aroma suave e fresco, de um tempo promissor, que a mim, particularmente, enche de emoção e esperança.

“Tu vens, tu vens, eu já escuto os teus sinais...”

O momento de transição é inegável. Mas neste processo de reafirmação de nossa identidade, e nunca abrindo mão da centralidade da Palavra de Deus em nosso sistema dogmático e de nossa “cultura” denominacional, temos que reconhecer que já não podemos mais caminhar numa via de exclusão dos outros cristãos. Nossa leitura bíblica precisa ser cada vez menos exclusivista e cada vez mais ecumênica e includente. Acredito muito na garra revolucionária destes teólogos da nova geração, que neste momento estão em fase de formação. Eles não mais se contentam com um institucionalismo que não se compromete com o Evangelho que tem os pés no chão, eles acreditam que a Bíblia ainda é a mensagem de esperança de todos os tempos para todas as gentes a partir do momento em que se faz vida e viva através de nossas ações.
Assim, posso encerrar dizendo que, batistas continuam tendo a Bíblia como centro de sua crença, todavia, o próprio processo de reafirmação da identidade, nos obriga a fazer uma releitura da Bíblia que conhecíamos. E nesse processo de releitura, temos sido magnetizados pelo fascinante campo da leitura comunitária e ecumênica, abrindo nossos horizontes para uma convivência muito mais saudável com outros círculos cristãos, que tanto quanto nós, têm a salvação de Jesus Cristo como experiência fundante, tornando-nos, a todos, portanto, membros de uma mesma família.
Só posso encerrar esta fala desejando que a maturidade “contra-correnteza” que é demandada diariamente de todos os cristãos, nestes tempos tão imaturos e confusos de pós-modernidade, nos leve a uma aproximação ainda maior com a Bíblia – palavra de Deus em palavras humanas, tão divina e tão humana, e por isso mesmo nos aproxime ainda mais de todos os seres humanos, alvos do tão imenso amor do “Deus que amou o mundo de tal maneira que deu seu Filho” (Jo. 3;16) para morrer pelos nossos pecados.

[2] Cabe ressaltar que, CBB ou Convenção Batista Brasileira é o maior grupo batista no Brasil, tem sua origem nos grupos de missionários batistas enviados ao Brasil pela Convenção Batista do Sul dos EUA. Atualmente existem batistas que pertencem à segmentos pentecostais. Começando pela antiga Igreja Batista Regular, atualmente vinculada à Convenção Batista Nacional (CBN) e também inúmeras igrejas independentes de nome batista tem surgido derivadas do crescimento do neo-pentecostalismo, grande parte delas dissidentes da CBB ou da CBN. Nossas informações representam a vivência dentro da CBB.
[3] SOUZA, Sócrates de Oliveira. (org.) Pacto e Comunhão. Documentos Batistas. Rio de Janeiro: JUERP/CBB, 2004, p. 13.
[4] Idem, p. 14 e 15.
[5] Idem, p. 21.
[6] Idem, p. 30.
[7] Filosofia Aliança Batista Progressista. Manuscrito de circulação interna. 2005.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Ética dos relacionamentos sob as lentes dos estudos de gênero

Esse é o texto da aula inaugural do curso de "Bíblia e Gênero" proferido em 30/03/2008 (reapresentado em 13/04/2008 na 2a.IB de Petrópolis).


Profa.Lília Dias Marianno[1]

1. Enfoque de gênero: um jeito diferente de ler a Bíblia

Desde o início da década de 90, quando o Projeto Genoma começou a intensificar as pesquisas sobre o código genético dos seres humanos, muitas informações novas sobre diferenças de gênero estão chegando ao nosso conhecimento diariamente. Isto porque pesquisadores do campo da medicina, da biologia, antropologia, psicologia e tantos outros campos de conhecimento estão conseguindo mapear melhor o funcionamento do cérebro humano.
Tal mapeamento presta grande ajuda à empresas, por exemplo, quando se trata de aproveitamento do potencial de seus empregados. Equipes desportivas também já se utilizam bastante destes resultados. Por exemplo, já é estatisticamente comprovado que mulheres dirigem de forma mais prudente que os homens (até as seguradoras comprovam isso pelo preço mais barato dos seguros para mulheres), mas mulheres manobram muito pior! (Há exceções!) Tudo isso por causa de diferenças nas visões periféricas de homens e mulheres. Homens e mulheres simplesmente enxergam diferente.
Também já está antropologicamente explicado porque uma mulher tem prazer em ficar horas num shopping mesmo que não compre nada (HÁ EXCEÇÕES! O meu caso é um), só contemplando vitrines enquanto a tolerância máxima de um homem em esperar uma mulher escolher um par de sapatos numa loja é de 30 minutos! Os mesmos estudos também explicam porque os homens têm tanto interesse em futebol (HÁ EXCEÇÕES) e precisam passar um momento quase religioso do período após a jornada de trabalho com o controle remoto na mão, mudando os canais de TV de minuto em minuto, sem qualquer lógica entre um programa e outro.
Neurologicamente já se descobriu porque as meninas aprendem a falar antes dos meninos, e porque normalmente se saem melhor nas disciplinas ligadas à comunicação e escrita enquanto os meninos superam nas habilidades técnicas e matemáticas. Os mesmos estudos também explicam porque as mulheres falam tanto e os homens muitas vezes não respondem a todas as perguntas que elas lhe fazem, pois homens falam para transmitir informação, já mulheres falam para se conectar com a outra pessoa. Um cérebro feminino produz facilmente entre 6 a 8 mil palavras por dia enquanto o cérebro masculino produz de 2 a 4 mil. Um homem já esgotou a quota diária na metade do dia enquanto a mulher ainda tem umas 5000 palavras pra produzir!
Também já se explica porque um banheiro feminino é um verdadeiro “espaço para relacionamento”, produzindo um falatório que se houve do lado de fora. Ali se fala de tudo: dicas de regime, dor de cabeça, filho na escola, cor bonita do batom, roupas que nos engordam...
Conversa entre mulheres é algo indecifrável para muitos homens. Mulheres conseguem mudar de assunto 5 vezes em 4 minutos, sem perder o fio da meada, e todas se entendem. E mais: conseguem conversar dois ou 3 assuntos ao mesmo tempo! Isso porque durante a comunicação a mulher usa os dois lados do cérebro e a intensidade de atividade cerebral num desses “falatórios femininos” é intensa e atinge todo o cérebro. Já os homens são mais objetivos e sucintos em suas colocações porque não utilizam os dois hemisférios do cérebro na comunicação oral, apenas um deles.
Se a ciência está descobrindo tanta coisa sobre o chamado “sexo dos cérebros”, que nos possibilita entender as diferenças de gênero e a lidar com elas de forma mais amadurecida e tranqüila, isso nos traz um grande desafio teológico: decifrar também o DNA dos relacionamentos humanos dentro do organismo que é a Igreja.
A hermenêutica de gênero implica em compreender as diferenças de gênero no processo de interpretação bíblica, respeitá-las e trazer para a vida da igreja uma proposta de relacionamentos interpessoais mais ética, mais coerente, mais humanizante e, principalmente, mais bíblica para o corpo de Cristo – a Igreja.
Esta proposta tem uma força maior para confrontar a cultura contemporânea, pois ao trabalhar na interpretação bíblica com temas como: corporeidade, afetividade, direitos humanos e sexualidade, faz uso daquilo que a ciência tem descoberto recentemente, proporcionando, sem dúvida, um campo, gigantesco, cheio de riquezas, cheio de novas possibilidades, cujos caminhos mal começaram a ser trilhados.

2. Corporeidade: a experiência de leitura da Bíblia através do próprio corpo

Os pressupostos existenciais de homens e mulheres e as diferenças de cosmovisão (visão do mundo) referentes aos diferentes gêneros não apenas afetam os leitores e leitoras do texto bíblico, mas influenciaram os redatores do texto bíblico e, inevitavelmente, interferiram na história vivenciada pelos seus personagens.
Uma das coisas que já ficou bastante definida nos estudos de hermenêutica de gênero é que as mulheres envolvem todo o corpo nos processos interpretativos e seu ponto de partida é sempre seu próprio cotidiano. As mulheres lêem situações com o corpo, lêem pessoas com o corpo e compreendem textos com o corpo. Tanto que já está definido: corporeidade é um critério de interpretação bíblica típico de mulheres, mas também precisa ser vivenciado por homens, pois os homens também possuem corpos, embora suas relações com seus corpos sejam bastante diferentes da interação das mulheres com seus próprios corpos. Se nós, cristãos, não entendermos nosso corpo, dificilmente entenderemos como o corpo de Cristo pode e deve funcionar de fato.
Por exemplo. A mulher que tinha o fluxo de sangue, a pecadora que ungiu os pés de Jesus, a mulher samaritana, a filha de Jairo, a sogra de Pedro, as mulheres no sepulcro no dia da ressurreição... quantas experiências teológicas de mulheres narradas no NT envolvem o corpo, o alimento do corpo, a cura do corpo e o cuidado do corpo!
Mas não ficamos apenas nas mulheres: a tentação de Jesus no deserto (converter pedras em pães), é um ataque sobre o estômago, e nós sabemos o quanto os homens são impacientes quando estão com fome! A experiência de Zaqueu é paradigmática em envolver o corpo do homem na busca por Jesus. Também o centurião romano que pede a cura para seu servo, Pedro andando por cima do mar, Tomé tocando o lado de Jesus, Jesus em João 21, no episódio em que Pedro voltou a pescar, a própria disputa entre os irmãos Tiago e João, sobre onde ficará “o corpo” de cada um deles no céu, ...tantos homens também se envolveram com Jesus e suas experiências passaaram pelo corpo.Este corpo precisa ser re-significado em nossa vida cristã.
Mas nosso corpo é templo do Espírito. Se recuperarmos um pouco da percepção judaica sobre o corpo, vamos entender o grande valor deste Templo para o senhorio de Cristo e para a habitação do Espírito. Isso nos conduzirá a um entendimento mais profundo, e muito mais sério sobre uma sexualidade bíblica, uma mordomia do corpo apropriada, através do descanso, do exercício físico, da alimentação e tanta coisa sobre as quais, nós cristãos acabamos sendo negligentes.
O Novo Testamento é bastante impregnado de uma visão neo-platônica de que o corpo é matéria, por isso é mau. A alma é espiritual, por isso é boa. Paulo, por exemplo, mostra isso com muita nitidez quando diz: “quem me salvará deste corpo desta morte?” Paulo está impregnado com este neo-platonismo. Mas se o corpo é ruim, porque justamente ele foi escolhido para ser o templo do Espírito?
Os judeus entendem alma e corpo dentro de uma visão unificada, ambos sendo bons, para onde vai a alma também vai o corpo: o sheol, e é este corpo que vai ressuscitar no último dia. Ambos são criação de Deus e nossa alma, ou nefesh (garganta), é o fôlego vivente, o ar que passa na garganta deste ser humano, homem ou mulher, cujo corpo foi criado imagem e semelhança de Deus, pois o texto de Gn 1 diz que Ele nos fez como estátua dele!
Como resgatar, na nossa vida cristã, o valor do corpo sem se tornar hedonista, vivendo somente para o próprio prazer deste corpo? Como cuidar bem deste corpo sem cultuá-lo? Como ser um bom mordomo deste corpo, respeitando seus limites e resistências para que ele mesmo possa ser mais útil no Reino e uma testemunha mais eficiente da graça e da misericórdia do nosso Deus? Como não extrapolarmos limites de respeito, não apenas do nosso corpo, mas também do corpo de nossos irmãos em Cristo, de nossos cônjuges, nossos filhos, nossos parentes mais velhos e mais novos. Como este corpo pode glorificar a Cristo numa perspectiva mais dinâmica? Como entender o significado da expressão: igreja – corpo de Cristo, sendo meu corpo o templo do Espírito Santo, sendo o Espírito Santo, o próprio Deus habitando em meu corpo?

3. Homens e mulheres redescobrindo-se no texto bíblico

Um dos caminhos que temos em mãos é este: reler a Bíblia, voltar a antigos textos, nunca plenamente explorados, pois a Bíblia sempre tem algo novo a dizer sobre antigas histórias. É retornar àqueles textos incômodos e desconfortáveis, que nos deixam constrangidos quando os lemos. Textos que nos trazem indignação e, por que não dizer, irritação?
É redescobrir o corpo dos homens e das mulheres no Antigo Testamento, justamente pela visão espiritualizada do corpo que o AT nos fornece. Principalmente cavar um poço nestas histórias e não nos contentarmos enquanto uma fonte de água viva não tenha brotado dali. Uma fonte que vivificará o espírito de cada um de nós e que matará nossa sede, ao invés de uma letra que matará o corpo.
Nossa proposta foi estudar os textos complicados do AT numa perspectiva de gênero, relendo estes textos através dos nossos corpos, nos colocando na pele dos personagens bíblicos tentando entender deles aquilo que a interpretação tradicional ainda deixou sem ser resolvida no texto. Algumas pessoas comentaram que o enfoque da autora tinha tendências feministas, mas não tinha como ser de outro jeito, pois a autora é mulher, ela olhou para os textos bíblicos como mulheres olham para o texto naturalmente, a partir de seu corpo e seu cotidiano.
Nossos corpos são produtores de comportamento, e comportamento resulta de valores éticos entranhados nas pessoas. Re-estudar estas relações corporais e espirituais, implica em re-trabalhar a ética bíblica que tem ficado esquecida nos afazeres da vida, nos pequenos detalhes das relações entre pais e mães e seus filhos e filhas, é confrontar as falhas nos relacionamentos entre cônjuges, entre noivos, entre namorados, entre irmãos de sangue, irmãos em Cristo, é voltar a viver a dimensão de corpo de Cristo dentro de casa, dentro do trabalho, no ambiente escolar ou universitário, é abraçar o difícil desafio de ser verdadeiramente Cristão neste tempo de pós modernidade em qualquer ambiente em que estejamos.
Vamos olhar novamente aquele mapa (SLIDE 1). Este é um ângulo da Palestina que a nós, aqui no Brasil, só é possível enxergar através das lentes de um satélite. Jamais teríamos como enxergar a Palestina dessa forma se não fossem estas engrenagens enormes que estão circulando no espaço.
Essa é a proposta: passar para o lado de lá, enxergar o texto do outro lado, entrar “na pele” de um personagem que sempre foi esquecido ou negligenciado, resgatar a voz dessa gente que sempre ficou silenciada. Por exemplo: alguma vez já ouvimos um sermão sobre a filha de Jefté, a partir da perspectiva da filha? Ou de Sansão e Dalila, no qual Dalila é quem tem o direito de falar? E se ela pudesse falar, o que ela diria sobre Sansão? Já tentamos ficar petrificados juntamente com a mulher de Ló? E Ismael, por que ele é tão silencioso no texto bíblico? Será que Ismael não sentiu nada, não tinha nada a falar?
Nossa leitura bíblica tem se tornado pouco ousada e conformada com a repetição. Acredito que muitos poucos entre nós, algum dia tentaram ouvir a voz de Ismael em Gn 21. O texto bíblico é pra ser lido e na leitura, deve ser confrontado, conferido com a graça e a misericórdia do Deus que enviou seu filho para nos salvar. Não é pecado suspeitar das interpretações que nos mostram um Deus tão diferente deste que tanto amou o mundo.
Temos que re-ler o texto bíblico e algumas vezes até desconstruir alguns de nossos heróis, pois perceberemos que eles foram tão humanos e falhos quanto qualquer um de nós. E o que nós conseguimos aprender com os erros deles? Esse foi um problema, as pessoas tinham um Abraão e um José tão beatificados em suas mentes que, quando o lado humano deles veio à tona, acabou soando como uma grande heresia. Não podemos esquecer que os personagens bíblicos também foram seres humanos e que perfeito, na Bíblia, somente Jesus conseguiu ser. Ler a Bíblia numa perspectiva de gênero nos leva a fazer perguntas diferentes ao texto bíblico:
Quais eram as motivações de Sara?
Qual era o verdadeiro relacionamento entre Ismael e Isaque?
Despedir a serva com o filho significava abandoná-los “sem direito à pensão”?
Será que Abraão não confundiu o despedir com o “abandonar”?
Como essas questões podem confrontar nossa ética hoje?
Quantas vezes permitimos que o ciúme entre os membros da família separe irmãos?
Por que nos sentimos no direito de oprimir o nosso semelhante quando nos sentimos ameaçados por ele?
Quantas vezes somos tentados a “puxar-o-tapete” de alguém para nos favorecermos ou nos beneficiarmos?
Quantas vezes usamos a palavra de Deus para fugir da nossa responsabilidade com o próximo?
Este trimestre de Palavra e Vida mostrou um jeito novo de ler a Bíblia, mas nem por isso menos sério, menos ético, menos cristão. Ao contrário, valores há muito esquecidos ou ignorados voltaram a fazer parte de nossas discussões. Que entendamos o propósito que é o de resgatar o valor do ser humano na Bíblia e na dinâmica da fé cristã
Quanto do valor do ser humano pode ganhar novo significado através de uma leitura bíblica que re-descubra o importante papel do corpo do crente no corpo de Cristo? Que a gente encare o desafio!

[1] Teóloga biblista, mestre em Teologia (Antigo Testamento) pelo Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil, Mestre em Ciências da Religião (Exegese Bíblica) pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP), escritora e assessora das revistas Estudos Bíblicos e RIBLA (Revista de Interpretação Bíblica Latino-Americana), ambas publicadas pela Editora Vozes, e também das revistas Incertezas (Faculdade Teológica Evangélica do RJ), Mandrágora (Núcleo de Estudos Teológicos da Mulher na América Latina) e Palavra e Vida (Convenção Batista Fluminense). É docente no STBSB, CIEM, FATERJ, FATEP e na UCAM. Além da docência teológica, que exerce desde 1998, atualmente também se dedica a construção de um projeto doutoral sobre sexualidade e espiritualidade a ser desenvolvido na área de Antropologia no IFICS-UFRJ. Blog com mais textos sobre gênero e Bíblia: http://www.relendoabiblia.blogspot.com/.

terça-feira, 4 de março de 2008

Enfie seus dedos aqui neste buraco entre minhas costelas

Neste último domingo nosso pastor pregou sobre o encontro de Tomé com Jesus depois da ressurreição, eu fiquei bastante pensativa sobre alguns detalhes.
Ultimamente muitos estudantes de teologia andam meio perdidos entre a fé e a razão. Ouvi há pouco tempo de uma aluna o seguinte: "ah professora, a gente não quer ficar abalado mas fica". Na ocasião eu repliquei: o que nos abala não são as novas informações sobre uma velha teologia que não tínhamos acesso. O que nos abala é a fragilidade da nossa experiência com Deus.
Nestes momentos o caminho não é questionar o conhecimento novo, o caminho é revisitar nossas experiências fundantes na fé cristã. Afinal, cremos em Deus por causa dos grandes milagres que Ele pode operar ou cremos nele pelo que Ele simplesmente é?
Gosto de imaginar o seguinte: se a Bíblia não relatasse qualquer ato sobrenatural realizado pelas mãos divinas, ainda creríamos nEle com a mesma disposição? Por que somos tão dependentes destas manifestações sobrenaturais para crer? Nós batistas temos tanto orgulho de nossos cultos "racionais", mas nos embolamos tanto nestas horas...
Enfim, voltando ao Tomé, como foi dito no sermão, Tomé não queria viver baseado na experiência dos outros, ele queria suas próprias experiências, seu "chão" teológico tinha que ser concreto, palpável, "pisável". Ele não estava predisposto a crer no relato dos discípulos, queria provar ao vivo e à cores. Tomé era racionalista!
Mas não era positivista! Seu racionalismo o levou a uma experiência concreta, corpórea, de toque, de tato, mas ao chegar neste degrau, ao invés de optar por um positivismo exacerbado, Tomé "volta atrás" e faz uma declaração tão teológica que nem parece ter saído da boca da mesma pessoa: Deus Meu!
O Racionalismo de Tomé o levou a um encontro sagrado com o Deus que em todo tempo andou do seu lado mas ele não conseguia reconhecer! Seu racionalismo o levou a tocar este Deus e por tocar, por ter uma experiência física, fez uma declaração sobrenatural!
Se a gente conseguir traçar em nossos caminhos a lógica da teologia do Tomé, acredito que muitos conflitos entre fé e razão serão diminuídos.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

E essa imagem toda esquisita aí em cima?

Eu sou meio fascinada por mapas. Quando encontrei este aí fiquei encantada! Penso que jamais teria a oportunidade de ver a Palestina sob este ângulo se não fossem os recursos de satélite e da net. Não é diferente? Olhar para a Palestina de cabeça para baixo! Mas por quê, cabeça para baixo? A terra não é redonda (ou ovalada)? Deveria ser possível enxergá-la sob todos os ângulos imagináveis, ao invés de nos limitarmos naquela projeção quadradinha que os atlas nos dão, não é mesmo? Eu quis colocar esta imagem aqui porque trabalhar com Bíblia requer um constante esforço de virar o texto de "cabeça para baixo", e trabalhar com Gênero também demanda o esforço de passar para o lado de lá, tentando enxergar as circunstâncias com o olhar do outro sujeito, com o olhar diferente do nosso. Fiquem aí com a Palestina de "pernas pro ar", pensando um pouquinho em como isso pode ser provocado na reflexão teológica, ok?
P.S.: Vez ou outra eu troco este texto de lugar, retiro lá do fundo e trago à tona para que ele seja uma espécie de apresentação do blogger, junto com a minha "carinha" aí do lado. Esses dias tenho dado palestras em várias igrejas e tenho que "plantar bananeira" para estimular as pessoas a olharem o texto de outro ângulo. Dá um trabalho...! Mas está sendo muito bom.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Essa bondade no coração humano...

Meu contato com o mundo das artes sempre teve um caráter altamente teológico, não sei porquê. Desde as óperas no Teatro Municipal ou concertos diversos, tanto lá quanto em outras salas de música de câmara de nossa cidade e até cinema e exposições de pintura ou de outras naturezas, sempre me encontro refletindo sobre o contato do ser humano com Deus e com seu próximo nestas horas. Do fim da tarde até agora tive chance de assistir a três filmes que me fazem refletir muito sobre a condição humana. Todos três são versões cinematográficas de fatos da vida real.

Um deles se chama "A dádiva de Nicholas", um menino de 7 anos que morre num atentado criminoso fora de seu país e, depois de diagnosticada a morte cerebral, seus pais têm que tomar a difícil decisão de doar seus órgãos, numa terra estranha, e isso acaba mexendo com toda a Itália, o país que na época tinha a menor taxa de doação de órgãos de toda a Europa.

O segundo se chama "O gigante da planície", produção canadense, contando a história de Tommy Douglas, um pastor protestante com um forte ardor por justiça social, que depois abandonou o pastorado para se tornar um político militante por políticas sociais mais justas no seu país. Sofreu toda retaliação dos interesses contrários, ameaças, difamações, mas enfim, sua contribuição tornou-se marco histórico na vida da nação. Ele atuou de 1904 a 1986.

Por fim, um finalzinho da reprise de "Apolo 13", o "fracasso bem-sucedido" da nave que foi avariada no espaço, cuja missão, de "pisar na lua" se transformou num plano de emergência de fazer a tripulação voltar à Terra em segurança.

Três filmes que me mostram a preocupação de um ser humano pela vida do outro, pelo bem- estar do outro, preocupação que se torna heróica quando se reverte em bênção na vida do outro, aquele que é ajudado.

A bondade no coração humano... ela está aqui dentro, aí dentro de você, ainda que nosso mundo tenha se tornado tão deformado, tão repleto de valores egoístas e narcisistas, ela ainda nos leva às lágrimas e nos contorce as entranhas, nos move com compaixão.

Tive um tio que foi um homem muito generoso. Uma pessoa humilde de recursos materiais, mas sua casa vivia de portas abertas para qualquer pessoa que necessitasse de sua ajuda. Quando me mudei de SP para o RJ tive oportunidade de residir na casa de sua família durante uns 2 meses. Pude presenciar como as pessoas algumas vezes abusavam de sua boa-vontade. Aquilo me incomodava muito. Um belo dia perguntei a ele: tio, não te faz mal quando essas pessoas que o senhor ajuda "cospem no prato que comeram"? Como é que o senhor lida com esta ingratidão? Ele falou algo que nunca esqueci: filha, se a pessoa vai cuspir no prato que comeu isso não é da minha conta, mas se está ao meu alcance fazer o bem e eu não faço, isso sim, diante de Deus, eu vou dar conta.

As vezes medito no texto bíblico que diz "as misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos", ou então aquele outro "se não fora o Senhor, que esteve ao nosso lado quando os homens se levantaram contra nós" e fico pensando: o quê Ele vê em nós para sentir esta misericórdia?

No meu imaginário, Seu amor por nós é tão grande que O faz olhar para nós a procura de algo bom, e quando Ele se encontra com a bondade do coração de algum ser humano, parece que ela suplanta a escuridão dos pecados dos demais. Imagino que Deus encontra motivos para continuar tendo esperança em nós, e penso que nestas horas ele dá um sorriso! Ele libera seu perdão e suas misericórdias são derramadas, por isso experimentamos libertação e alívio, consolo na tribulação, e nas palavras de um amigo: "paz no meio do caos". Esse é o meu Deus, de amor incompreensível! Graça inexplicável, porque merecer, nós não merecemos!

"Mas bendito seja o Senhor, que não nos deu por presa aos seus dentes
o laço se quebrou e como pássaro assim, escapamos!"

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Rebeca foi absolvida e a graça começou a ser entendida!

Essas minhas andanças por aí andam me proporcionando algumas surpresas.
Neste último domingo estive numa igreja batista no interior da cidade de Nova Iguaçu.
Meu desafio: lecionar para um público de umas 60 pessoas sobre Bíblia e Gênero, refletindo sobre Rebeca: divida entre 3 amores, a lição 4 da Palavra e Vida deste trimestre.

[nos links aqui ao lado, vc tem acesso ao texto da lição e também ao roteiro de aula que segui com este grupo]

No final da aula tivemos uma dramatização: o julgamento de Rebeca.
Rebeca foi interrogada por um advogado de acusação e uma advogada de defesa, e como mulher e mãe, respondeu à todas as perguntas. O júri era o próprio público, que recebeu pequenas cédulas para votação secreta a respeito desta mãe que colocou seus 3 amores uns contra os outros, o marido e seus dois filhos e depois disso desapareceu da narrativa bíblica. INOCENTE ou CULPADA, apenas uma das respostas deveria ser escrita no papel.

Uns minutos antes, um dos participantes do estudo me perguntara se eu achava que depois de tudo que aconteceu na família eu pensava que Rebeca teria sido "salva".
Com meus apetrechos de teóloga eu respondi que não podemos comparar os padrões de salvação do NT com os do AT. No AT a prática da justiça e a obediência aos mandamentos e à aliança com Deus é que norteavam estas questões de salvação [sem entrar no mérito se Jesus desceu ao sheol pra resgatar essa gente do AT ou não]. Além disso é um grande engodo tentarmos entrar no pleito da salvação das outras pessoas quando separar o joio do trigo é algo que o Senhor Jesus falou que o Pai é quem vai fazer! Longe de nós tentar ocupar a posição de Deus nesta história!

Mas o fato é que fui surpreendida com o resultado da votação: 4 votos nulos, 15 votos declarando Rebeca culpada e 29 votos declarando-a inocente. Fiquei muito surpresa mesmo e tentei refletir no que estes números poderiam dizer para nós.
Rebeca foi absolvida e eu me senti aliviada por ter liberdade de dizer que eu penso que encontraremos com ela no céu sim, porque Deus é amoroso e perdoador.
No fim da reunião eu confessei aos irmãos que estava surpresa e feliz, porque se o julgamento absolveu Rebeca, é sinal que estamos começando a entender o significado da palavra GRAÇA!

E essa imagem toda esquisita aí em cima?

Eu sou meio fascinada por mapas. Quando encontrei este aí fiquei encantada! Penso que jamais teria a oportunidade de ver a Palestina sob este ângulo se não fossem os recursos de satélite e da net. Não é diferente? Olhar para a Palestina de cabeça para baixo! Mas por quê, cabeça para baixo? A terra não é redonda (ou ovalada)? Deveria ser possível enxergá-la sob todos os ângulos imagináveis, ao invés de nos limitarmos naquela projeção quadradinha que os atlas nos dão, não é mesmo? Eu quis colocar esta imagem aqui porque trabalhar com Bíblia requer um constante esforço de virar o texto de "cabeça para baixo", e trabalhar com Gênero também demanda o esforço de passar para o lado de lá, tentando enxergar as circunstâncias com o olhar do outro sujeito, com o olhar diferente do nosso. Fiquem aí com a Palestina de "pernas pro ar", pensando um pouquinho em como isso pode ser provocado na reflexão teológica, ok?

P.S.: Vez ou outra eu troco este texto de lugar, retiro lá do fundo e trago à tona para que ele seja uma espécie de apresentação do blogger, junto com a minha "carinha" aí do lado. Esses dias tenho dado palestras em várias igrejas e tenho que "plantar bananeira" para estimular as pessoas a olharem o texto de outro ângulo. Dá um trabalho...! Mas está sendo muito bom.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Sexo, sexualidade e reflexão teológica (parte 2)

(continuação da postagem anterior)

3. Reflexão bíblico-teológica feminista latino-americana para o século XXI

Em 2004, teólogas biblistas latino-americanas, assessoras de RIBLA[1], se reuniram no Brasil para discussão das pautas hermenêuticas que norteiam a reflexão bíblico-teológica feminista. O objetivo era listar as prioridades e ênfases na reflexão teológica para que a hermenêutica bíblica feminista latino-americana continue seguindo seu caminho sem abandonar seus pilares, seus valores centrais, abrindo, porém, novos tópicos no debate de gênero, religião e teologia bíblica. Ali se reafirmam alguns paradigmas para a hermenêutica bíblica feminista latino-americana no despontar do séc. XXI[2]:
a) A parcialidade interpretativa e a pluralidade de paradigmas é critério interpretativo em nossas abordagens;
b) a hermenêutica feminista latino-americana é filha do movimento bíblico-teológico latino-americano e continua tendo como objetivo “a construção de relações justas e de superação de todas as formas de violência, partindo de nossos [...] corpos, experiências e relações de construção de “um outro mundo possível”[3].
c) três enfoques de semelhante prioridade para a reflexão são estabelecidos: libertação, ecofeminismo e étnico-racial.
d) Parcialidade, provisioriedade, ambigüidade, diversidade, experiência e simultaneidade foram categorias assumidas pelas biblistas como categorias hermenêuticas de crítica aos poderes hegemônicos.

Alguns teólogos pouco familiarizados com os estudos de gênero ironizam as iniciativas feministas classificando tais categorias como “falta de objetividade” dizendo que as biblistas feministas não são claras nem diretas quanto ao que querem discutir teologicamente. Entretanto, para as biblistas latino-americanas este é um paradigma e nosso maior diferencial: não dar respostas prontas, antes levantar novos questionamentos, novas suspeitas hermenêuticas e apontar novos caminhos ou caminhos antigos a serem revisitados. É pedagógico pois o educador não é aquele que formata o pensamento do educando, antes o ensina a pensar e a refletir.

Não podemos desconsiderar os fatores sociológicos que deram origem à teologia feminista neste continente, muito menos esquecer que a militância feminista latino-americana, muito mais do que uma luta por igualdade de direitos, nasceu pela ausência de entes queridos, a partir das casas governadas por mulheres, casas cujos homens morreram nas lutas de resistência política ou ficaram trancafiados, sendo torturados por décadas como prisioneiros políticos em nossos países que sofriam sob a pesada mão da ditadura militar nos anos 70 e 80. Os motivos deste nascimento foram só nossos.

Tais princípios (parcialidade, provisioriedade, ambigüidade, diversidade, experiência e simultaneidade) são assumidos justamente por sabermos que, mesmo numa crítica ao poder instituído, nem tudo é criticável, nem tudo pode ser visto de forma negativa, estabelecer valores generalizantes, definitivos, objetivos, unilaterais, teóricos e sucessivos implica em desprivilegiar os aspectos positivos e benéficos que também devem ser mencionados em nossas abordagens cada vez que tentamos, através de nossas reflexões, propor “um novo mundo possível”.

O principal desafio é o de não tornar nosso discurso um modelo feminilizado do discurso patriarcal tão criticado. Isto é, não permitir que o discurso feminista se torne tão militante que termine por marginalizar quaisquer pessoas que não sejam mulheres, e acabe se tornando uma cópia invertida do modelo machista. Cotidiano e corporeidade passam a ser categorias hermenêuticas articulando o pensamento feminista com as preocupações básicas de nossos povos pobres, o sistema de mercado, as políticas neoliberais e seus efeitos na vida do continente latino-americano.

4. Teologia Queer ... do que se trata, afinal?

Apropriando-se das teorias de gênero como roteiro para o questionamento dos papéis sociais entre homens e mulheres, os integrantes do universo GLBTT começaram a participar dos Estudos de Gênero, direcionando seus esforços para a pesquisa sobre sexualidade[4].

Desde os finais do século XVIII os estudos sobre sexualidade humana estabeleceram uma ruptura com o conceito de que sexualidade é alguma coisa fixa e homogênea e que padrões diferentes de sexualidade não sejam identificáveis. Os estudos de Michel Foucault muito contribuíram para a compreensão de que a sexualidade humana tem uma história. Suas teorias formam os princípios germinais da Teoria Queer.

No início dos anos 90 o termo queer foi adquirindo significado mais específico e seu principal objetivo foi questionar o centrismo da heterossexualidade que estrutura as sociedades, com isso propôs caminhos mais diversos e menos dualistas. Queer é tudo que não se enquadra, nem se encaixa no dualismo homem – mulher que define as relações heterossexuais normativas e consideradas “normais”, isto é não-desviantes. Sexualidade queer é justamente a sexualidade que se desvia do padrão normativo estabelecido na construção social.

“O questionamento do binarismo/dualismo homo-heterossexual não implica apenas o rompimento com a normatividade da sexualidade heterossexual, mas a problematização da organização social que está organizada ao redor dela. [...] a vida pessoal não é apenas política, mas sexualizada e, consequentemente, heterossexualizada. Por isso seu objetivo tem sido dar um passo além dos estudos de Gênero e tornar a sexualidade um assunto de relevância acadêmica, não só nos discursos e estudos da medicina e psicologia, mas em áreas tão diversas quanto economia, sociologia, antropologia, política e religião”[5].

Pesquisas recentes de cientistas renomados[6] como Berte Pakkenberg, Gunther Dorner, Dick Swaab (Netherland Institute of Brain Research) e a geneticista britânica Anne Moir têm trazido importantes descobertas no campo da sexualidade na última década. Estudos sobre codificação do DNA têm cooperado para o entendimento sobre quais seriam estas sexualidades entendidas como “desviantes” ou múltiplas, como o nome queer deseja definir. Tais estudos estão nos conduzindo a uma revisão do pressuposto de que homossexualidade seria doença, opção sexual ou atitude imoral e que na verdade tem muito mais conexão com o código genético que uma pessoa recebe durante seu processo embrionário[7].

Diante destes novos postulados, que papel desempenha a reflexão teológica? Pode existir uma teologia queer relevante para a vida da igreja? Que formulações éticas tais aproximações conseguem oferecer? Como uma hermenêutica queer pode contribuir para uma teologia pastoral mais humana? Que tipo de contribuições uma hermenêutica queer oferece à interpretação bíblica num momento em que a lista de direitos civis conquistados pelos gays aumenta a cada dia? Uma reflexão teológica queer é necessária?

Entender como os teólogos gays pensam teologia não significa aprovar e adotar suas práticas homossexuais. Que ninguém entenda isso de maneira equivocada! Entender o diversificado mundo queer implica em compreender um universo sempre sectarizado e marginalizado pela sociedade e para o qual, durante muitos séculos, a igreja se recusou a exercer uma prática pastoral inclusiva. Afinal é o “corpo de quem não se encaixa” que terá a oportunidade de ser ouvido neste exercício. “A teologia queer parte das histórias vividas pelas pessoas homossexuais como forma de devolver-lhes a palavra e permitir que articulem seus próprios anseios e necessidades”[8].

Sérias questões pertinentes à corporeidade e à sexualidade entraram no debate teológico através dos teóricos queer. Gays também lêem a Bíblia, estudam teologia, fundam igrejas cristãs e pastoreiam estas igrejas e não há nada que façamos que consiga deter o crescimento destes segmentos. Eles existem, simplesmente, estão na sociedade crescendo em número de fiéis.Meu objetivo aqui não é entrar no mérito da questão se é certo, se não é, se é bíblico ou não, se é pecado ou não. Estou me limitando neste texto a ser apenas descritiva. Nem sequer emito minha opinião sobre o assunto, não é mesmo minha intenção.

A teologia/hermenêutica queer apropria-se de vários eixos hermenêuticos da teologia feminista, por exemplo, questões de corporeidade, a luta contra a opressão social, contra a violência sexista, a favor da inclusão dos marginalizados etc. O momento de globalização, as lutas pelos direitos humanos e as ênfases mais recentes contra homofobia, discriminação sexista e racismo, e principalmente as recentes mudanças no código civil brasileiro, exigem que tais temas sejam revisitados e tratados não apenas com olhos espirituais, mas com seriedade jurídica e civil para que a Igreja, não se torne instrumento de segregação de alguns grupos específicos de marginalizados, ao invés disso, contribua para relações mais humanizadoras, que espelhem mais fielmente o amor inclusivo de Jesus, que nunca interditou a entrada nem dos coxos, nem dos mancos, nem das prostitutas e pecadores no banquete do noivo, o filho do Rei (Mt 22,1-10).

5. Depois disso tudo, em que pé está o “mundo dos machos”?

Recentemente ouvi de um senhor na faixa de cinqüenta anos o seguinte: “parece que a sociedade enlouqueceu, as mulheres deixaram a casa para trabalhar fora e de repente virou obrigação para os homens se tornarem gays!”. Logicamente a afirmação exagerada deste senhor não tinha qualquer fundamento científico nem qualquer verificação estatística. Os homens não estão deixando de ser “hétero” para serem gays, e ser gay não implica em adotar um terceiro sexo e deixar de ser homem. Mas de fato, o que ele estava sentindo era o sacudir inevitável das rápidas mudanças que a sociedade tem passado e principalmente a quebra do modelo patriarcal e a ruptura com o sistema androcêntrico. Uma contribuição valiosa que os estudos queer trouxeram para o debate sobre gênero são as análises sobre identidade masculina gay, que por simples questão de eliminação acabam definindo também a identidade masculina heterossexual.

As mudanças sociais andam mexendo em várias áreas, que vão desde saúde sexual masculina até desemprego, afirmação de identidade e auto-estima à síndrome do pânico e depressão. O mundo dos homens está sofrendo reviravoltas muito mais rápidas do que o das mulheres ou dos gays, está sacudido com a mutação cultural que vivenciamos nesta velocidade astronômica. Ninguém estava preparado para mudanças tão radicais de forma tão rápida.
É crescente o número de programas de televisão ou até mesmo de canais por assinatura dedicados aos homens e aos seus apetites, como que a preservar os pequenos espaços reservado para um machismo que não seja sufocado pelas críticas que deixaram de ser puramente feministas para serem sociais. Ser machista na sociedade pós-moderna, implica em começar a ficar deslocado, ser taxado como ignorante e pouco evoluído. É crescente o número de homens que criticam outros homens por se manterem com uma mentalidade androcêntrica e patriarcal. E isto é um sinal que os paradigmas realmente estão sendo trabalhados, mas todo extremismo é perigoso. Há valores importantes que precisam ser mantidos, não entraremos aqui num detalhamento porque este seria o tema para um outro artigo.

Estudos teológicos e hermenêuticos sobre masculinidade são conquistas recentes e ainda não se chegou a uma década de estudos no Brasil, mas sua relevância para o campo da teologia é simplesmente inquestionável, uma vez que nosso institucionalismo religioso ainda é majoritariamente masculino. A cada dia cresce o número de fóruns de masculinidade, grupos de reflexão teológica a partir dos varões, enfim, finalmente a leitura de gênero conquistou o coração dos homens e eles agora também trabalham com questões de gênero.

Vale a pena ressaltar os números temáticos da revista Estudos Bíblicos: (n. 86) Bíblia e Masculinidade e (n.87), Bíblia e Corpo, ambos resultantes de grupos de gênero orientados para o debate sobre masculinidade. Também o grupo de teólogos-biblistas latino-americanos publicou este ano o número 56 da Revista de Interpretação Bíblica Latino-Americana sob o tema Re-imaginando a masculinidade, contendo 15 artigos debatendo a questão à luz de uma teologia bíblica. Também devo ressaltar o vol. 12 da revista Mandrágora, publicação anual do NETMAL – Núcleo de Estudos Teológicos da Mulher na América Latina da Universidade Metodista de São Paulo, que é um dos grupos de estudos feministas mais antigos do continente. Coordenei pessoalmente a edição de Mandrágora n. 12 sob o tema Gênero, religião e masculinidades. O último ensaio desta edição traz, de forma bem-humorada, mas não menos séria a necessidade que estudantes de teologia sentem de debater as questões de masculinidade em nível curricular nas graduações de teologia. Neste ensaio sob o título: “Masculinidade: queremos conversar sobre isso! Uma proposta curricular para graduações de teologia” inserimos diversos insights fornecidos pelos alunos de teologia, quase uma pesquisa de campo realizada em dois semestres onde a Temática Teologia e Gênero foi introduzida em seminários batistas em cidades da Baixada Fluminense.

No segundo semestre de 2007 novamente a disciplina voltou à graduação de teologia e foi desenvolvida em nível curricular sob o título Teologia e Gênero (seminário de pesquisa) oferecida na graduação de teologia da FATERJ (Faculdade de Teologia do Rio de Janeiro). Mais uma vez a reflexão está alcançando um significativo nível de maturidade acadêmica e ficamos felizes que Incertezas abra também este espaço de reflexão. Mencionamos na bibliografia todos os números temáticos de revistas que resultaram dos movimentos mencionados desde o início deste ensaio.

Conclusão

O grande desafio para os estudos de gênero no ambiente teológico e das Ciências da Religião tem sido trazer os discursos de gênero para uma confluência de objetivos comuns. Tecnicamente isso atinge tudo que já foi mencionado.

O objetivo é equiparação jurídica, social e religiosa dos gêneros, sejam eles femininos, masculinos ou queer. E o maior desafio encontra-se na transformação das estruturas patriarcais e androcêntricas em estruturas de gênero equiparáveis entre si. É trazer os gays para o diálogo sem que a militância termine por segregar e discriminar os heterossexuais. É trazer os varões para o diálogo, ouvindo-os e percebendo os próprios caminhos criados por eles para a construção de uma nova masculinidade possível, que consiga ser uma leitura de gênero sem ser androcêntrica.
Acima de tudo é imprescindível acompanhar os avanços dos estudos de geneticistas e bioquímicos sobre sexualidade, constituição hormonal, estruturação sexual do cérebro humano e tantos outros componentes científicos que irão nos auxiliar na reformulação de novos postulados teóricos e para um estudo de gênero relevante para a teologia brasileira e latino-americana e principalmente para a práxis pastoral no seio da igreja.

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Notas:
[1] RIBLA – Revista de Interpretação Bíblica Latino-Americana.
[2] RICHTER REIMER, Ivoni, Respiros... entre transpiração e conspiração, p. 158.
[3] Idem.
[4] Devemos fazer a devida diferenciação entre sexo (gênero da pessoa, constituição bio-física) e sexualidade (comportamento sexual), podendo esta ser resultante da constituição bioquímica e endócrina de uma pessoa (exposição hormonal determinada no código genético) bem como da estruturação neuro-psíquica (cérebro e inteligência emocional). Para aprofundar esta questão vale conferir: PEASE, Allan; PEASE, Bárbara. Porque os homens fazem sexo e as mulheres fazem amor? Especialmente os capítulos que trabalham a estrutura hormonal e cerebral de heterossexuais e de homossexuais , p. 36-59 e 115-124.
[5] TURNER, William.B. A genealogy of Queer Theory, p. 22, citado e traduzido por: MUSSKOPF, André Sidnei. Corporeidade queer: Hermenêutica Bíblica e Teologia. André Sidnei Musskopf é o teólogo sistemático brasileiro pioneiro nas pesquisas sobre teoria/teologia queer. Sua vasta bibliografia é acessível pelo seu currículo na plataforma lattes.
[6] PEASE, Op. Cit., p. 115-124.
[7] Idem.
[8] MUSSKOPF, André. Além do arco-íris, p.155.